2018-05-16T13:57:38+00:00 Espairecer, Lifestyle

Uma viagem pelo Minho mais profundo

E uma rápida passagem por Trás-os-Montes
Redação
Redação2 Março, 2018
Uma viagem pelo Minho mais profundo
E uma rápida passagem por Trás-os-Montes

Por Pedro Henriques, autor do Blog Espírito Viajante

Praias de areia fina, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, santuários marianos e um centro histórico UNESCO são alguns dos ingredientes que tornam o Minho um destino de visita obrigatória.

Em 1886, Pinho Leal, na sua obra Minho Pittoresco, apelidava o Minho como o Jardim de Portugal. As palavras do autor fazem todo o sentido se tivermos em conta a elevada densidade de bacias hidrográficas: Minho, Cávado, Ave, Lima… que fazem da região uma das mais férteis e a mais verdejante do país.

As características únicas deste território foram preponderantes no estabelecimento de culturas que marcaram a nossa história, começando pelos castros na Idade do Ferro, a fundação de Bracara Augusta na época romana ou o berço da nação na época da Reconquista.

Séculos de disputas territoriais com os vizinhos castelhanos permitiram criar um importante sistema defensivo de castelos e fortalezas que ainda hoje perduram e que levam o turista a viajar no tempo.

No período barroco floresceram imensos mosteiros e casas senhoriais que fazem do Minho um nicho importante de arquitetura civil e religiosa.

​Respondendo ao desafio lançado pela RUA, proponho, no entanto, um roteiro alternativo de cinco locais: um Minho mais profundo, genuíno e hospitaleiro.

Mosteiro S. Miguel de Refojos / Casa do Tempo  (Cabeceiras de Basto)

O Mosteiro de S. Miguel de Refojos é o maior símbolo de Cabeceiras de Basto e considerado uma obra-prima da arquitetura barroca em Portugal. Implantado no vale mais fértil do concelho pelas mãos dos monges beneditinos, destaca-se pela escala monumental da igreja, as grandiosas torres e um zimbório único, que ainda hoje marcam a paisagem. Imagine-se numa época, em que pouco se viajava e se conhecia, o impacto que terá tido esta construção em toda a região envolvente.

Vamos de seguida à Casa do Tempo, nascida da transformação das antigas casas de caseiro do Mosteiro de S. Miguel num espaço museológico dedicado à memória e ao tempo. Aqui, a harmonia entre o passado e a modernidade é perfeita, complementada com diversos equipamentos interativos. Ao longo da visita guiada “viajamos” pela antiga vida quotidiana dos cabeceirenses em temas como a natureza, o património, a agricultura, os trajes e a música.

Agra (Vieira do Minho)

Agra é uma das aldeias mais típicas da Serra da Cabreira e situa-se na freguesia de Rossas, em Vieira do Minho, não muito longe da nascente do Rio Ave. Percorra os seus velhos arruamentos feitos de calçada e admire a perícia e sabedoria dos antigos pedreiros, que a partir do granito esculpiram verdadeiras obras de arte através da pedra de cantaria. Do vasto património cultural existente, pode visitar o cruzeiro, a capela de S. Lourenço, a ponte medieval em cavalete e os moinhos do Ave.

Mixões da Serra / Fojo do Lobo (Vila Verde)

Mixões da Serra localiza-se em Valdreu, concelho de Vila Verde. Este pequeno aglomerado desfruta de um fantástico enquadramento, numa linha que separa o mundo rural do ambiente de montanha.

Santo António é o seu padroeiro e de uma promessa antiga nasceu um pitoresco santuário, que em junho recebe uma grande celebração religiosa: a Benção dos Animais. Esta tradição remonta ao longínquo século XVII e terá sido originada por uma grande peste que vitimou uma boa parte do gado da aldeia. Perto de Mixões existe o Fojo do Lobo, uma armadilha de caça usada durante centenas de anos para a captura de lobos que atacavam o gado. Estes exemplos construtivos fazem parte da história das comunidades locais e constituem um vestígio da importância da pastorícia na região ao longo dos últimos séculos.

Lindoso (Ponte da Barca)

Aldeia conhecida pela sua riqueza patrimonial onde figuram o castelo e o fabuloso conjunto de espigueiros, que muito valorizam o território. Estou a falar do Lindoso, povoação no concelho de Ponte da Barca. São no total 64 espigueiros que se erguem agrupados no pendor do cabeço que o castelo coroa. Estes concentram-se em volta de uma única eira, refletindo assim a importância do comunitarismo tão característico das populações da montanha. Uns metros mais acima surge destacado o Castelo do Lindoso, implantado no outeiro do qual se vislumbra uma sublime paisagem sobre o Rio Lima. Assumiu um papel importante na estratégia da defesa fronteiriça, sendo construído no reinado de D. Afonso III. Atualmente está classificado como Monumento Nacional e dispõe de um espaço museológico no seu interior.

Sistelo (Arcos de Valdevez)

Para mim, foi uma enorme surpresa quando cheguei a esta povoação e me deparei com a beleza dos socalcos que a rodeiam. A construção destas plataformas surgiram pela necessidade de aumentar o espaço agrícola e de oposição aos declives. Graças a esta interação do homem com o território que a Aldeia de Sistelo é conhecida como o Pequeno Tibete português. Em 2017 foi eleita como uma das 7 Maravilhas de Portugal, na categoria Aldeia Rural.

Explore a aldeia através do trilho das Pontes. Desça em direção ao Rio Vez através de uma íngreme escadaria em pedra, embelezada pelo verde do musgo, propiciando-lhe um aspeto vernacular. Depois de passar o rio, relaxe no parque de merendas e daí continue a caminhada através de uma calçada antiga, onde podemos desfrutar da aldeia do outro lado da margem, até chegarmos à ponte medieval, que nos levará novamente a Sistelo.

Aldeia do Soajo / Mezio (Arcos de Valdevez)

O Soajo localiza-se na parte sudeste do concelho de Arcos de Valdevez, já inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Esta vila minhota tem já uma longa presença humana, que se consolidou com a elevação a sede de concelho entre 1514 até 1852. Ao caminharmos pelas ruas da povoação, podemos admirar o uso do granito nas várias construções, desde as casas típicas, aos antigos Paços do concelho e o Pelourinho (classificado como Monumento Nacional). Uns metros abaixo está o famoso núcleo de 24 espigueiros inteiramente de pedra, implantados sobre um enorme penedo de afloramentos graníticos. Foram construídos durante o século XVIII e o século XIX.

Sugiro de seguida uma ida ao Núcleo Megalítico do Mezio e ao Centro de Interpretação do Mezio, que contém preciosas informações sobre o património cultural e biodiversidade da região

Para os leitores que pretendam descobrir outros locais pitorescos por terras transmontanas, posso sugerir dois destinos:

Pitões das Júnias (Montalegre)

Pitões das Júnias é uma aldeia em Montalegre e “desfruta” do estatuto de uma das povoações mais altas de Portugal (1100 metros).

O enquadramento paisagístico é extraordinário, isolada, rodeada por lameiros e, como imagem de fundo, as poderosas escarpas e morros graníticos do Gerês. Aqui, as habitações são de pedra lavrada em granito da região e as ruas estreitas em calçada, característica tipicamente transmontana.

No fundo da aldeia, o Mosteiro de Pitões das Júnias deixa-nos curiosos. Como é possível terem construído o templo junto do rio e afastado da povoação? A resposta é simples: a sua função original era um ermitério, logo a sua construção obedecia a critérios de isolamento dos monges. Posteriormente, o Mosteiro passou para a Ordem Beneditina até à sua extinção em 1834. Está classificado como Monumento Nacional. Logo à frente, podemos ver a Cascata de Pitões, uma queda de água com mais de 30 metros de altura.

Albufeira do Azibo (Macedo de Cavaleiros e Bragança)

A Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo está situada, na sua quase totalidade, no concelho de Macedo de Cavaleiros e concelho de Bragança, ocupando uma área superior a 3000 hectares. A formação deste enorme espelho de água, proporcionou a várias espécies de aves condições excelentes para a sua nidificação, entre as quais destaca-se o mergulhão-de-crista.

Este local é perfeito para a realização de várias atividades ligadas à natureza, como o Vólei de Praia, onde já foi realizado um Campeonato Europeu, o cicloturismo através da ciclovia do Azibo (16 km) e o Trilho Pedestre dos Fornos Antigos.

Em 2012, a Albufeira do Azibo foi uma das vencedoras do concurso Maravilhas de Portugal, na categoria de Praias de Albufeiras e Lagoas.