2018-06-04T08:16:38+00:00 Opinião

.querer mais surpresas.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
4 Junho, 2018
.querer mais surpresas.

Há peças que comunicam connosco directamente das páginas para o nosso coração. Há espectáculos que comunicam connosco directamente do palco para o nosso coração. E quando isso acontece, somos invadidos por uma sensação de infinidade que nos dá vontade de um dia ser assim. Mas nem sempre temos a sorte de ser avassalados por grandes momentos artísticos.

Gosto de ser surpreendida. Creio que todos gostamos, certo? Seja em que área for. Essa surpresa pode ajudar-nos a, por vezes, consolidarmos aquilo que antes considerávamos como incerto ou impossível de concretizar. Há espectáculos tão bons que se entranham na nossa pele de uma forma tão profunda que, quando nos apercebemos, transformaram-se numa espécie de tatuagem. Eu tenho algumas dessas tatuagens que, com o tempo, têm criado uma espécie de mapa da forma como o Teatro comunica comigo e do modo como me posiciono artisticamente. Dessas marcas que exibo orgulhosamente na minha pele, destaco três, sem qualquer ordem de preferência porque foram todas, na sua dimensão dramatúrgica e cénica, igualmente importantes: Purificados (2002) do Nuno Cardoso, Walden (2006) do Teatro do Vestido, e Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (2011) do Tiago Rodrigues.

“É pensar que, semanas depois, há coisas que acontecem no meu quotidiano que são automaticamente transformadas em paralelismos com o mundo do espectáculo”

Às vezes, no meio dos corredores ou antes de entrar para algum espectáculo, fala-se de obras que não nos tocam ou de como se vai menos vezes ao teatro, porque não há surpresa, ou porque ultimamente “tudo o que se vê é mau”. Percebo perfeitamente essa saturação, mas, como sabem, sou uma optimista. No fundo, acredito que no meio de todos os espectáculos que não comunicam connosco, vai haver sempre um que nos vai deixar sem palavras. Ou então com muitas!

No mês passado vi, no Teatro Nacional D. Maria II, E se elas fossem para Moscou?, um espectáculo dirigido pela encenadora brasileira Christiane Jatahy, a partir de As três irmãs de Tchekhov. Creio que, por tudo aquilo que já tinha ouvido, ia com a sensação de que ia gostar. Mas a grande surpresa da noite foi sair daquelas salas com mais uma marca no meu corpo. É pensar que, semanas depois, há coisas que acontecem no meu quotidiano que são automaticamente transformadas em paralelismos com o mundo do espectáculo. E é incrível como, numa primeira leitura, há tanto que pode passar despercebido e que se pode transformar, posteriormente, num profundo discurso interior. A beleza com que Jatahy nos submerge é impossível de perder. E é por momentos desses que continuo a escrever para teatro, que continuo a ensinar os meus alunos e que continuo a sentar-me na plateia.

De quando em quando, ouço artistas a comentar que a relação com o público pouco lhes interessa, como se o espectador representasse uma espécie de mal necessário para se continuar a criar objectos artísticos. Mas, na minha opinião, não podiam estar mais errados. Há uma beleza imensa na possibilidade de tocar, de marcar o outro. E, quem sabe, perceber que o espectáculo que se vê em palco existe porque as pessoas que estão por detrás da sua criação foram um dia surpreendidas quando estavam na plateia.

 

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Escolhi a eternidade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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