Revista Rua

2018-05-03T11:06:59+00:00 Opinião

Silence

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Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Fevereiro, 2018
Silence

Quando escrevo, não consigo deixar de derrubar as fronteiras entre ficção, autoficção e memórias. E isso não faz de mim menos verdadeiro. Acredito mesmo que sem ficção, autoficção e memórias não conseguimos mostrar o que somos e isso faz-se com “palavras”.

É esse pretenso derrube que me permite dizer que escrevo esta crónica em Toledo, perto do “río Tajo”, onde aprendi o que é a saudade, ou somente explicar que escrevo a lápis muito fino antes de usar o Word.

Honestamente, encontro-me sentado de teclado no colo e em casa.

A casa é o lugar que me permite estar e ser em silêncio, para que a escrita e a vida possam fluir, para que saibamos intuir a palavra que vem a seguir ou sentir quem gosta de nós.

Gosto de casas e gosto da minha.

Na casa gosto da noção de família, do cheiro dos lençóis, de ler quando acordo, de deixar o sol entrar, de cozinhar lentamente e nunca os mesmos pratos, da luz indireta, da luz do sol, dos abraços das minhas filhas, do calor da Mina e da Tara, de subir a pé até ao segundo andar, da árvore que olho da janela do meu quarto vestida e nua, da ausência de cortinas, das coisas arrumadas, de aprender que a Atlântida é tão importante como o mar aqui ao lado, da Clara à sexta-feira, dos gatos nas traseiras no verão, de livros novos, da palavra “Silence” em que penso muitas vezes agora, de andar, de fazer quilómetros com as canções dos vinis, das mulheres mais feministas dos filmes, das coisas antigas que herdei e que ocupam um lugar central na sala, quase zen, para que as pessoas que ali entram possam ser elas mesmas, dos choros e risos, dos sentimentos que gostaria que fossem doces, ternos, de conversas longas no sofá, do cheiro intenso a café de saco, das noites em que a lua engravida e deixa que apague todas as luzes interiores, dos telemóveis em modo avião, do meu cérebro em modo avião, de evitar dizer azeitonas e morangos, de ter panquecas da Catarina o tempo todo, de ter o riso da Ana que me acorda para a realidade.

E, digo-o sem ficção, autoficção ou memórias: nisto tudo há silêncio.

No silêncio está o amor, a admiração, a paixão pela vida. Não é preciso ir longe. Há silêncio nesta crónica antes de me lerem e depois de me lerem. Aqui em casa também. Gosto que aqui todos sejam, repito. E todos são ou foram ou serão. Acredito nas casas. Acredito que um livro pode mudar vidas. Acredito que a palavra “Silence” tatuada na mão da Rita é das demonstrações de amor maiores que alguma vez vi. Ou antes, acredito e sei.

E isso é estar em casa.

E isso é ser casa e silêncio.

E isso é querer e decidir ser feliz.

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