Revista Rua

2018-11-23T12:32:52+00:00 Cinema, Cultura, Em Destaque

The Other Lisbon Story: um filme sobre a (outra) história da nossa Lisboa

Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira23 Novembro, 2018
The Other Lisbon Story: um filme sobre a (outra) história da nossa Lisboa

Ao longo dos últimos anos, a tipicidade dos bairros lisboetas e a calmaria que trazia o Fado em cada esquina foi mudando, trazendo consigo a azáfama dos turistas à descoberta dos encantos da capital. Inês von Bonhorst e Yuri Pirondi são dois jovens apaixonados pelo cinema e documentário e, inspirados pelos passeios em Lisboa (cidade que continuam a admirar mesmo estando agora a viver em Itália), decidiram criar The Other Lisbon Story, um filme com a atriz Joana Ribeiro como protagonista e ainda três minidocumentários com os moradores lisboetas.

Inês von Bonhorst e Yuri Pirondi

Em primeiro lugar, gostaríamos de perceber o que juntou Inês e Yuri neste percurso da realização. De que forma é que a vossa carreira os uniu para este projeto The Other Lisbon Story?

Inês: em 2004 consegui ser admitida na Westminster University em Londres, onde frequentei o curso de cinema. Passado quatro anos conheci o Yuri Pirondi, que naquele tempo trabalhava como fotógrafo e diretor da fotografia. Apaixonámo-nos e unimos forças tanto na vida como no trabalho. Tanto um como outro provínhamos de um passado virado para as artes, trabalhando em áreas como o cinema, o documentário, mas também a vídeoarte e a instalação artística. As ideias para os nossos projetos eram trabalhadas em conjunto e desde sempre partilhámos ideais e gostos.

Qual é o principal ponto de partida deste filme? Qual é a outra história de Lisboa que querem contar?

No caso do The Other Lisbon Story, visto que nasci e cresci em Lisboa, orientava-me perfeitamente na cidade, tendo sido possível assim compartilharmos frequentes visitas, acompanhando as mudanças que, entretanto, foram acontecendo.  Foi num destes passeios que nos surgiu a ideia de criar um projeto que se debruçasse sobre o fenómeno da gentrificação que se verificava nesta capital.  Visto que ambos tínhamos uma paixão pelo cinema e, em particular, pelo documentário, para além do clima simbólico que pretendíamos recriar, decidimos dar a voz e auscultar opiniões e memórias de alguns habitantes da cidade.

Neste caso, The Other Lisbon Story não pretende mostrar apenas uma Lisboa tipificada, com a sua beleza natural, mas também fazer transparecer a cidade real que está a passar por uma transformação significativa que muito tem afetado a vida de quem nela habita.

Neste momento, na nossa opinião, a gentrificação está a criar uma situação de dualidade, em que, por um lado, o centro histórico da cidade está ser renovado e recuperado – mostramos no filme as imagens de alguns edifícios a serem demolidos para darem espaço a novas propriedades -, mas, por outro lado, grande parte dos residentes dos bairros históricos de Lisboa estão sem capacidade económica para enfrentar a imposição de uma subida repentina das rendas das casas onde sempre habitaram. No filme, a parte dos residentes descontentes é representada pelos figurantes numa forma simbólica e metafórica.

Este filme conta com a participação da jovem atriz Joana Ribeiro. Foi importante contarem com o trabalho desta atriz tão querida do público português?

Tanto eu como o Yuri estávamos à procura de uma atriz jovem para o papel de protagonista principal e assim que tivemos conhecimento da atividade da Joana apaixonámo-nos pelo seu trabalho e profissionalismo. Contactámo-la e ficámos felicíssimos quando ela se mostrou disponível para fazer parte de uma produção independente realizada com um orçamento quase inexistente. O dia das filmagens coincidiu com o dia mais quente de sempre em Lisboa, estavam 47 graus, e a Joana Ribeiro foi incansável, revelando dispor de uma reserva de energia positiva durante um dia inteiro de filmagens nessas condições. Se tivermos a oportunidade de fazer outros filmes em Lisboa, a Joana constará sempre da nossa lista de atrizes preferidas.

Nas primeiras imagens, vemos a jovem, personagem interpretada pela Joana Ribeiro, numa correria em busca de um destino. Isto poderá funcionar como analogia para os jovens portugueses que possam andar “perdidos” em busca de uma oportunidade?

Sim, definitivamente foi essa a razão porque escolhemos uma atriz nova, pois queríamos mostrar um sector mais jovem da população, que tem dificuldade em encontrar trabalho. Neste momento, o desemprego baixou muito em Portugal, mas essa situação não faz com que todos os jovens estejam satisfeitos com os trabalhos que encontram. Muitas vezes não conseguindo arranjar um trabalho na sua área de preferência, são obrigados a adaptar-se ao que há disponível no mercado, o que poderá causar-lhes um sentimento de frustração. Mas a analogia chega também a outras classes etárias, quando a atriz chega finalmente à fila do casting onde se veem pessoas de todas as idades, pois aos nossos olhos, não são só os jovens que passam por dificuldades, mas também pessoas mais velhas, que estão reformadas com pensões reduzidas ou perderam o trabalho devido ao encerramento de inúmeras empresas no centro da cidade e que não conseguem, de forma alguma, voltar ao mercado do trabalho.

Quando a jovem chega ao destino, percebemos que é um casting e a fila de espera é grande. Que mensagem querem passar ao espectador?

A fila do casting pode representar não só a espera interminável para se encontrarem com o misterioso “diretor”, mas também assemelhar-se a uma fila de desempregados, ou a uma das habituais filas de pessoas que vêm tratar de assuntos relacionados com uma das inúmeras burocracias do país. Ou, em resumo, a qualquer outra fila que todos vemos diariamente quando andamos pela cidade. A burocracia em Portugal já está melhor em comparação com anos passados. Alguns sectores têm-se simplificado, mas de um modo geral predominam as dificuldades e a lentidão que leva à formação das típicas filas de pessoas.

Para além do filme em si, este trabalho The Other Lisbon Story é acompanhado por uma série de pequenos vídeos que trazem, na primeira pessoa, testemunhos de habitantes lisboetas. Porquê esta opção? É importante para vocês dar voz às pessoas?

Achamos que a melhor forma de compreender a cidade é falar diretamente com os seus habitantes. Fizemos longas caminhadas pelos vários bairros típicos da cidade de Lisboa e tentámos dar voz às pessoas que lá habitam, pois pensamos ser essencial saber como era o seu passado de modo a podermos perceber o presente. Estes três minidocumentários acabam por ser essenciais para se perceber mais a fundo o primeiro filme, completando-se os quatro filmes entre si.

Após a realização deste trabalho, consideram que a massificação turística está a mudar o rumo da cidade de Lisboa?

Sim, pensamos que a gentrificação e a massificação turística estão a mudar o rumo da cidade, mas que existem partes positivas e partes negativas neste processo. As partes positivas são que Lisboa está a ter, de momento, uma grande projeção internacional, que o turismo está a dar trabalho a muita gente e que o centro da cidade está a ser renovado e que volta a ter vitalidade e movimento. Mas, por outro lado, o crescimento exponencial do turismo em Lisboa tem implicado transformações significativas na qualidade de vida de quem nela habita. Assim, tal como noutras cidades turísticas, grande parte dos antigos residentes dos bairros históricos de Lisboa, devido à sua incapacidade económica para enfrentar a subida repentina das rendas das casas, são expulsos das suas casas e ambiente e veem-se forçados a deslocar-se para bairros cada vez mais periféricos, onde não conhecem ninguém.  Pensamos, no entanto, que se mais tarde houver uma estratégia bem conduzida de planeamento por parte da Câmara e do Governo, que atenda às pessoas que habitam na cidade, esta transformação rápida pode ser refreada e a adaptação às mudanças pode vir a ser mais fácil para os habitantes dos seus bairros históricos.

Onde poderão os portugueses visualizar este trabalho?

O trabalho está a ser distribuído em vários festivais internacionais e pode ser visto no nosso website pessoal (em renovação), no Vimeo ou podem acompanhar as diversas novidades na nossa página Facebook.

Em termos de planos futuros, pretendem continuar este trabalho de produção que envolva as pessoas e as cidades?

Adoramos trabalhar com o documentário social e o cinema real. Já há vários anos que temos estado a desenvolver vários trabalhos dentro desta área e seguramente iremos continuar à procura de projetos sociais e etnográficos que envolvam sempre pessoas, cidades e culturas.

Quais são os vossos principais objetivos para a Makkina?

Os principais objetivos para a Makkina (Inês & Yuri) é continuar a desenvolver cada vez mais projetos de documentário, mas também noutras áreas cinematográficas. Pretendemos explorar temas sociais do dia a dia e tirar partido das nossas experiências pessoais para tentar transmitir essas mesmas sensações em filmes.

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