Revista Rua

2018-08-06T11:38:59+00:00 Opinião

“This is America”, o summer hit de 2018

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
6 Agosto, 2018
“This is America”, o summer hit de 2018

Todos os anos é igual: no verão, a acompanhar os dias quentes, do dolce far niente, há hits de música que nos perseguem e entram em loop. Essa repetição quase infinita, que anda em círculo, pelas rádios, televisões, sugestões do YouTube, Spotify e afins. Normalmente, começam a aparecer em meados de maio e repetem-se, até à exaustão, até setembro. Como aquele par de sapatilhas que comprávamos, quando éramos mais novos, e só o largávamos quando estivesse rompido, sujo e gasto.

Há um ano, éramos consumidos por um tal “Despacito”, uma música imune a idades, que se entranhou no nosso quotidiano, que nos perseguia e se fazia ouvir em todo o lado. Cumpriu todos os seus desígnios: bateu records de visualizações do YouTube, foi número um em todo o lado e mais algum e foi até nomeado para melhor tema musical do ano nos Grammys. Melhor nem na farmácia!

Ora, estamos em agosto e uma coisa que ainda não reparei – a menos que esteja muito distraído – é a falta dum Summer Hit 2018. Qual é o “Despacito” de 2018? Onde para esse hit do reggaeton que põe 90% dos comuns mortais a ouvir música de vidros abertos a passar em frente à praia no carro? Para já, a música viral deste ano, apesar de já ter saído há dois ou três meses e não ter como missão ser um summer hit que se esfumeia no tempo, datado de sazonalidade, é a “This is America” do Childish Gambino, alter-ego do ator e multifacetado Donald Glover.

Não deixa de ser impressionante que um tema de intervenção e de crítica social seja o tema mais badalado de 2018 até ao momento. A mensagem é do mais atual que existe e, à sua dimensão, pode ser adaptado a qualquer país ou região do mundo. Com um videoclipe que roça a perfeição e uma mensagem crua, dura, eficaz e chocante, este tema avançou para o mundo como um rastilho a ser queimado pela pólvora. A meu ver, é pura arte: da música, ao vídeo e à simbiose perfeita entre o que vemos e ouvimos, numa mensagem brutal que critica estereótipos, fenómenos sociais, episódios políticos, racismo e discriminação. O título, essa frase simples, é também ela muito sóbria e elucidativa. Faz as pessoas olharem para elas próprias como membros que pertencem a uma comunidade chamada “América” e faz com que todos se sintam culpados, incluindo o próprio autor da música. Não há outra palavra: brilhante!

A música de intervenção sempre foi feita, sempre teve o seu momento e espaço. É inegável que vivemos tempos, em termos macro, propícios com tanta coisa de errada que acontece com o mundo. Fabricamos a nossa própria miséria, quase apetece dizer. O interessante está, olhando para trás, percebermos que se calhar vivemos um tempo em que as pessoas se interessam cada vez menos pela mensagem ou pelo conteúdo duma música e mesmo assim ainda há quem consiga dizer algo, chamar a atenção para si e debruçar-se sobre a contemporaneidade, fazendo algo com ela. A arte tem essa missão.

Enquanto temos dezenas, se não centenas, de jornalistas em Turim à espera do CR7 ou nos rimos com as últimas do Bruno de Carvalho, temos um país que promove a tauromaquia como tradução de cultura, entre outras coisas que não lembra nem faz entender o que é ser uma sociedade evoluída em pleno século XXI. Onde menos se espera há um “This is America”, neste caso um “This is Portugal”.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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