2018-06-04T08:16:31+00:00 Opinião

Quando a qualidade nacional é premiada

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
4 Junho, 2018
Quando a qualidade nacional é premiada

Já não é a primeira vez que escrevo sobre o Festival Vodafone Paredes de Coura e temo bem que não seja a última. Pelo menos enquanto me der motivos para escrever, vou continuar a fazê-lo. Mais que um festival de música, é uma prova de resiliência e de grande sucesso a nível nacional e internacional, num local inusitado e que provavelmente ninguém conheceria se não fosse pelo festival. Paredes de Coura, essa vila onde há um belo festival de música.

Em 2018 vai para a 26ª edição e tem logo a saltar à vista os Arcade Fire como grandes cabeças de cartaz. Depois da atuação épica, que se imortalizou na memória de quem lá esteve em 2005, o super grupo do Canadá volta a Portugal, ao Alto Minho, ao festival que mais toca – literalmente – nos corações do público festivaleiro. Não é, porém, por nenhum destes motivos que resolvi escrever novamente sobre o ‘Couraíso’.

Dos nomes que já foram lançados até ao dia em que escrevo há um aspeto singular; não só para o festival em si como no panorama geral nacional: em 33 concertos, 11 são de bandas portuguesas. Um festival com a dimensão que o Vodafone Paredes de Coura já atingiu, apresentar um line-up com 11 bandas portuguesas é uma prova dada do olhar sempre atento ao que se faz, não só lá fora, mas sobretudo cá dentro. A vaidade aqui não se sobrepõe à qualidade e esta atitude de desdém ao que é nacional – sobretudo nas artes – é algo em que nós, portugueses, somos peritos. Aqui, claramente, não acontece isso. Ainda bem!

“A música portuguesa passa – há já uns 10/15 anos – por um período áureo. Longe vão os tempos em que encontrar uma banda portuguesa num festival era um oásis. Difícil agora, para quem programa estes festivais, é decidir quem deixar de fora”

Elenquemos os nomes: Ermo, Grandfather’s House (ambas de Braga), Dear Telephone, smartini (de Caldas das Taipas), Fugly, X-Wife, Surma, Linda Martini, Keep Razors Sharp, The Legendary Tigerman e Dead Combo. Há, portanto, de tudo; nomes já consagrados, nomes recentes, nomes que são mais e outros que são menos (re)conhecidos, mas todos com algo em comum: a qualidade.

Para o consumidor de música e para os músicos é reconfortante saber que há um festival atento e onde todos têm hipótese de um dia pisar um dos palcos do mesmo. Poderá haver quem diga que é uma estratégia para poupar dinheiro, já que bandas como Arcade Fire são das mais caras do mundo. Ainda que seja isso, é uma estratégia inteligente e que não belisca ou tira mérito a quem faz esta aposta. Neste campo prefiro falar de factos e aí os ouvidos não enganam; estamos a falar de projetos musicais que lançaram recentemente trabalhos de grande qualidade, nos mais diversos estilos musicais, e que justificam a chamada a este festival. A título de exemplo, vejam o caso de Ermo, recém-nomeados para os Prémios Globos de Ouro. Aqui, não me importa tanto o prémio em si, mas o significado da nomeação, onde com um disco de música eletrónica alternativa conseguiram ser reconhecidos por um júri que premeia o radiofónico, apenas. Bravo!

Claro que para quem está atento e é ouvinte assíduo de música não é apanhado com tão grande surpresa para o facto de haver 11 bandas nacionais em 33, em Paredes de Coura. A música portuguesa passa – há já uns 10/15 anos – por um período áureo. Longe vão os tempos em que encontrar uma banda portuguesa num festival era um oásis. Difícil agora, para quem programa estes festivais, é decidir quem deixar de fora. Que bela dor de cabeça!

Sobre o autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante da música, do cinema e do Sozinho em Casa.

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