2018-05-03T10:43:19+00:00 Espairecer, Lifestyle

Sentir a Galiza

Filipa Santos Sousa
Filipa Santos Sousa2 Março, 2018
Sentir a Galiza

Unidos pelo Rio Minho, o Norte de Portugal e a Galiza são praticamente ‘irmãos’. Visitar o território galego não significa, de todo, conhecer Espanha. Mas, sim, um pequeno mundo à parte, munido de uma essência única. Com praias de um azul cristalino, qual reflexo do firmamento, não faltam motivos para atravessar a fronteira: monumentos de tempos ancestrais; ilhas dignas dum cenário caribenho; termas regeneradoras; natureza no seu estado mais puro. Se procura tranquilidade, divertimento, caminhadas por locais pitorescos e ainda desfrutar da gastronomia, então, venha sentir a Galiza.

Parque Nacional das Ilhas Atlânticas

Fruto da riqueza da sua fauna e flora, o Parque Nacional das Ilhas Atlânticas é um dos ‘tesouros’ da Galiza. O arquipélago das Cíes há muito que se tornou célebre, sobretudo desde que o The Guardian elencou a Praia de Rodas na lista das mais belas do mundo. No passado assumiu-se como um refúgio para piratas, mas hoje é ‘Meca’ para uma derradeira peregrinação de veraneantes. Merece também destaque o arquipélago de Ons que, apesar de pequeno, é igualmente sublime. Situado na entrada da ria de Pontevedra, continuam a viver aí algumas dezenas de pessoas. Não faltam praias de azul cristalino e areais dourados, nem pontos de interesse, destacando-se o Farol e, claro, a Boca do Inferno – um sítio repleto de lendas e lamentos. O Parque Nacional das Ilhas Atlânticas integra ainda os arquipélagos de Sálvora e Cortegada.

Termas de Ourense

O Rio Minho, que por terras galegas se chama Miño, tem em Ourense um dos seus expoentes máximos, no que respeita ao turismo e beleza, ou não fosse esta a ‘cidade da água’. Desde os romanos, esta urbe é reconhecida pelas capacidades curandeiras dos seus recursos hídricos. Desengane-se quem pensa que o termalismo é só para idosos, afinal poucos destinos serão tão indicados para nos alhearmos do stress. Por toda a cidade, há termas e muitas são gratuitas. Quase todas as instâncias termais situam-se na margem esquerda do Rio Minho e são de fácil acesso. Se não possuir um carro, não se preocupe, terá ao seu dispor um autocarro que percorre a rota do termalismo, incluindo a periferia, para que não perca a oportunidade de usufruir na plenitude de uma experiência tão regeneradora.

Ribeira Sacra-Cañóns do Sil

No norte de Ourense e também na zona sul de Lugo, ao longo dos rios Sil e Minho, poderá desbravar a Ribeira Sacra por água, numa experiência doutro mundo. Os dois dos cursos fluviais são navegáveis de catamarã: o Sil, a partir de Santo Estevo (Nogueira de Ramuín) e Abeleda (Castro Caldelas); e o Minho a partir da localidade de Belesar. As rotas turísticas aventuram-se no coração deste património natural e cultural único. Nas suas encostas poderá contemplar vinhedos escarpados, mosteiros e outros ícones medievais, bem como aves de rapina que encontram o seu habitat nas rochas. Berço do lendário vinho Amandi, apreciado pelos romanos, a Ribeira Sacra destaca-se também pela riqueza da sua cultura vinícola. Mergulhar entre as paisagens agrestes de desfiladeiros com 500 metros é sinónimo, no mínimo, de uma viagem inolvidável.

Ilha de Arousa

Em plenas Rias Baixas, a Ilha de Arousa surge como um dos segredos mais bem guardados da Galiza. Indiferente às enchentes que caraterizam as Cíes, este sítio distingue-se por estar ligado a terra através de uma ponte. A verdade é que esta conexão facilita o acesso de qualquer habitante e turista. Na ilha, os locais têm tudo aquilo que necessitam: serviços, paz e, acima de tudo, o deleite do marisco. De facto, as atividades da pesca e marisqueira são a maior fonte de sustento de Arousa. Uma passagem por esta ilha requer a visita aos seguintes locais: o Parque Natural de Carreirón, que é adornado por uma costa de praias com elo à vida selvagem – não se surpreenda se vir uns quantos coelhos a saltitar pela areia; o Farol de Punta Cabalo; o ilhote de Areoso e ainda o Miradouro O Con de Forno, o ponto mais elevado da ilha

Catedral de Santiago

Todos os anos, milhares de peregrinos chegam a Santiago de Compostela, percorrendo os vários caminhos que ao longo dos séculos tornaram esta numa das romarias religiosas mais famosas do Ocidente. No entanto, o destino não é escolhido apenas por indivíduos movidos pela fé, mas também por turistas que encontram nesta cidade uma paragem obrigatória, sobretudo, para aqueles que querem verdadeiramente sentir a Galiza. Ora, é impossível absorver a essência desta terra de origens celtas, sem se passar por Santiago e olhar de frente a imponente Catedral. Declarado Património da UNESCO, o monumento foi construído entre 1075 e 1128, tendo sobrevivido ao passar dos tempos e conservando o seu esplendor.

Farol de Finisterra

A Galiza é um lugar crivado de mitos e lendas. O Farol de Finisterra é, por certo, um dos seus enigmas seculares mais célebres. Os romanos consideravam que este ponto representava o fim do mundo ocidental e, por isso, batizaram-no de “finis terrae”. Durante séculos, o mistério permaneceu insondável para o Homem. Mesmo com o desbravar de novos mundos, Finisterra nunca perdeu a sua relevância. Deste modo, o farol foi construído em 1853, devido à sua fulcral localização para a navegação, perspetivando-se evitar a ocorrência de naufrágios. Ao assinalar o fim da peregrinação e a ressurreição dos crentes de Santiago, o Farol de Finisterra corresponde também ao término da rota dos faróis da ‘Costa da Morte’, deixando para trás um cenário agraciado pelo charme de praias, dunas, rios, bosques, castros e miradouros.

Castro de Baroña

Dificilmente haverá uma caraterística ancestral que melhor defina a Galiza do que as suas raízes celtas. Um pouco por todo o território é possível encontrar vestígios da presença dessa cultura remota, que em tempos volvidos dominou parte da Europa. Os denominados castros foram construídos em sítios considerados estrategicamente defensivos, de modo a evitar os invasores. Neste cenário, um dos castros mais incríveis e representativos da Galiza é, sem dúvida, o de Baroña. Localizado no município de Porto de Son (Corunha), trata-se de um dos mais bem conservados e, ao mesmo tempo, originais. O Castro de Baroña surge alocado junto à Praia de Arealonga, sobressaindo como uma ‘joia’ esquecida da Galiza costeira. O acesso é gratuito e merece, definitivamente, a sua visita.

Muralha romana de Lugo

Para além das termas e do vinho, os romanos deixaram outras marcas evidentes da sua vivência na, então, Gallaecia, nomeadamente pontes e muralhas, sendo a mais emblemática a de Lugo. Na altura, aquela que é uma das cidades mais proeminentes do interior galego chamava-se Lucas Augusti e foi alvo da construção de um muro de defesa, que permanece intacto até aos nossos dias. Com mais de dois quilómetros de extensão e de dez portas, a muralha que delimita a zona histórica lucense foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO, em 2000, facto que atesta a sua importância.

Praia das Catedrais, Ribadeo

Outro dos ex-libris da província de Lugo é a Praia das Catedrais, em Ribadeo. Com a erosão do tempo e a força oceânica, o resultado foi uma autêntica obra de arte natural. Todavia, para adentrar-se nesta catedral do mar é necessário aguardar pela maré baixa, depois pode percorrer o lanço de areal extenso e aventurar-se por entre as muitas grutas da praia (algumas chegam a alcançar os 30 metros de altura). Como não seria de estranhar, este é um destino turístico de eleição, que beneficia também de um acesso fácil. Se, porventura, não tiver a sorte de deixar as suas impressões efémeras na areia, tem sempre a hipótese de observar de perto o encanto do mar devido a um passeio arranjado na beira superior. Contudo, nada supera a emoção de submergir nos esconderijos esculpidos pela Mãe Natureza.

Torre de Hércules

De norte a sul, não faltam pretextos para visitar mas, essencialmente, sentir a Galiza. Vigo, Santiago de Compostela, Ourense, Lugo e, claro, a Corunha são apenas a base para quem quer conhecer na sua essência mais íntima a típica cultura galega. Lá no alto desta comunidade autónoma, a Torre de Hércules – que funciona desde o tempo dos romanos – continua a brilhar e guiar os corajosos marinheiros e pescadores, que todos os dias arriscam a sua vida no mar, fonte vital da saúde financeira da Galiza. Com cerca de 60 metros de altura e mais de 230 escadas, quando se chega ao topo do farol – o mais antigo ainda em atividade – vislumbra-se uma multiplicidade de emoções; admira-se o esplendor do horizonte galego e guarda-se as recordações de uma viagem sem igual, a um mundo à parte e que fica aqui ao lado. Não há nada como sentir a Galiza.