Revista Rua

2018-08-17T11:12:06+00:00 Opinião

Ser boa ou má pessoa

Sociedade
Susana Santos
Susana Santos
3 Agosto, 2018
Ser boa ou má pessoa

Um dia destes, pelo final da tarde, desgastada pela intensidade de um dia emocionalmente duro, decidi recorrer ao meu refúgio sagrado, o que muitos apelidam de meditação – não sei bem qual a denominação correta, mas que me salva a minha condição mental e física muitas vezes, lá isso não há como negar. Estagnei no tempo e rendi-me ao calor intenso que invadia o meu corpo; inspirei profundamente inundando as minhas fossas nasais com a inebriante brisa marítima (creio não haver nada como o mar para nos “lavar a alma”) enquanto serenava a mente num toque mágico de paz e reconhecimento da minha essência, do meu lugar neste planeta comum.

Por muito que me esforce, a minha mente inquieta e traquina teima em desafiar as minhas intenções e distrai-se ao mínimo barulho ou movimento, transformando o ato de meditar num autêntico desafio. Nesse turbilhão de ideias que me ocorrem, a certa altura, dei por mim a reviver penosamente uma frase desagradável que me foi dirigida no calor de uma discussão acesa e que exortou em mim total indignação, de tal modo que me fez projectar o desabafo mental “que pessoa má, não vale nada”. Ainda no seguimento desta lembrança comecei a debater-me em como será possível quantificar a bondade de uma pessoa.

Existirá algum padrão ou equação numérico? Quais as fronteiras que delimitam o bom do mau ser humano? O julgamento do carácter de determinado indivíduo operado segundo a percepção de dois sujeitos completamente distintos será o mesmo? A carga genética, o meio em que nascemos e crescemos influencia a forma de ser? E, se assim for, podemos afirmar que existem nações com diferentes níveis de bondade?

Julgo que, no centro deste brainstorm, a mítica imagem de uma pessoa com um anjo num ombro e diabo no outro assenta que nem uma luva transmitindo a realidade desta dualidade existente dentro de todos nós.

Todos temos atributos e somos emissores de mensagens que, ao serem alcançadas pelos recetores, resultam em padrões de aceitação diferentes. Quer isto dizer que, dada característica, num determinado espaço de tempo e contexto, para algumas pessoas apresenta-se como negativa, contudo, para outras reflete exatamente o oposto, contendo uma verdade incomensurável, quem sabe até, aprazível.

Quando iniciei esta abordagem debrucei-me, essencialmente, nas relações profissionais ou de amizade, mas a verdade é que também as relações que envolvem intimidade espelham bem esta dinâmica de impressões. E, se assim não fosse, todos teríamos a mesma forma de estar, pensar e os mesmos gostos, o que, provavelmente, condenaria a grande maioria da nossa sociedade ao fracasso amoroso enquanto existisse uma Angelina Jolie e um Leonardo DiCaprio que, além de extremamente abonados fisicamente, ainda possuem uma personalidade, no mínimo, notável. Face a esta natureza complexa da percepção humana, cabe-nos domar o espírito crítico que há em cada um de nós e abrandar o ímpeto de rotularmos quem nos rodeia de “boa” ou “má” pessoa. Não é porque o nosso campo sensorial não consegue atingir determinado nível de bondade num indivíduo que o podemos declarar como indiscutivelmente mau.

Tal como a pintura de um quadro, não nos limitamos apenas às cores primárias. Expressamo-nos como uma palete imensa de tonalidades, uma mistura infinita de pigmentos que despertam impressões distintas, tornando-nos mais ou menos atrativos aos olhos de quem examina. Há quem se encante com as cores mais escuras, quem as deteste e, ainda, quem não goste nem desgoste, sem que tal opinião nos ajuíze como melhores ou piores pessoas. Não há, portanto, pessoas totalmente boas nem totalmente más. O ser humano integra um sistema muito mais complexo e rico do que uma mera rotulação dual, com uma impressão redutora.

Toda esta reflexão leva-me a ponderar que devemos ser mais tolerantes antes de avançarmos com juízos de valores, pois os maus, no final de contas, podemos ser nós, segundo a perspetiva de alguém!

Sobre o Autor:
De signo Gémeos e ascendente em Virgem, Susana Santos é Professora e Comissária da Assembleia Plurimunicipal do PAN Algarve. Frase favorita –  “O simples bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”.

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