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2021-01-25T09:36:36+00:00 Cultura, Literatura

10 livros que devem fazer-lhe companhia neste confinamento

Para o confinamento, sugerimos-lhe alguns livros imperdíveis de autores portugueses, desde as últimas gerações aos mais memoráveis escritores portugueses. 
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Redação21 Janeiro, 2021
10 livros que devem fazer-lhe companhia neste confinamento
Para o confinamento, sugerimos-lhe alguns livros imperdíveis de autores portugueses, desde as últimas gerações aos mais memoráveis escritores portugueses. 

Por Mariana Sousa Lopes

Os livros têm uma capacidade sobre-humana de nos levar para um novo lugar, para conhecer novas perspetivas, realidades e histórias. Para o confinamento, sugerimos-lhe alguns livros imperdíveis de autores portugueses, desde as últimas gerações aos mais memoráveis escritores portugueses.

Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago

Saramago foi uma das maiores peças para o desenvolvimento e mérito da literatura portuguesa pelo mundo. A nível nacional é, claro, um dos escritores mais homenageados. A sua história na literatura começou em 1947 e, em 1995, recebeu o Prémio de Camões. Já em 1998 recebeu a maior glorificação: Prémio Nobel da Literatura. Trabalhou como funcionário público, escritor, ensaísta, jornalista e todas as funções contribuíram para as suas obras, ainda que fosse no mínimo detalhe. Para conhecer um pouco mais da sua vida, há o documentário José e Pilar, onde é retratado o romance com Pilar, entre Lisboa e Lanzarote, e ainda alguns pormenores sobre a visão que leva do mundo. De forma a continuar esta caminhada literária de Saramago existe a Fundação José Saramago, que tem como objetivo difundir a cultura, a defesa dos Direitos Humanos.

Entre as dezenas de obras publicadas, destaca-se o Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Lucidez, O Ano da Morte de Ricardo Reis e, ainda, o Ensaio Sobre a Cegueira, uma obra intemporal, cuja primeira publicação foi em 1995 e conta hoje com inúmeras traduções. O romance inicia-se com um homem no carro, que ficou cego repentinamente, levando a uma cegueira branca coletiva, sem cura. Com a epidemia, o Governo coloca toda a população num manicómio. Em vários episódios, a obra retrata uma preocupação coletiva, ao mesmo tempo, as fragilidades e vulnerabilidades dos seres humanos. Na apresentação do livro, José Saramago refere: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri a escrevê-lo. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”. O autor reconhecido por evitar o uso de pontuação não imaginaria, há quase 30 anos, que viveríamos uma pandemia, que nos obriga a evitar vivermos na cegueira mental, que tanto criticou.

Contra Mim, de Valter Hugo Mãe

Aos 29 anos, Valter Hugo Mãe publicou o seu primeiro livro Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde. Passados sete anos (2007) venceu o Prémio Literário José Saramago. Mas, o seu percurso na literatura começou em 1999, quando fundou a Quasi edições, com Jorge Reis Sá, e em 2006 o Objeto Cardíaco. Ainda no mundo das artes, foi vocalista da banda Governo, com António Rafael e Miguel Pedro Guimarães. Atualmente, já publicou 36 livros e tem um espaço de crónica na Notícias Magazine, onde aborda temáticas atuais. Em novembro do ano passado, participou no programa Herdeiros de Saramago, da RTP, onde é exibido o seu percurso quotidiano, passando pela apresentação da sua mãe, das noites de cafés com amigos em Vila do Conde, a importância do desenho para os textos e ainda recita algumas das suas obras.

O mais recente livro de Valter, Contra Mim, foi escrito durante a quarentena, um processo importante para se libertar da ansiedade. Um livro de autoficção, que leva o leitor para o universo da infância do autor, desde a vida em Angola, Paços de Ferreira e Caxinas. Semelhante a uma biografia, o livro envolve o leitor em cada história da vida de Valter, num processo de introspeção muito importante.

As 100 Melhores Crónicas, de Miguel Esteves Cardoso

Entre as mais de 30 mil crónicas publicadas de Miguel, as dezenas de livros publicados, escolher apenas uma publicação é um grande desafio. Recentemente o escritor lançou o livro As 100 Melhores Crónicas, onde são selecionados diversos dos seus trabalhos, desde as crónicas da Visão, Rádio Renascença, Rádio Comercial, Jornal Letras, O Independente e ainda o jornal Público – onde ainda escreve diariamente.

Miguel Esteves Cardoso é cronista, com muitas competências para a criatividade, crítica e reflexão. Ao longo de todos os seus livros é possível descobrir no que acredita, o que defende e quem ama. Desde o seu grande amor – Maria João -, os lugares que mais gosta e as opções que prioriza na sua vida.

Entre romances e livros de crónicas, Miguel Esteves Cardoso com a sua visão inigualável apresenta como vê o mundo e a sociedade em vários livros, como: No passado e no futuro estamos todos mortos, O Amor é F*dido, Como é Linda a P*uta da Vida, A Causa das Coisas, Os Meus Problemas.

Felicidade, de João Tordo

França, Itália, Alemanha, Hungria, Espanha, Suécia, México, Argentina, Brasil e Colômbia são alguns dos países que João Tordo já conquistou com as suas obras. João Tordo foi vencedor do Prémio Literário José Saramago, também finalista do Prémio Literário Europeu, do Prémio Fernando Namora e do Prémio Oceanos. Entre os 15 livros já publicados, ainda tem tempo para ensinar, em cursos como a Nova Oficina Escrita de Romances, que começa dia 5 de fevereiro.

A sua mais recente obra é Felicidade, lançada em novembro de 2020. A história decorre no início dos anos 70, num período com várias dificuldades na sociedade portuguesa, com a pré-revolução. O romance foi inspirado numa parte da vida do autor, quando vivia num bairro e tinha como vizinhas três raparigas, trigémeas. A história é à volta destas três irmãs, que se desenvolve a par com a personagem principal, que é um rapaz. Ao longo de toda a obra, são referidos alguns episódios históricos, tais como a Guerra Colonial, o contexto político português ou o incêndio do Chiado em 1988. A obra está dividida em três atos e com alguns episódios contados com um tom humorístico, por ser algo que o narrador está a relembrar.

Equador, de Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares passou pelo mundo do jornalismo, seguindo as pisadas do pai, o jornalista Francisco Sousa Tavares, e pela realidade da mãe, a escritora Sophia de Mello Breyner. Miguel já trabalhou na RTP, SIC e TVI, em 1989 fundou a revista Grande Reportagem e foi também diretor da Revista Sábado. Ainda, passou pelas crónicas no jornal Púbico, A Bola, Revista Máxima, Expresso e no jornal online Diário Digital. Atualmente, está no ativo na Comunicação Social, com um comentário semanal no jornal da noite da TVI. Contudo, já referiu que se irá reformar este ano. Mesmo assim, pretende continuar a escrever. Já conta com livros de viagens, infantis, romances e de crónicas.

Uma das mais emblemáticas obras é Equador, o seu primeiro romance publicado em 2003, que já foi adaptado a uma série televisiva. O romance ilustra a sociedade portuguesa, nos últimos dias de monarquia, entre 1905-1908. A personagem principal é Luís Bernardo, que após escrever um artigo sobre a Questão Colonial foi convidado para Governador-Geral de São Tomé e Príncipe. Depois de assumir este cargo, o romance desenrola-se em São Tomé e Príncipe.

Diccionário da Linguagem das Flores, de António Lobo Antunes

Depois de estudar Psiquiatria, Lobo Antunes começou a sua viagem como escritor em 1979, com Memória de Elefante e Os cus de Judas. Entre as dezenas de obras, destaca-se Explicação dos Pássaros, A Morte de Carlos Gardel e o Manual dos Inquisidores, este último foi muito importante para o seu reconhecimento como autor. Lobo Antunes já foi vencedor de vários prémios, como Prémio Juan Ruff, em 2008, o Prémio de Camões em 2007, Prémio de Jerusalém em 2005 ou Prémio Europeu Literatura em 2001. Outra das melhores distinções foi pertencer à coleção La Pléiade, que pertence à editora Gallimard – até à data o único português mencionado era Fernando Pessoa.

No ano passado, publicou a sua mais recente obra, Diccionário da Linguagem das Flores, um romance focado em Júlio Fogaça, membro proeminente do PCP. O leitor é levado a interrogar-se sobre a verdadeira identidade portuguesa, há uma constante variação gráfica entre o português atual e do final do século XIX. Um dos temas mais recorrentes nas obras é o da memória e identidade portuguesa, como acontece na sua última publicação.

Regresso a Casa, de José Luís Peixoto

José Luís Peixoto foi o escritor mais jovem a ganhar o Prémio Literário José Saramago, apenas com 27 anos, em 2001. Ao longo dos anos conseguiu vários louvores, como o Prémio Cálamo, em 2007, de Espanha; em Itália, o Prémio Libro d’Europa em 2013; três anos depois, no Brasil, o Prémio de Literatura em Língua Portuguesa; e, em 2019, no Japão, o The Best Translation Award. Como é possível ver pelas variadas vitórias, tem livros publicados em 26 idiomas, entre romances, viagens, poesia e prosa. O escritor já escreveu para vários órgãos de comunicação: Jornal Letras, Revista Visão, GQ, Time Out e Notícias Magazine.

A escrita de José Luís Peixoto é reconhecida por uma constante interpretação do mundo e da descrição de momentos do seu quotidiano, conseguindo prender o leitor horas a fio às suas obras. O livro Regresso a Casa, publicado em agosto de 2020, tem um formato um pouco diferente do habitual. Passados 12 anos, durante a pandemia, o autor regressou ao mundo da poesia e escreveu uma obra que apresenta um sentimentalismo e intimidade sobre a sua dimensão pessoal. Aborda temas relacionados com a família, a literatura e o mundo. O livro está dividido em diferentes partes: Odisseia, Quarentena, Diário, uma secção dedicada para lugares que tem uma ligação, terminando com tradutores e bibliografia. Ao longo do livro é possível identificar sentimentos e emoções muito vividas durante o período de confinamento, como a saudade e a melancolia, permitindo conhecer um pouco melhor o autor.

Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral

Com apenas 15 anos, Afonso Cabral lançou o seu primeiro livro de poesia, Condeça. Em 2014 foi premiado pela LeYa, com o livro Meu Irmão, que retrata a vida do irmão com síndrome de Down. Conta com publicações em Espanha, Itália e Brasil. Em 2017, vence o prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessas. Dois anos depois, publica o livro Leva-me contigo, onde descreve uma viagem a pé pela Estrada Nacional 2.

Em 2019, triunfa no Prémio Literário José Saramago, com a obra Pão de Açúcar. Um romance, que advém de uma mistura entre factos e ficção, baseado no caso de Gilberta, sobre as últimas semanas de vida da transexual brasileira. Para a criação desta obra, Afonso fez uma longa investigação no Porto, visitando o local onde o corpo foi encontrado e com várias entrevistas. O narrador do romance é Rafa, um dos adolescentes que descobriu o corpo.

O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço

Intelectual, professor, ensaísta, crítico literário, filósofo e O grande pensador da cultura portuguesa, assim pode ser descrita uma parte da vida de Eduardo Lourenço. Um homem de esquerda, muito crítico, mencionava os livros como os seus filhos, de forma muito elaborada clarificava como era vivido, situado e desenvolvido Portugal e a sociedade. Elaborou também a filosofia, literatura, música, pintura, nas suas mais célebres obras, como: O Canto do Signo, Da Pintura, nas dezenas de Finisterra- Revista de Reflexão Crítica, Os Militares e o Podes, Tempo da Música, Música do Tempo.

O livro Labirinto da Saudade contém nove ensaios, uma parte deles já apresentados em revistas, jornais e conferências, alguns escritos durante a Revolução dos Cravos. A obra retrata a imagem de ser português, como somos como povo e ainda a posição de Portugal na Europa. É considerada uma das obras mais esplendentes da cultura portuguesa. De forma a conhecer um pouco mais a obra e o artista, Miguel Gonçalves Mendes produziu o documentário O Labirinto da Saudade, onde são apresentadas partes do livro, entrevistas e conversas. O principal objetivo do documentário passa por ser “uma viagem pelo labirinto de uma mente brilhante”. Eduardo Lourenço referiu que foi uma das melhores homenagens e obras em que teve oportunidade de participar.

Obra Poética, de Sophia de Mello Breyner Andresen

A criação em literatura começou na escrita de contos infantis para os filhos, depois começou a sua carreira passando por esse tipo de obras, pela literatura infantil, artigos, ensaios e teatro, e publicou mais de 50 livros. Sophia teve uma atitude política muito sublinhada e interventiva em relação ao regime salazarista – e como fundadora e membro da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. A escritora foi premiada várias vezes, através do Prémio Camões em 1999, no Prémio de Poesia Max Jacob em 2001. Foi a primeira escritora portuguesa a ser vencedora do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. Sophia de Mello Breyner faleceu em 2004. Em vida, já tinha recebido a Ordem Militar de Santiago da Espada e, quando celebrou o centenário, em 2019, foi-lhe concedido o Grau Colar da Ordem Miliar de Santiago da Espada.

Entre todas as obras, existe o livro Obra Poética, que conta com vários poemas publicados em revistas, livros, jornais, publicados entre os anos de 1940 e 2001. Também existem alguns poemas inéditos, que estão no espólio da autora na Biblioteca Nacional. A obra foi possível devido ao trabalho de Maria Andresen de Sousa Tavares e Carlos Mendes de Sousa, que assinam o prefácio e a nota de edição, respetivamente.

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