Revista Rua

2018-05-03T19:23:19+00:00 Opinião

Sapatos há muitos

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Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Abril, 2018
Sapatos há muitos

Imagino que, enquanto recolectores, no tempo em que ainda não erámos bem humanos, nem civilizados, e falávamos com os animais, já houvesse algo parecido com sapatos, botas ou sandálias…

Adoro andar descalço, e faço-o em todo o lado, em casa e no trabalho, mas na rua nunca. Por isso, reconheço valor a Saguenail, que se fazia passear descalço pelas ruas do Porto como quem caminha sobre uma alcatifa, deixando chegar ao seu corpo a energia positiva da terra mãe. Lembro-me da minha colega da academia de quando lá estudava, a Joana Siza Vieira, filha do arquiteto, possuidora de uma personalidade muito inóspita, digamos, o abrigar da chuva em caminhada pela rua D. Manuel II e perguntar a sua majestade Saguenail se não queria que lhe comprasse uns chinelos e se não tinha medo de se magoar. Realmente, as palmas dos pés são dos locais mais sensíveis do corpo, indicadores de muitas doenças, e que devemos preservar como se fossem os nossos olhos, apesar de terem perto aquelas coisas horríveis de bassas: as unhas.

Voltando à questão dos recolectores, e dando um salto no tempo, digo-vos, no entanto, que nunca gostei de sapatos. De botas, sim, de sapatilhas, sim, do resto do calçado, não. Gosto de calçar o calçado como se fosse um par de meias. Bem justas ao pé para que não fujam, nem o pé fique a nadar lá dentro como um pato caído acidentalmente numa piscina.

Mas o calçado pode ter outros fins. Charlot comia uma bota no A Quimera do Ouro (1925), calculo que com um sabor mais intenso do que certos petiscos gourmet. Os Sapatos Vermelhos (1948) é um dos meus filmes de culto. Cheguei a adaptá-lo para palco com textos do brasileiro Paulo Castro e a bailarina Joana Nossa, o que me lembra agora a querida Neuza Rodrigues, que me ajudou imenso com a sua escola de dança, a quem presto homenagem, pois partiu há dias para algures onde deveríamos ir nus e estranhamente vamos vestidos e calçados. E depois há o Gato das Botas, um sedutor com muita lábia, cavaleiro dos contos orais populares, a quem as botas nunca ficaram lá muito bem e representavam a sua origem de escravo para sempre socialmente agrilhoado.

Em tempos, perguntaram-me se era eu que assinava a linha de calçado Paulo Brandão, um homónimo que desenha sapatos giros. Não sou. Nem nunca me cruzei com o estilista. Com pena minha, diga-se, pois talvez ele me pudesse dizer porque gostamos, nós humanos, tanto de sapatos e outros mais de andar descalços.

Sobre o Autor

Diretor artístico do Theatro Circo.

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