Revista Rua

2018-11-07T17:23:20+00:00 Opinião

Soro, água do mar e o custo das constipações…

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
6 Novembro, 2018
Soro, água do mar e o custo das constipações…

Cresci rodeada de medicamentos. Eram tantos que os que não se dispersavam pela casa estavam arrumados por ordem alfabética, no armário dos contadores da água, gás e eletricidade. Só tomei consciência de que os medicamentos poderiam ser perigosos e, como tal, deveriam ser mantidos fora do alcance das crianças, em idade adulta. A verdade é que, enquanto criança, nunca me ocorreu mexer naquelas caixas e muito menos ingerir o seu conteúdo.

Também cresci a ouvir, como resposta às minhas queixas de dores aqui ou mal disposições acolá, “isso passa”. E, quase sempre, passava. Também tive a minha dose de gessos, pontos e visitas ao hospital, mas, mesmo nessas circunstâncias, não tenho qualquer memória de medicamentos que tenha tomado.

No entanto, lembro-me de, por esta altura do ano, começarmos a preparar o inverno, com vacinas para a gripe, a forma mais radical de prevenção. Hoje, começamos a preparar o inverno com soro e água do mar e, tal como lavamos os dentes, lavamos o nariz. Guardo a imagem da explicação do meu pai, pneumologista, sobre a importância de se limpar bem o nariz. Ilustrando-o devidamente, em jeito de brincadeira, explicava aos miúdos a importância de se assoarem regularmente, expulsando todo o ranho cá para fora, em vez de passarem o dia a fungar. Porque, se fungassem, o ranho iria ter de encontrar espaço dentro das suas cabeças e poderia começar a ocupar o lugar do cérebro, até ficarem com um cérebro de ranho. E o que não subia, cairia para a garganta e por isso tinham tosse.

“A Economia, em particular a Economia da Saúde, oferece todo um enquadramento conceptual e metodológico para a estimação dos custos económicos da doença, desdobrando-os em custos diretos”

Confesso que não sei quantos miúdos passaram a assoar-se por receio de substituírem uma massa viscosa por outra, desconhecimento que serve para ilustrar a dificuldade de se avaliar economicamente o impacto das medidas de prevenção na saúde. Contudo, existe evidência, designadamente em estudos realizados para os Estados Unidos e Canadá, que medidas preventivas contribuem para a redução dos custos económicos das constipações e gripes. De facto, a prevenção contribui para evitar, por um lado, a disseminação da doença e, por outro, complicações decorrentes do desenvolvimento da doença. A Economia, em particular a Economia da Saúde, oferece todo um enquadramento conceptual e metodológico para a estimação dos custos económicos da doença, desdobrando-os em custos diretos (a soma de todos os custos associados ao tratamento, neste caso, das constipações e gripes, como por exemplo, consultas ou medicamentos, mas também eventuais custos com deslocações a serviços de saúde) e indiretos (os custos associados à perda de produtividade do indivíduo e dos seus familiares). Mais uma vez, para o caso das constipações e gripes, os valores estimados para os Estados Unidos e Canadá são significativos.

Assim sendo, se não for pelo receio de um cérebro de ranho, então que seja pela noção do custo económico associado, mas este inverno, proteja-se e à sua família – não fungue, assoe-se!

Sobre o Autor:
Economista, Universidade do Minho.

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