Revista Rua

2018-11-20T14:15:59+00:00 Opinião

Sensibilização precisa-se… também para o património!

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
20 Novembro, 2018
Sensibilização precisa-se… também para o património!

Enquanto apaixonado pelo património custa-me ver o quão gratuitamente este consegue ser maltratado. Enquanto profissional da área, custa-me ainda mais. Estou certo que tal se deva, amiúde, ao desconhecimento do valor daquilo que temos entre mãos. Até porque não é possível proteger aquilo que se desconhece.

Tenho o privilégio de fazer parte de um grupo que, com poucos ou nenhuns recursos, vai lutando pela defesa, preservação e divulgação do património arqueológico. Não obstante o seu estado degradado e de ruínas esquecidas, ou a falta de investimento de que padece, ainda tem que aguentar certas patifarias avulsas, algumas da mais elevada imaginação: sob o desbravar de jipes e motos todo-o-terreno, ou mercê da imaginação mais sórdida que, num rasgo de imbecilidade ou de maior aflição, brinda certos vestígios do passado com um grafito dedicado ao amor eterno ou com uma qualquer necessidade fisiológica. Como se a distância no tempo nos desligasse do passado e que o desrespeito se tornasse aceitável. Como se a semelhança entre a câmara funerária de um dólmen no Soajo – qual cripta ancestral – e uma latrina fosse diretamente proporcional à parte “traseira” de um qualquer pinheiro.

Mas atenção: eu não tenho nada contra as moto quatro e os jipes turbinados, os grupos organizados de btt de domingo de manhã, os artistas de rua, os amores grafitados ou quaisquer necessidades diárias do comum mortal. Tenho, sim, contra aqueles atos e pessoas que se esquecem que o património é de todos e que não respeitam o seu próprio passado. Por isso a instrução se mostra tão importante. Por isso se torna tão relevante educar. Por isso a necessidade de sensibilizar para o património.

Hoje, principalmente ao nível dos serviços educativos institucionais, muitas são as ofertas (gratuitas) que aproximam os mais novos do património. Mas (só) este trabalho não chega.

Não é difícil perceber que é junto das crianças, esses seres irrequietos facilmente fascináveis com as estórias mais rebuscadas, que se colhem os melhores frutos. São como diamantes por lapidar: nada viciados por interesses, nada formatados por instituições, nada condicionados por preconceitos. É nelas, profissionais de amanhã, que deve assentar o futuro; é nelas, cidadãos de amanhã, que devem florescer preocupações com modos de vida sustentáveis; é nelas, adultos de amanhã, que deve habitar o gosto pela luta condigna para a valorização do passado em conjugação com o futuro.

Hoje, principalmente ao nível dos serviços educativos institucionais, muitas são as ofertas (gratuitas) que aproximam os mais novos do património. Mas (só) este trabalho não chega. Independentemente da veste profissional envergada quotidianamente, cabe-nos zelar pelo passado e cooperar na sua valorização. Algo só possível começando pela sua proteção.

Num país onde as percentagens e os prémios de reconhecimento turístico dos últimos anos têm voz própria, preservar o património arqueológico, mais do que preservar o passado, é preservar a nossa memória e a nossa identidade. Em última instância, é (também) preservar a nossa cultura.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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