Revista Rua

2019-03-16T14:28:06+00:00 Opinião

2009 parece que foi ontem

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
16 Março, 2019
2009 parece que foi ontem

Tornou-se viral nos últimos tempos, pelos meandros da internet, um desafio chamado Ten years challenge que nada mais é do que postarmos fotografias de há dez anos e compará-la com os dias de hoje. Para mim, 2009 parece que foi ontem! Fazer este exercício de recuar no tempo é algo assustador se pensarmos que já lá vão dez anos e que passou tudo num ápice.

Ora, este desafio de comparação estética de nós mesmos, de vermos ao espelho quanto mudámos ou estamos diferentes, fez-me pensar em fazer um igual Ten years challenge sobre o que andava eu a ouvir há dez anos. Para compreender o que andava eu a ouvir há dez anos é preciso entender o contexto musical e as transformações que foram ocorrendo nos primeiros anos dos 00 até ao culminar da primeira década. Já tive oportunidade de o escrever num outro artigo que 2002-2005 foram anos marcados por uma enxurrada de bandas que apareceram com discos geniais e que moldaram aquilo que seria o rumo da música até aos dias de hoje. O Indie ressurgiu; o Indie transformou-se; o Indie fez-se intemporal.

De facto, é engraçado pensarmos quanto tempo leva um disco para se tornar num clássico e olhando para 2009 há discos que, para mim, já o são: clássicos modernos que não cairão no esquecimento; trabalhos que singraram quando saíram e que o tempo incumbiu de os fazer perdurar. Quem me conhece, sabe que tenho uma fixação paranóica de saber os anos de todos os discos e muitas vezes situo-me no tempo se fizer um exercício simples: “O que andava eu a ouvir na altura?” e voilá! Por isso, para fazer esta lista não fui consultar nenhum site para confirmar o ano de nenhum disco, nem fui à minha discografia ver o que por essa altura ouvia. Vou enumerar aquilo que de facto me recordo “de cor”, como se estivesse a olhar para uma fotografia, ainda que mental.

Enfim, dez anos é muito tempo, ainda que passe num piscar de olhos, e se recuarmos, compreendemos que os clássicos não demoram mais de dez anos a serem intemporais.

Em 2009 tinha começado um part-time na Fnac Guimarães enquanto concluía o meu Mestrado e houve um disco que me marcou quando entrei lá: o disco de estreia dos The XX. Hoje, uma banda de dimensão mundial e que já nem sigo lá muito, mas que apareceu com um dos melhores discos de estreia da História. Aquela eletrónica simples, fundida com floreados de rock algo naïve, com duas vozes que basicamente sussurravam ao cantar, entrou de rompante em tudo o que era rádio e imprensa especializada. Tudo ali fazia sentido e a intro do disco continua a ser, para mim, a melhor intro que alguma vez ouvi. São dois minutos de música, sem letra, mas que mesmo sem contar uma história, nos consegue tocar. De resto, se pensarmos que 90% dos discos abrem logo com um single de sucesso, este é um caso de estética sonora que roça a perfeição e que nos mostra que vale a pena contar uma história e olhar para um disco como um todo, em vez de despachar logo o tal single conhecido e o resto do trabalho ser quase secundário. Se eu ganhasse comissão por cada unidade que aconselhei e vendi…

Depois, recordo-me da confirmação absoluta dos Yeah Yeah Yeahs com o trabalho It’s Blitz, que roça a perfeição e que tem um tema que ainda hoje, dez anos depois, o passo sem me sentir cansado dele um único segundo: a “Heads Will Roll”. Por falar em confirmações, os Arctic Monkeys, super grupo prodígio britânico, reformularam a fórmula e juntaram-se a Josh Holmes de Queens of the Stone Age para fazer Humbug, um trabalho que os fez explorar novas coisas e evoluírem numa maturidade que não é estanque; nem mesmo nos dias de hoje. O belíssimo trabalho de Phoenix com Amadeus Wolfgang, o melhor trabalho do grupo francês e que ainda ouço no meu carro de fio a pavio. Este é de resto um dos tais “clássicos” que falava há pouco, sem dúvida.

Além das confirmações, houve algumas descobertas como Grizzly Bear com Veckatimest, Dirty Projectors com Bitte Orca, Manners de Passion Pit, I Had the Blues but I Shook Them Loose dos Bombay Bicycle Club, Lungs de Florence & the Machine, Two Dancers de Wild Beasts, entre outros que certamente me estão a falhar agora. Ah, e essa música tocada ao expoente máximo do aceitável que foi a “Sweet Disposition” dos Temper Trap.

Enfim, dez anos é muito tempo, ainda que passe num piscar de olhos, e se recuarmos, compreendemos que os clássicos não demoram mais de dez anos a serem intemporais.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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