Revista Rua

2018-05-10T10:02:26+00:00 Opinião

Souto Rock. O festival do camião do leite e do vinho do Chico

Música
Marco Duarte
Marco Duarte
10 Maio, 2018
Souto Rock. O festival do camião do leite e do vinho do Chico

Há mais de 200 festivais de música em Portugal. A maioria tem os maiores nomes da música nacional e internacional, os melhores sponsors ou partners e dão as mais belas fotografias de Instagram. No meio do paraíso festivaleiro há o cheiro a cocó de vaca, vinho caseiro, strip tease espontâneo e rock.

O Souto Rock, organizado pela Associação Cultural e Recreativa de Roriz, vai este ano para a 14.ª edição. De 5 a 7 de julho o rock sobe a Roriz, uma pequena freguesia do concelho de Barcelos que sobrevive à custa da indústria têxtil e da agricultura. Todo ano é isto, uma aldeia pacata de gente humilde.

Em julho, o lugar de Quiraz é invadido por rock como se de uma festa popular se tratasse. Vendem-se rifas porta a porta para pagar às bandas e o barulho até “faz bem à saúde da freguesia”, dizem.

Se faz bem à saúde da aldeia não se sabe, mas com certeza que já atrapalhou a vida a muitos. Durante vários anos consecutivos o condutor do camião cisterna da Agros sofreu com o festival de Roriz. Ninguém merece trabalhar ao sábado à noite, é certo, mas a recolha do leite tem de ser feita e o pobre homem tinha de percorrer as diversas pecuárias (aqui chamamos vacarias) do concelho. Ao entrar no “Largo Souto” para chegar a uma indústria no fundo do lugar, viu o caminho tapado por um mar de gente em frente a um palco. Lá teve de atravessar e interromper concertos. Não se livrou, contudo, de ter mais passageiros a bordo, pendurados na traseira do camião e de ser saudado efusivamente como herói.

Hoje, isso perdeu-se, a modernidade chegou à cidade e pavimentaram uma estrada alternativa para que ele chegasse ao destino sem percalços. Coincidência? Muito provavelmente. Mas reza a lenda que o Souto Rock promoveu o asfaltamento de caminhos outrora em terra batida. Um feito.

Se fores o trabalhador da Agros, sente-te convidado a aparecer sempre que quiseres, sentimos a tua falta. Ainda bebemos um copo de vinho do Chico em comunhão.

Quantos festivais podem dizer que têm um vinho oficial? A todas as bandas que passaram por Roriz, durante os catorze anos, nunca faltou o vinho caseiro de um dos organizadores do festival. Ingrediente chave para qualquer concerto de rock.

Esta maravilha vinícola produzida nos mais ensolarados bardos da aldeia já deu azo a vários episódios míticos. Ora vejamos este. Corria edição de 2009 com os míticos Bunnyranch em palco e sobe um homem para tirar a roupa toda. Um striptease digno de uma concentração motard.

Este ano a festa continua com o mesmo cheiro a “m****” típico de uma zona agrícola. Em 2008, Joaquim Albergaria, dos extintos The Vicious Five, pedia em palco: “Não dá para desligar o cheiro a m****?”. Não dá, é mesmo assim o Souto Rock.

Enquanto o cartaz não é revelado, podem já ficar a contar com noites de rock ‘n’ roll, com bandas cheias dele nos poros, já que é essa a marca de qualquer banda que toque neste festival de verão.

Quem quiser ficar a conhecer o cartaz primeiro do que o resto das pessoas, é só aparecer a 13 de maio em Roriz. Em dia que se comemora aparições para os lados da Cova da Iria, há um concerto de Surma e Homem em Catarse, no café Plátano, e vão ser revelados os nomes que vão continuar a cultivar a cultura do tronco nu e fazer concertos caóticos de deixar qualquer stage manager aborrecido.

De 5 a 7 de julho, temos encontro marcado nos sítios do costume, com ou sem camião do leite. Mas, sempre, com rock, e vinho do Chico.

Sobre o Autor

Músico em Leviatã e dB. Colaborador no departamento de comunicação do Souto Rock

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