2018-05-03T10:58:55+00:00 Opinião

“Whatever”

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Paulo Brandão
Paulo Brandão
2 Março, 2018
“Whatever”

Viajo pouco.

– “That’s not true though”.

É o que sinto quando penso onde estive e onde gostaria de ter estado. Paris, Bruxelas, Berlim, Austin, New York, Londres, Atenas, Manchester, Barcelona, Madrid, Estocolmo e Amsterdão são algumas das cidades que visitei como turista. Mas não só como “turista”. Na verdade, não gosto da palavra, pois leva-me a pensar que estive nas cidades para conhecer monumentos ou circular em autocarros com segundo andar.

Vivi em Manchester, onde estudei, e namorei temporadas em Londres.

– “Whatever that means, old man”.

Andei sozinho em New York pelos lugares mais feios durante dias, onde descobri que não há nenhuma razão para ser cauteloso. Tive gripe em Barcelona. Fiz menos amor em Paris do que era suposto. Atenas trouxe-me novos amigos. Manchester deu-me Shakespeare e a melhor cerveja do mundo. Em Bruxelas enganei-me no mapa e perdi-me. Em Austin soube o que é ser americano e gentil.

– “Yeah, America sounds gentil alright”.

Em Estocolmo, tive vontade de ficar para sempre, tal o gozo em andar de bicicleta e dos parques arrumados como prateleiras. Em Londres, experimentei as “drogas” que havia para experimentar, coisa pouca e nada grave, tranquilos, pois era apenas um miúdo.

– “Stop bragging, you ass”.

Vivo há quase dois anos em Braga. Não posso dizer que me integrei, pois já aqui trabalho desde 2006 e por isso foi mais uma espécie de apropriação noturna. Curiosamente, nunca passei tanto tempo dentro de casa, lendo, navegando, cultivando ideias, arrumando tralha acreditando que menos é mais e, claro, preparando os dias seguintes: oito horas para trabalhar, oito horas para lazer, oito horas para dormir.

– “You are trying too hard to sound smart. It shows”.

Aliás, nunca consigo integrar-me em cidades que conheço.

– “When you wanna sound special and diferent”.

Famalicão, Porto, Manchester, Famalicão de novo, agora Braga!

– “Shut up”.

Talvez por isso tenha uma rotina e conheça mal estas cidades. Ou, pelo menos, como seria desejável e útil. Sim, não me julguem malquerido por isso.

– “Nobody was”.

Conheço mal as quatro cidades onde vivi mais tempo, também sinto isso.

– “Is that supposed to make you sound cultured?”

Não sei os nomes das ruas. Frequento três restaurante e um bar. Um cabeleireiro e uma livraria. Compro a minha roupa toda na Zara porque fica ao lado do teatro onde trabalho. Não sei mesmo o que fica depois da escola secundária D. Maria II, que muito bem avisto do meu quarto. Talvez seja uma forma de proteção.

– “It’s really not though”.

Como se andar por aí fosse permitir que a cidade me conheça ou que ao conhecer com esforço não deixe espaço para a surpresa e para o novo. Uma espécie de cápsula controlada, um aguardar de sol janelar, entre velas e romãs nos parapeitos das janelas.

– “Oh, I´m so smart and poetic and blah, blah, blah”.

Nunca pensei sobre isso e não quero pensar.

– “Clearly”.

Como se sair desta preguiça confessa me faça mudar de ideias sobre a cidade onde vivo, que tem muito de mental em mim, o que sinceramente é uma forma mais profunda do que a real ou visual, essa que depende muito do vento ou da chuva que faz.

– “Just start exercising and get out of your ass, food addict”.

Bom, de entre todas as cidades citadas, o Porto transformou-se e é um destino turístico marcante e inovador. Braga sempre foi, pela sua história e religiosidade, um destino sem grandes derivas, sendo que se nota de ano para ano uma maior oferta e crescimento em todos os sentidos, sendo que haverá boas surpresas no futuro, digo e desejo.

Sobre o Autor

Diretor artístico do Theatro Circo.

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