2018-05-04T10:35:56+00:00 Cultura, Personalidades

The Legendary Tigerman em entrevista

Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira3 Março, 2018
The Legendary Tigerman em entrevista

“A maior parte da arte que eu admiro está sempre mais ou menos desenquadrada e já não tenho dúvidas que o meu caminho é, claramente, por esse desenquadramento”

The Legendary Tigerman é a máscara de Paulo Furtado, que se apresenta já este sábado no Theatro Circo, em Braga.

Paulo Furtado, o nosso The Legendary Tigerman, é um nome reconhecido no panorama da música nacional. Começaria por, em primeiro lugar, perguntar-lhe quem é este Legendary Tigermanque anda na estrada numa autêntica odisseia em busca de Rock’n’Roll e tudo mais que o inspire. Quem é The Legendary Tigerman neste momento?

Bem, apesar de todas as mutações sofridas no último disco, eu creio que as verdadeiras bases do projeto continuam a estar presentes, a fotografia e o cinema continuam a ter um papel muito importante, e o Blues-Punk e Rock´n´Roll ainda são a espinha dorsal do projeto. Neste momento, Tigerman acaba por ser um quarteto ao vivo, porque o que foi acontecendo com o Paulo Segadães e João Cabrita ao vivo era demasiado bom para não ser explorado de raiz na gravação de um álbum.

Por outro lado, o homem atrás da máscara de Tigerman continuo a ser eu e continuo em busca de me reinventar no meu caminho, mantendo-me fiel aos meus princípios éticos. Por vezes, é um caminho duro, mas do qual me orgulho muito.

Tem andado na estrada em concertos, apresentando o álbum Misfit. Qual foi o seu ponto de partida para a criação deste álbum?

O disco na realidade começa com um filme, Fade Into Nothing, um projeto construído com o Pedro Maia (realizador) e a Rita Lino (fotógrafa), e foi escrito na sua maior parte durante a rodagem, entre Los Angeles e Death Valley. Quis tentar olhar para o mundo pelos olhos deste personagem a quem dava corpo no filme, chamado Misfit, um homem atormentado pelo excesso de informação e vida digital à sua volta e numa viagem interior à procura de se tornar em nada. É exatamente neste nada que tudo começa.

De algum modo, este Misfit é uma abordagem de The Legendary Tigerman a um mundo que vai muito além da música? Falo, neste caso, do próprio cinema e fotografia.

O cinema e a fotografia sempre foram uma parte muito importante deste projeto, mas talvez nunca tenham tido exatamente tanto espaço como em Misfit, que é claramente o meu projeto mais conceptual, em que tudo está interligado. O último objeto a sair será uma caixa com um livro de fotografias da Rita Lino e a banda sonora de Fade Into Nothing.

Dos diários de viagem pelos EUA até ao álbum Misfit, como foi esta experiência? Este é um álbum que relata, de alguma forma, um desenquadramento do seu próprio percurso?

No fundo os diários vão-se cruzando com as letras e ambas dão mais pistas sobre quem é este Misfit. Claro que por trás da máscara de Misfit, está a máscara de Tigerman e depois ainda estou eu, e a minha vida e o meu olhar. E, sim, isto de certa forma também é uma ode ao desenquadramento. Felizmente estou desenquadrado da maior parte da banalidade do que é a rádio ou a televisão em Portugal, orgulhosamente desenquadrado. A maior parte da arte que eu admiro está sempre mais ou menos desenquadrada e já não tenho dúvidas que o meu caminho é, claramente, por esse desenquadramento. Creio que felizmente há muito público desenquadrado do mundo, também, e que se revê em tudo isto.

Notam-se influências dos Blues americanos, envolvidos nas sonoridades Rock’n’Roll já características de The Legendary Tigerman. Esta linguagem é a particularidade principal deste Misfit?

Creio que essas sonoridades sempre estiveram presentes, o que me parece verdadeiramente novo é o uso de muita eletrónica, nos baixos e drum-machines, por exemplo, e sonoridades mais estranhas, como a auto-harp e os teclados Crumar, a juntar a este som que já era muito particular que nasceu entre mim, o Cabrita, o Segadães. Parece um disco muito direto, mas há muita coisa que só se vai percebendo com a repetição da audição.

Vai apresentar-se ao vivo no Theatro Circo, em Braga, já no próximo sábado. O que guarda para este concerto? O que trará ao público?

Os concertos têm estado a um nível muito elevado, estamos muito rodados, já com mais de 20 concertos este ano, e isso é muito relevante ao vivo. A maior parte das bandas em Portugal não têm oportunidade de ter este tipo de rodagem, porque maioritariamente tocam ao fim de semana e nunca conseguem realmente chegar a este foco de estar 24h por dia na estrada a pensar o concerto e a analisar o que pode ser melhorado.

Por outro lado, tocar com o Sega, Cabrita e Pisco (baixo) ao vivo é uma experiência incrível para mim, há uma liberdade musical muito grande e uma grande capacidade de improviso, todos os concertos têm sido muito diferentes.

O que é preciso é que venham com vontade de realmente ver um concerto de Rock´n´Roll, porque a nossa entrega tem sido total e estamos ansiosos por voltar a Braga. Espero que seja uma noite muito bonita.

E, claro, a abrir temos o Afonso Rodrigues, também conhecido como Sean Riley, que vai mostrar o seu novo disco, California, acústico e a solo, que tem feito concertos lindíssimos.

A sua digressão leva-o de seguida a outros palcos. Para além das apresentações ao vivo, o que está na agenda de The Legendary Tigerman ao longo deste ano? Que novidades ainda estão por vir?

Este ano será fundamentalmente passado no palco, com várias tours internacionais e nacionais na calha. Já em maio voltaremos à Europa para uma tour de 18 datas, e vemos com muita alegria a agenda portuguesa a preencher-se, também. Talvez queira dizer que as pessoas começam a estar cansadas do mesmo e querem sentir coisas diferentes, sentir-se vivas. É isso que gostamos de passar nos concertos, a vontade de estar vivo e sentir.

[ Fotografia de Miguel Estima, captada durante o concerto de The Legendary Tigerman no Sons de Vez, em Arcos de Valdevez ]