Revista Rua

2018-11-15T12:38:54+00:00 Cultura, Música, Personalidades

“Vivo de amor profundo e sou livre como um vagabundo”

É com uma referência à canção que o público português tão bem conhece, “Nobre Vagabundo”, que Daniela Mercury se apresenta à RUA.
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto2 Julho, 2018
“Vivo de amor profundo e sou livre como um vagabundo”
É com uma referência à canção que o público português tão bem conhece, “Nobre Vagabundo”, que Daniela Mercury se apresenta à RUA.

Com concerto agendado no Casino Estoril a 6 de julho, apresentando o álbum O Axé, a Voz e o Violão, a artista “furacão da Bahia” e “rainha do Axé” contou-nos algumas das suas memórias de infância. Não estranhe ganhar algum sotaque quando começar a ler esta entrevista!

Fazendo uma viagem ao passado, quando é que a Daniela descobre a paixão pela música?

Os meus pais e meus avós sempre amaram música e em nossa casa ouvíamos óperas, jazz, fados, a melhor música popular brasileira, norte-americana, erudita, clássica, latina e europeia. Eu já amava a música quando comecei a dançar com ela aos quatro anos de idade. Com 13 cantava para os amigos, que já pediam para eu cantar as suas músicas preferidas em todas as serenatas. Foi nesse período que percebi que também amava cantar. Anos antes de imaginar ser profissional, cantei em serenatas, em peças de teatro, espetáculos amadores das escolas, nas missas e encontros católicos e festivais de música jovem. Com 15 anos, em 1980, fui convidada por dois franceses para cantar profissionalmente pela primeira vez, no pub Le Fiacre, no bairro da Barra, em Salvador, e menos de um ano depois fui cantar no trio elétrico, no carnaval.

Tem alguma memória que seja especial para si e gostasse de partilhar?

Minha irmã mais nova, Vânia Abreu, cantora, tinha 12 anos e eu 14, quando nós estudávamos na mesma escola e ela fez uma peça de teatro que tinha que terminar com a música O bêbado e a Equilibrista de João Bosco e Aldir Blanc, mas o som quebrou e ela ficou desesperada. Eu então me ofereci para cantar a música a cappella. Foi assim que descobri que podia cantar de verdade. Até hoje não sei como tive essa segurança e coragem de cantar para mais de 100 pessoas sem instrumentos me acompanhando e sem nem saber que eu era cantora.

Na música “Nobre Vagabundo”, o refrão diz para “respirar o amor e aspirando liberdade”. É por esta norma que rege a sua vida? É importante para si este lema?

Tenho o espírito livre. Vejo-me como uma pessoa sempre em busca de novas experiências e descobertas. Sou como um pássaro que se desloca entre continentes. Preciso criar para me sentir livre e preciso me desafiar e desafiar o tempo, pois sei que o tempo é pouco para viver, conhecer, ver, sentir, ouvir e fazer tudo que quero. Vivo de amor profundo e sou livre como um vagabundo.

Fotografia: Célia Santos
Fotografia: Célia Santos

O Axé é um género musical que mistura vários estilos como o samba, reggae ou ainda ritmos afro-brasileiros. Curiosamente a Daniela é reconhecida como a Rainha do Axé, por ser também uma fusão de ritmos e ser uma pessoa pluralista?

O género não existia quando comecei a fazer meus álbuns e construí um novo conceito musical dentro do universo de carnaval. Os meus álbuns são obras que conceituam o género, são o começo, são parte do ADN do Axé. Cada um dos precursores do género contribuiu de maneira diferente. Escolhi o samba afro, o samba reggae, o samba merengue e o reggae como as principais bases rítmicas para as minhas composições e arranjos e tenho muita influência do rock, do funk, da soul music, da salsa, do merengue, do samba jazz, da música popular brasileira, da bossa nova e do samba rock, além dos maracatus, xotes, galopes e frevos. E amo testar novos ritmos suingados de todo o mundo, também música eletrónica e ritmos como o como o kuduro e o funaná que são incríveis para dançar e o Brasil não conhecia. Mas, na essência, sou sambista.

 

Tem até um single chamado “A Rainha do Axé” que fala sobre a força da mulher, fala de amor e de fé. São temáticas importantes para si?

É uma música manifesto contra o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância contra as religiões afro brasileiras e canção em que eu falo do meu amor por Malu.

Fotografia: Célia Santos
Fotografia: Célia Santos

As suas letras/poesias são muitas vezes baseadas em experiências e sentimentos pessoais. É uma forma de tornar as suas músicas mais íntimas e autênticas? 

Escrevo constantemente sobre vários assuntos. E dependendo do meu desejo no momento, escolho temas e textos mais pessoais e/ou políticos. Gosto dos temas mais recentes para compor os álbuns. Canto o que mais estiver vivo no meu coração no momento.

Considera que essas vivências fazem da música mais transcendente? 

Acho que é uma emocionante e acertada interpretação que imortaliza uma música. A emoção que se imprime.

Sendo filha de pai português, qual o melhor ensinamento que a cultura portuguesa lhe proporcionou?

A amar a música e a poesia.

Acho que é uma emocionante e acertada interpretação que imortaliza uma música.

 O que tem de portuguesa?

Tenho a autoexigência, a seriedade, uma boa dose de melancolia. Mas acredito que ser portuguesa é amar a cultura, a comida, os costumes, a língua e o país. E eu amo incondicionalmente.

Numa entrevista, disse que quando tocou pela primeira vez no Coliseu, a sua avó Josefina (portuguesa) lhe disse: “eu tinha de viver para ver a minha neta cantar no meu país”. Tem um carinho especial sempre que cá volta?

Sempre lembro de minha amada e muito inteligente e corajosa avó e de toda a família portuguesa que se uniu e recuperou os laços e o convívio por causa do sucesso da minha carreira em Portugal, o país de origem, de afeto, que gerava uma eterna saudade. Pois minha avó veio para o Brasil morar já adulta e com as minhas duas tias garotas e o meu pai que já tinha dez anos de idade. Para a minha avó, voltar a Portugal era voltar para casa com a neta que havia ganhado o coração dos compatriotas. Uma grande sensação de sonho e realização.

Como é que considera a energia do público português?

Maravilhosa! Os portugueses cantam todas as músicas, dançam, saltam e sorriem, ficam eufóricos com os shows. Demonstram muita felicidade e respeito pelo meu trabalho e por me verem e eu não quero mais sair do palco. Amo cantar em Portugal.

Fotografia: Célia Santos
Fotografia: Célia Santos

Tem concerto agendado para dia 6 de julho no Casino Estoril onde vai apresentar o álbum O Axé, a Voz e o Violão. O que pode o público português esperar deste concerto?

O show é como se eu estivesse na sala de casa cantando. É despojado e, ao mesmo tempo, grandioso pelos momentos de profundidade. Mas a intimidade com o público cria um clima de amizade, de simplicidade muito gostoso. Conto histórias, peço ao público que recite poesias e dance. Parece um bate papo entre amigos com a música nos aproximando.

Já somou mais de 40 prémios ao longo de 15 tournées. Sente-se realizada a nível profissional ou há alguma coisa que ainda lhe falta conquistar?

Não é por conquista que canto. Canto para existir. Canto para estar no palco que é o lugar mais bonito do mundo. Canto para nunca perder a perceção do que a mente e a imaginação podem criar e como a arte é capaz de nos humanizar. A mim e a todos que se deixam tocar.

Não é por conquista que canto. Canto para existir. Canto para estar no palco que é o lugar mais bonito do mundo.

Quanto tempo tem para matar a saudade de quem se ama? Do público português?

A saudade nunca acaba de verdade. Se renova sempre e faz a gente sentir o amor mais forte ainda. Nunca há bastante tempo para estar com quem se ama. A sorte é que os shows são tão intensos que nos conectam como muita força. Servem como um grande abraço e fortalecem os laços de afeto. Mas a saudade sempre volta e eu volto sempre para matar essa saudade de vocês.

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