2018-05-03T14:34:01+00:00 Cultura, Em Destaque, Personalidades

Rui Veloso – Carreira a pente fininho

Rui Veloso encheu o Pavilhão Multiusos de Guimarães no passado dia 5 de maio. Os temas icónicos da carreira do músico encheram a sala e recordaram à plateia as letras inesquecíveis do trajeto do eterno chico fininho português.
Emanuel Roriz
Emanuel Roriz3 Maio, 2018
Rui Veloso – Carreira a pente fininho
Rui Veloso encheu o Pavilhão Multiusos de Guimarães no passado dia 5 de maio. Os temas icónicos da carreira do músico encheram a sala e recordaram à plateia as letras inesquecíveis do trajeto do eterno chico fininho português.

Da harmónica ao rock

Bob Dylan, Eric Clapton ou B.B. King são apontados como os principais culpados pela arte que este senhor nos deu a conhecer. Nasceu em Lisboa e começou pela harmónica, a cantar em inglês. Mas foi a Norte, de guitarra em punho e em português, com sotaque bem marcado, que começou a fazer história. É por aqui que conhece Carlos Tê, um grande amigo e também autor de muitas das letras e alguns temas marcantes. Falamos de Rui Veloso, o eterno chico fininho.

O contrato assinado pela Valentim de Carvalho, graças a duas cassetes enviadas à editora pela sua mãe, tem como primeiro rebento o disco Ar de Rock. Este disco é registado na companhia da Banda Sonora que tinha na sua formação músicos como Zé Nabo [baixista] e Ramon Galarza [baterista]. Juntos, gravaram temas marcantes como “Chico Fininho”, “Bairro do Oriente” ou “Rapariguinha do shopping”. O sucesso atingido com o disco de estreia levou Rui Veloso e a Banda Sonora a fazerem a primeira parte do concerto dos The Police perante lotação esgotada no estádio do Restelo, em Lisboa.

Depois de tamanho sucesso, o segundo trabalho de originais era bastante aguardado. Com algumas alterações de formação, Rui Veloso e a Banda Sonora lançam Fora de Moda, de onde se extraem os hits Sayago Blues” e “Agente não lê”. Sem perder tempo e com a equipa de trabalho mais centrada no próprio Rui e em Carlos Tê, o disco Guardador de Margens, de 1983, é um piscar de olho a uma vertente mais Pop Rock como é exemplo o singleMáquina Zero”.

As grandes canções

Em 1986, o álbum homónimo, que esteve para se chamar os Bês pelos Vês, cria uma marca bem vincada de Rui Veloso e dos seus excelentes temas mais ligeiros. É neste registo que podemos encontrar canções como “Porto Covo”, “Cavaleiro Andante” ou “Porto Sentido”. O disco homónimo torna-se um sucesso de platina e os concertos sucedem-se na sua maior digressão até à data. Ao todo foram 61 concertos com consagrações nos Coliseus do Porto e de Lisboa, a par de vários prémios de melhor espetáculo ao vivo. Toda esta atividade em cima de palco culmina com o registo em disco dos espetáculos gravados no Coliseu do Porto a 4 e 5 de junho de 1987. O álbum Ao Vivo foi editado em 1988, nos formatos duplo LP, duas cassetes e numa versão com alinhamento reduzido em CD. Contudo, o reconhecimento público do músico não se fica por aqui. É também em ’88 que Rui Veloso recebe pela cidade do Porto a Medalha de Mérito – Grau Prata.

A entrada na década de ’90 é feita com a materialização de um dos projetos mais ambiciosos do artista. A composição de um duplo álbum conceptual que ficciona a história de uma banda de amigos que fizeram carreira entre as décadas de ’60 e ’70 em Portugal. Musicalmente, este trabalho tem uma variabilidade deliciosa, com temas que passam pelo twist, blues, rock’n roll e até uma espreitadela ao funk. Grandes êxitos como “A Paixão (Segundo Nicolau Da Viola)” e “Não Há Estrelas No Céu” contribuíram para que Mingos E Os Samurais vendesse um número de cópias recorde para um músico nacional, tendo atingido o estatuto de disco de platina no próprio dia de lançamento. E não seria de todo justo abordar este disco sem que se fizesse referência a temas marcantes como “Fio De Beque”, “O Prometido É Devido”, “Um Trolha D’Areosa” ou as partes I e II de “Twist É Sedução”.  Foi ainda antes da edição deste disco que Rui Veloso concretizou um grande sonho. Poder tocar em palco, lado a lado, com o mestre do blues, Mr. B.B. King! Aconteceu pela primeira vez no Casino Estoril, sem ensaios. Rui sabia que ia subir a palco e ser “atirado às feras”. Uma vez que esta partilha de palco aconteceu por seis vezes, só pode ter corrido muito bem.

À descoberta de novos caminhos…

Esta é uma fase da carreira em que Rui Veloso continua a viver momentos marcantes a nível de concertos. Com uma assistência de 12 mil pessoas, esgota o mítico Pavilhão Dramático de Cascais e estreia-se ao vivo fora de Portugal com um concerto em Toronto, no Canadá. Segue-se também um concerto em Bruxelas a par do lançamento do sexto trabalho de estúdio Auto Da Pimenta, que tem como temática das canções o lado não mitológico e menos popular dos Descobrimentos Portugueses, uma homenagem aos anónimos. No período ’91-’94 mantém-se a tendência dos grandes concertos – primeira parte de Paul Simon no Estádio José de Alvalade – e dos espetáculos fora de portas – Expo 92 Sevilha, Suíça, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e França.

E o sucesso continua!

O novo assalto ao top de vendas é feito em ’95 com Lado Lunar. Com um estilo inconfundível, o tema-título e “Já Não Há Canções De Amor” rapidamente se tornam canções habituais nos espetáculos. Em ’98, a sua editora projetou a edição de um best-of para comemorar os 18 anos de carreira, pedindo-lhe apenas a composição de dois originais, que tardavam em aparecer. É então que Rui Veloso surpreende com a intenção de gravar um novo álbum de originais. Sempre em colaboração artística com Carlos Tê e com Luís Jardim na produção, o disco viria a chamar-se Avenidas e nele estavam gravados os êxitos “Todo O Tempo Do Mundo”, “Jura” e “Presépio De Lata”.

Consagração e celebração

A passagem para o novo milénio direciona o músico para edições comemorativas e retrospetivas de carreira. Em 2000 surge então o seu primeiro best-of, onde para além dos grandes êxitos de 20 anos de carreira surgem dois temas apenas editados como singles, eram eles “Um Café E Um Bagaço” e “Maubere”. A tournée acústica levada a cabo entre 2002 e 2003 dá origem ao primeiro DVD do músico, também com registo em CD e com o título de O Concerto Acústico. Nestes concertos foram ouvidos dois temas inéditos que ficariam no ouvido do público nacional: “Nunca Me Esqueci De Ti” e “Os Velhos Do Jardim”. Em 2005 surge o novo disco de originais A Espuma Das Canções, caracterizado por ter várias composições baseadas nas teclas e piano. A partir daqui as edições voltam a ter carácter comemorativo. Em 2009 é editado Rui Veloso Ao Vivo No Pavilhão Atlântico e, em 2012, Rui Veloso E Amigos congrega num registo de estúdio diversos temas em dueto com vários artistas nacionais. Entre eles estão Jorge Palma, Luís Represas, Carlos do Carmo, Camané, Expensive Soul e outros.

Os 35 anos de carreira foram assinalados em 2015 com o lançamento de uma compilação de 36 canções. Entre grandes temas, O Melhor De Rui Veloso inclui também o regresso aos inéditos com as canções “Romeu E Juliana” e “Do Meu País”.

Em Paralelo

As colaborações com músicos influentes são uma constante ao longo da sua carreira. Existiram, contudo, dois projetos paralelos que tiveram edição em disco e com enorme aceitação junto do público nacional.

Em 1996, Rio Grande passaria a ser um nome que não mais se esqueceria. O projeto juntou Rui Veloso, Tim, Vitorino, Jorge Palma e João Gil. O disco homónimo é um conjunto de 11 canções maravilhosas. Quem não tem colado na memória “O Postal Dos Correios” ou “A Fisga”? Este ajuntamento deu ainda lugar a um registo ao vivo em Dia De Concerto, no qual deram novo fôlego à canção “Loucos de Lisboa”, originalmente registada pelos Ala Dos Namorados.

Cabeças No Ar é uma história sobre um grupo de alunos de um qualquer liceu português. Foi em 2002 que os músicos que compunham a formação dos Rio Grande, à exceção de Vitorino, registaram esta peça de teatro musicada onde nos deram a conhecer o momento d’ “O Primeiro Beijo” e o refrão orelhudo de “A Seita Tem Um Radar”.

Mais recentemente, podemos ouvir a voz de Rui Veloso no novo disco Casa, de Carolina Deslandes, num dueto chamado “Avião de Papel”.

Fotografia: Carlos Mateus Lima