Revista Rua

2018-08-06T11:24:59+00:00 Opinião

. quem corre por gosto.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
6 Agosto, 2018
. quem corre por gosto.

Há umas semanas, fiz mais de 200kms para ir ver um espectáculo. Quando contei isto a um amigo, olhou para mim, muito surpreendido como se eu tivesse acabado de dizer uma barbaridade. Perguntou-me porque é que eu tinha de ir tão longe “só” para assistir a uma peça de teatro. Respondi-lhe que as distâncias, para mim, eram relativas. O curioso é que depois fiquei a pensar nisto, e nas imensas desculpas que ouço frequentemente a propósito deste assunto.

Quem me conhece sabe que, todas as semanas, faço muitas viagens de comboio. Questionam-me, muitas vezes, se não me canso, se não consigo encontrar um trabalho mais perto da cidade onde vivo, ou porque é que tenho de ir tão longe “só” para frequentar aulas de yoga. Há dias em que explico, mas há outros em que me limito a sorrir. A verdade é que gosto que assim seja. O facto de passar algum (muito!) tempo entre carruagens, entre os mais diversos tipos de passageiros, permite-me ter outra perspectiva sobre o meu próprio percurso, em qualquer das suas múltiplas dimensões.

Não acredito que façamos viagens “só” para qualquer coisa. Por exemplo, o espectáculo que mencionei no início da crónica, Ivan ou a Dúvida, não é só uma peça encenada pela Sónia Barbosa, é também a primeira fase do projecto Karamazov, a partir da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski. Esta viagem permitiu-me também conhecer uma bonita aldeia chamada Lapa do Lobo que alberga uma fundação com o mesmo nome e que desenvolve um trabalho muito interessante junto da população.

“Actualmente, continua a ser difícil encontrar pessoas a trabalhar naquilo que gostam. Por um motivo ou por outro, apressam-se a escolher uma espécie de caminho que corresponda à idade adulta ou a tudo o que a ela está associado”

Acho simplesmente maravilhoso que, contra todas as dificuldades, continue a existir artistas que fazem questão de apresentar os seus trabalhos longe das grandes metrópoles. Artistas que, de alguma forma, não se submetem à vontade da caprichosa Lisboa e do seu mais que gasto subtexto: “se queres ser alguém, tem de ser aqui!”. Mas, para que eles possam continuar a passar a sua mensagem e a combater a desertificação teatral fora das grandes metrópoles, é preciso que os quilómetros não façam parte da equação do espectador.

Actualmente, continua a ser difícil encontrar pessoas a trabalhar naquilo que gostam. Por um motivo ou por outro, apressam-se a escolher uma espécie de caminho que corresponda à idade adulta ou a tudo o que a ela está associado. Vejo alguns dos meus ex-alunos a darem aulas apenas porque é a primeira alternativa que se lhes apresenta. Não digo que alguns deles não serão, no futuro, bons professores, mas então e tudo o resto? E porque é que falo nisto? Porque é preciso que comecemos a eliminar distâncias e que comecemos a apoiar projectos que têm valor e que são criados por pessoas que realmente gostam daquilo que estão a fazer.

Sou uma sortuda porque trabalho naquilo que gosto e isso faz toda a diferença. E não me canso de ver a felicidade no rosto de pessoas como a Sónia Barbosa no final do espectáculo, quando percebem que apesar de tanta correria e de tantas barreiras que se tiveram de ultrapassar, continua a valer a pena trabalhar em teatro. Portanto, é por este e por tantos outros momentos assim que continuo a correr com gosto até Guimarães, até Coimbra, até Lisboa, até Lapa do Lobo, até um qualquer outro sítio, sempre que for preciso. E, felizmente, não sou a única.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor:
Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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