Revista Rua

2018-10-24T15:10:05+00:00 Cultura, Outras Artes

“Quem vamos queimar hoje?” é o título do novo livro de Nelson Nunes

O escritor Nelson Nunes em entrevista na RUA
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira24 Outubro, 2018
“Quem vamos queimar hoje?” é o título do novo livro de Nelson Nunes
O escritor Nelson Nunes em entrevista na RUA

Escritor, Nelson Nunes é um homem cuja curiosidade o tem levado por caminhos literários que exploram as realidades destes tempos vivemos. Das histórias dos chefs reputados além das suas receitas às experiências das figuras públicas no universo das redes sociais, Nelson Nunes está na RUA para falar dos seus livros e das suas convicções.

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer o seu percurso como escritor. O que o levou à escrita?

Curiosamente, não tenho a característica de boa parte dos escritores, que começaram a escrever desde cedo. Eu comecei a ler muito desde bastante cedo. E foi a leitura, a paixão pelos livros, pelas ideias, que me levou a querer escrever. Mas a escrita só começou a fazer parte da minha vida por volta dos 16 anos, mais coisa, menos coisa. E eram sempre escritos para a gaveta. Só depois de ter concluído o curso de Comunicação Social, na Universidade Católica, é que comecei a pensar no peso da responsabilidade de escrever para publicar, para ser lido. Foram alguns anos de preparação e de experiência no jornalismo até que, em 2013, comecei o meu trabalho de cronista no P3 – Público, trabalho que durou cerca de três anos, e, em 2015, publiquei o meu primeiro livro, Quando a Bola Não Entra. Desde então, tenho publicado um livro por ano.

Com o humor não se brinca é um livro de 2016. Considera-se um homem bem-humorado? Tenta sempre trazer um lado bem-disposto aos seus livros?

Sou bem-humorado, sim, mas nem sempre tenho de o mostrar nos meus livros. Existem assuntos que tenho de abordar com uma certa reverência, por isso há que ter essa sensibilidade. Ainda assim, o que tento fazer nos meus livros é que tenham o meu olhar subjetivo na experiência da conversa com os entrevistados – é uma espécie de prolongamento da tradição anglo-saxónica, e que não é habitual ver por cá. Isto é, não me coíbo de dar a minha opinião, de sentir as dores das pessoas com quem falo, de revelar coisas que vi ou senti no decorrer da conversa. Acredito que a inclusão destes elementos ajuda o leitor a estar naquele lugar, connosco, e a entender melhor o ambiente e o tom da entrevista. Ao mesmo tempo, sinto que existe mais transparência na conversa em si, e penso que isso dá valor ao livro. Pelo menos, enquanto leitor, é este o estilo que mais me agrada ler.

No ano passado lançou Isto não é um livro de receitas. Neste livro, as histórias pessoais dos chefs de renome portugueses eram o mote principal, correto? De alguma forma, o universo gastronómico, o explorar de mitos ligados aos grandes chefs e às suas receitas, interessa-lhe? Porquê?

O título do livro era uma pequena provocação. Porque sempre me interessaram biografias de grandes cozinheiros, mas ultimamente quase só conseguia encontrar livros de receitas. “Mas eu só quero saber as histórias de vida destas pessoas, não quero cozinhar”, pensava. Por isso, segui o conselho de um professor que tive durante a licenciatura: se queres ler, mas não existe, faz tu. E fiz. Decidi sentar-me à conversa com alguns dos melhores cozinheiros portugueses e, deixando de parte a celebridade associada ao conceito de chef, quis saber-lhes o percurso de vida e, fundamentalmente, a vertigem que os leva a criar determinados pratos, a ter ideias de confeção e desenvolvimento de cartas, a explorar um tema comum num restaurante. Foi um livro que me deu muito prazer escrever por ser um outsider da área de gastronomia. Aprendi o que é básico, mas também tive acesso a muito do que raramente o grande público sabe sobre a atividade. Espero ter conseguido transportar tudo isso para o livro.

“Creio que a forma como muitos de nós se comportam nas redes sociais é a mesma que tínhamos durante a Inquisição: havia uma suspeita de transgressão, agíamos em matilha, gritávamos e exigíamos a queima imediata do acusado, sem lhe dar hipótese de defesa, e atirávamo-lo sumariamente para a fogueira”

Agora, prepara-se para lançar um livro que traz uma temática bastante atual. O livro chama-se Quem vamos queimar hoje?. Qual foi o ponto de partida para este trabalho?

No seguimento do que tenho feito nos meus livros anteriores, interessam-me as experiências de vida e entrar na cabeça de pessoas que admiro. Sendo um utilizador intensivo das redes sociais, acompanhei de perto vilipêndios dessas pessoas e, por isso, imaginava sempre o que poderiam ter sentido no meio do turbilhão e, mais importante ainda, como teriam saído dele. Por isso, compilei uma lista de pessoas que foram enxovalhadas online (não foi difícil, como pode imaginar) e comecei a marcar conversas.

Considera que hoje em dia as redes sociais funcionam mesmo como um veículo de “inquisição digital”? Qual é a sua opinião sobre os tempos em que vivemos em termos de pertença digital?

É preciso fazer um disclaimer inicial: o livro não se posiciona contra as redes sociais e eu não sou um pessimista da tecnologia. O que o livro faz é procurar que as pessoas tenham um pouco de mais empatia e respeito por aqueles que pretendem criticar. É uma espécie de apologia da lentidão, da ponderação, da compaixão e da compreensão do outro. Respondendo diretamente à questão: sim, as redes sociais podem ser um veículo eficaz de inquisição digital e podem arruinar a vida dos seus alvos para sempre. O que é sempre uma injustiça. A sentença por uma eventual transgressão moral tende a ser perpétua, mas aquilo que acabámos de publicar vai ser esquecido daqui por umas horas. A pessoa que sofre o enxovalho fica para sempre com o cunho de ter sido “aquela pessoa que fez não-sei-o-quê”. Há também outro comportamento que me incomoda, que é o facto de haver um desfasamento entre o que é a ideia e o que é a pessoa. É o chamado ataque ad hominem: em vez de se debater a ideia, ataca-se o seu autor, pedindo que seja despedido, exposto, denunciado, vilipendiado, agredido. Do lado de quem acusa, falta uma pergunta antes de clicar no botão que diz “publicar”: é justo o que estamos a dizer? E se fosse connosco? Uma ideia espalhafatosa justifica ameaças de agressões ou mesmo morte? Creio que a forma como muitos de nós se comportam nas redes sociais é a mesma que tínhamos durante a Inquisição: havia uma suspeita de transgressão, agíamos em matilha, gritávamos e exigíamos a queima imediata do acusado, sem lhe dar hipótese de defesa, e atirávamo-lo sumariamente para a fogueira. Hoje, temos tribunais que impedem que façamos justiça pelas próprias mãos, e ainda bem, caso contrário teríamos caminho livre para cometer injustiças a toda a hora. Mas, na internet, não há tribunais, e a justiça pelas próprias mãos é feita sem grandes filtros ou ponderações.

“Estaremos sequer a ser justos na crítica? Seria importante termos mais ponderação antes de falar ou clicar em botões”

A abordagem deste seu livro traz-nos as histórias de algumas figuras públicas. Nesta pesquisa, conseguiu perceber como realmente se deve lidar com as situações de public shaming? Pode dar-nos alguns exemplos que mencione neste seu livro?

Existe uma prática relativamente transversal a todos os entrevistados deste livro, que é a seguinte: não ligar a quem contesta. O problema reside no facto de haver danos do lado de quem é acusado. As famílias sofrem de ansiedade pela eventualidade de um ataque, a vítima de public shaming tem medo de que algo aconteça no mundo real, já para não falar de casos que já aconteceram de gente que foi despedida por causa de coisas que tenha dito na internet. Não é o caso de nenhum dos meus entrevistados – aliás, há um caso fantástico, que é o do Henrique Raposo, que foi defendido até à causa última pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que publicou o livro da celeuma, Alentejo Prometido. Em teoria, todas as empresas deveriam agir assim, pensando por si próprias e não por medo da multidão aparentemente furiosa. Ainda que a multidão, muitas das vezes, seja composta por trinta loucos aos gritos, ao mesmo tempo que a maioria do público está em silêncio, porque o caso não lhe interessa ou até concorda com quem está a ser atacado. Mas quem está contra fala sempre mais alto.

Considera que atualmente as redes sociais estão, de alguma forma, fora do controlo quando nos referimos a aspetos de crítica social e/ou juízos de valor?

Sim, e não há nada de mal nisso. As pessoas podem e devem falar, expressar o que pensam. Claro que podemos pensar no falatório enquanto posições extremadas e imponderadas sobre determinados temas, e identificar uma certa urgência opinativa nos tempos que correm, mas também não há problema efetivo nisso. A questão está noutro ponto: devemos dar assim tanta importância a quem grita nas redes sociais? Porque é que alguém que é enxovalhado tem de ser despedido? Ou atirado para fora da discussão pública? E, antes disso, porque é que temos de alinhar no comportamento em turba e atacar quem está a ser atacado? Porque é que ameaçamos de porrada ou de morte alguém com quem não concordamos? Estaremos sequer a ser justos na crítica? Seria importante termos mais ponderação antes de falar ou clicar em botões. Temos de parar de agir como se a internet fosse um jogo de computador e como se as vidas dos outros fossem vilões do Super Mario.

Em termos futuros, há ideias para explorar em novos livros? O que podemos esperar de Nelson Nunes?

Há várias ideias para explorar em novos livros. Nesta altura, estou a decidir por qual delas hei-de optar para o livro do próximo ano. Em paralelo, tenho dispensado algum tempo para tentar escrever ficção, embora ache que ainda tenho um longo caminho a percorrer antes de publicar algo com um mínimo aceitável de qualidade. Mas não há pressa.

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