Revista Rua

2018-07-09T14:38:15+00:00 Desporto, Histórias

Refúgio, Cavalos e as suas Terapias

Texto da autoria de Adriana Silva (estagiária de Jornalismo da Universidade Católica de Braga e aluna de equitação)
Redação
Redação9 Julho, 2018
Refúgio, Cavalos e as suas Terapias
Texto da autoria de Adriana Silva (estagiária de Jornalismo da Universidade Católica de Braga e aluna de equitação)

*Este é um artigo escrito pela mão de alguém que está, neste momento, a aprender a montar a cavalo.

Fotografias: Nuno Sampaio

Como aproveitar uma tarde maravilhosa de verão? A resposta é simples: montar a cavalo e dar um longo passeio pela maravilhosa vinha e seguir o correr da água do rio Cávado. Foi assim que a Revista RUA passou uma tarde diferente e inspiradora, no Centro Hípico Irmão Pedro Coelho, em Areias de Vilar, Barcelos.

O dia não podia estar mais risonho e as pessoas que se encontravam no centro estavam bastante empolgadas pois também iam ter uma tarde diferente como nós. Não é todos os dias que vemos o professor David Ferreira a colocar um toque e calçar as botas, para montar a valente égua Anita.

Sempre que entro no centro hípico sinto aquele friozinho bom na barriga, tal como tive na primeira vez que montei e que espero vir a ter sempre, porque ele demostra o quanto eu amo estes seres maravilhosos, que têm um espírito livre e selvagem e, ao mesmo tempo carinhosos e amigáveis. Costuma dizer-se que os animais sabem quem tem um bom coração e, realmente, vimos no centro que o cavalo é capaz de criar uma ligação muito boa com o seu cavaleiro.

O cavalo que ia montar e ter aula já estava à espera, todo limpinho e devidamente equipado para termos a aula especial. Nessa tarde, o professor David deu a aula também montado. Enquanto eu montava um cavalo da escola – o Nakaway, que é sem dúvida alguma um cavalo calmo e que qualquer pessoa que queira dar um passeio ou mesmo aprender a montar vai gostar -, o professor montava uma égua particular que tem estado a treinar para as competições.

Já no picadeiro, prontos para dar início à aula, começamos pelo primeiro andamento do cavalo que é o passo, desta forma estamos a preparar o cavalo para depois dar seguimento para o segundo andamento que é o trote, que corresponde a um andar mais rápido do cavalo. Até que chegamos ao galope, que é a corrida. Este último é o que mais me fascina e que adoro: levar com o vento na cara, não pensar em nada e tentar manter-me sentada, que para mim ainda é complicado porque ainda estou a aprender e o meu objetivo é não escorregar na cela para não cair. Tem sido um desafio.

Já aconteceu de cair duas vezes, uma delas foi quando dei os meus primeiros passos a galope. Foi um pouco assustador cair de um cavalo. Posso dizer que até esse momento não tinha medo algum de montar, mas, devido à queda, fiquei um pouco receosa. Mas como estava determinada a montar de novo e não deixar que o medo me vencesse, passado uns minutos levantei-me do chão e subi de novo. Posso dizer que a partir desse dia comecei a ter um respeito muito grande pela equitação.

Durante a aula, fizemos um pouco do que fazemos nas outras aulas. Para além daqueles andamentos do cavalo, estivemos a treinar o equilíbrio. Como dá para ver é o que me falta para cair menos vezes, encontrar a sintonia entre o cavalo e o cavaleiro e treinar a direção, isto é, comandar para que lado o cavalo deve ir, fazendo exercícios com círculos, serpentinas e mudanças de direção.

No final da aula, quando está bom tempo, quase sempre vamos dar um passeio pelos campos, pelo pequeno bosque e ao longo do rio Cávado. Estes passeios são bastante libertadores, é simplesmente fantástico ouvirmos os cascos a bater no paralelo e na terra, vermos como os cavalos se comportam ao ar livre com uma pessoa em cima. Os cavalos têm a noção que têm de proteger e ter cuidado quando levam o cavaleiro, é incrível como eles sabem tal coisa.

Para finalizar uma tarde bem passada, nada como ir para o picadeiro onde se realizam as competições nacionais e internacionais. Lá, o professor David começou a treinar a égua nos saltos. Para quem não sabe, a competição dos saltos avalia a força do cavalo, a potência, a obediência, a velocidade, o respeito pelo obstáculo e o cavaleiro é avaliado pela sua equitação. No treino, o professor começa sempre pelo mais baixo e, normalmente, é pela cruz, em que as varas formam uma cruz. Vence a prova é quem tiver menos penalizações e fizer o percurso mais rápido.

É extraordinário ver o cavaleiro e a égua a saltar e, ao mesmo tempo, traz um pouco de receio porque é muito fácil o cavaleiro e o cavalo caírem caso o galope não esteja certo ou mesmo quando a égua ou o cavalo se recusarem a saltar.

O mais interessante disto tudo é quando tu descobres que o teu professor de equitação no início tinha medo de cavalos e que agora vai a competições de saltos e dá aulas para alunos que tinham exatamente o mesmo medo que ele no princípio.

“Vi pela primeira vez de perto um cavalo aos 14 anos”

David Ferreira, de 23 anos, vivia em Aveiro quando, aos 14 anos, teve a sua primeira interação com os cavalos, quando foi para a escola profissional onde a mãe trabalhava, para um campo de férias onde tinha contacto com os cavalos uma vez por semana. “Desde início sempre tive medo de cavalos”, revela o professor. É interessante como ele perdeu o medo, com a ajuda dos jovens que se encontravam lá, que estavam sempre a incentiva-lo a fazer esta atividade. “Lembro-me da minha primeira aula de equitação, que foi dar um passeio no meio do mato. Puseram-me a descer uma ravina e eu comecei a gritar a dizer que tinha medo”, recorda o professor entre risos.

Finalmente, perdeu o medo e os professores começaram a incentivá-lo para competir. Atualmente tem participado em vários concursos nacionais, mas ainda não teve a oportunidade de tentar um internacional. Mesmo assim, tem evoluído com o que tem feito, por exemplo, com cavalos novos, de quatro e cinco anos em provas de 1,10m e 1,20m. David diz que o maior incentivo para os professores, ele incluído, é quando levam os alunos aos concursos. O professor tem também como função treinar os cavalos que aparecem no centro hípico. Começa por trabalhar o maneio, a parte da guia, de tirar a cela, a cabeçada. “Isto não é do pé para a mão, é com o tempo”.

Quando se trata de treinar os cavalos para a hipoterapia ou para a equitação terapêutica, segundo o professor, o treino é diferente, pois eles não podem se assustar com nenhum barulho. Trabalham com arcos, com pinos e com bolas. A hipoterapia consiste em trabalhar todos os sentidos do utente em cima de um cavalo, já a equitação terapêutica consiste em tornar uma criança com necessidades especiais muito mais autónoma, em que o aluno de equitação terapêutica consiga conduzir o cavalo sozinho.

Às pessoas que insistem em dizer que a equitação não é um desporto, o professor David tem uma contrarresposta “A equitação é o segundo desporto mais completo. Primeiro, temos a natação e depois a equitação. Basicamente, a passo, estamos a trabalhar músculos que não nos apercebemos. Trabalhamos lombares quando estamos a escorregar de trás para a frente… Por isso é que há evolução na parte da hipoterapia. Já vi miúdos que começaram numa cadeira de rodas e que tiveram resultados fantásticos”.

A equitação pode ajudar qualquer pessoa de várias formas, não só aquelas que querem competir ou que necessitam por terem um problema de saúde. Fica a dica: experimentem um dia destes andarem a cavalo, vão ver que a mente fica mais limpa e livre!

Dicionário Equestre:

Arreio– Conjunto de peças com que se aparelha o cavalo.

Sela– Assento acolchoado onde o cavaleiro se senta no cavalo.

Estribos– Peças de metal presas à aba da sela que servem de apoio ao pé do cavaleiro.

Cilha– Faixa de tecido ou cabedal usada para segurar a cela ou a carga. É apertada na parte de baixo da barriga do animal.

Cabeçada– Componente dos arreios, colocado na cabeça do cavalo. Pode ter ou não embocadura. Às cabeçadas sem embocadura, dá-se o nome de cabeçada de manjedoura.

Bridão– Componente dos arreios, que serve para colocar na boca do cavalo. É composto por uma barra e duas argolas nas extremidades.

Esporas– Peça de metal, composto por uma roseta com espinhos colocada na parte traseira da bota do cavaleiro. É utilizada para picar o cavalo e fazê-lo arrancar ou acelerar o movimento.

Esporim– Espora sem roseta, com a extremidade curva. É menos agressiva, mas igualmente eficaz.

Ferradura – Objeto de metal moldada em forma de U que é pregada aos cascos do cavalo. Serve para proteger o casco e aumentar a aderência ao solo.

Passo– andar mais calmo.

Trote– andar com passo mais acelerado, composta por duas batidas. O cavalo movimenta a pata direita da frente com a pata esquerda de trás ao mesmo tempo e, a pata esquerda da frente com a pata direita de trás.

Galope– andar do cavalo mais rápido, corrida, composta por três batidas.

Picadeiro– Lugar onde se ensinam ou amestram cavalos, ou se fazem exercícios de equitação.

Equitação – o cavaleiro, e não o cavalo, é julgado pelas suas capacidades de andar de cavalo.

Dressage/Ensino – visa a obtenção do controlo e obediência do cavaleiro sobre o cavalo através de ajudas impercetíveis.

Curiosidade:

Em Portugal, os nomes dos cavalos são dados conforme a ordem do abecedário e em cada ano é uma letra. Por isso, todos os cavalos que nascem naquele ano têm um nome que vai ter de começar pela letra do abecedário que está. E o segundo nome, normalmente, tem de começar pela letra do pai, mas é menos utilizado.

Partilhar Artigo:
Fechar