Revista Rua

2020-07-08T17:51:51+00:00 Opinião

2020: Grandes regressos na música e a importância de regressarmos nós à Humanidade

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
8 Julho, 2020
2020: Grandes regressos na música e a importância de regressarmos nós à Humanidade

Passou-se junho e sem dar conta metade de 2020 já la vai. “Ainda bem!”, dirão alguns. 2020 tem sido um ano muito pouco generoso para a humanidade e junho ficou marcado por alguns episódios, um pouco por todo o mundo, de manifestações anti-racistas incitadas pelo episódio do homicídio de George Floyd, que trouxe consigo toda uma catadupa de manifestações e reações que, a juntar à atual pandemia, facilmente nos faz pensar que este foi um dos meses e um dos períodos mais negros de que temos memória.

Não sou sociólogo e nem pretende este texto debruçar-se sobre este vírus que é o racismo ou a intolerância no geral: seja racial ou de género. Numa altura em que somos forçados ao afastamento social – entre outros – deparamo-nos com alguns destes antigos nemesis, como o racismo, que nós próprios criámos e ainda não fomos capazes de ultrapassar. Não deixa de ser curioso que este afastamento – humanitário, de valores, de sensibilidades, de tolerância, entre outros – coincida com o igual afastamento que fomos forçados a ter com a cultura.

Já aqui escrevi que estarmos em contacto com a cultura é estarmos em contacto connosco. É combustível para a alma, é algo que nós, enquanto indivíduos inseridos numa sociedade moderna, precisamos; seja ver uma peça de teatro, ver um filme, assistir a um espetáculo musical, entre outros. Sempre nos distanciámos uns dos outros e quase sempre sem sentido. Agora, isto está ainda mais visível, pois o distanciamento físico a que hoje somos obrigados, é talvez o menos grave. Diria que há um quê de masoquista nesta atitude de autoflagelação que nos faz afastar, uns dos outros, por assumirmos preconceitos raciais, entre outros. Hoje, mais do que nunca, a cultura urge!

Além das coisas menos boas que junho trouxe, foi também o mês em que começámos a ver alguma “normalidade”: no regresso à nossa atividade laboral, ao desconfinamento, propriamente dito, e ao regresso, ainda que tímido, da atividade cultural. As casas de espetáculos começaram, um pouco por todo o país, a reabrir e a apresentar agendas culturais adaptadas às normas de segurança e higiene que este período exige. Aqui, há aquele sentimento agridoce. Por um lado, a alegria de podermos voltar a assistir a um espetáculo e, por outro, a estranheza, que todas as medidas de contingência trazem, à experiência de assistir a um espetáculo. É a realidade possível numa altura em que há mais incertezas do que certezas em relação ao futuro e ao que nos espera a segunda metade de 2020 e, a bem dizer, 2021.

E coisas boas em 2020? Além deste regresso ainda que tímido ao contacto com a cultura – e às nossas vidas – esta primeira metade de 2020 tem sido muito positiva a nível de lançamentos musicais. Numa altura em que temos de, com maior ou menor desconfinamento, ficar mais por casa, é quase uma dádiva termos discos novos tão bons a sair cá para fora para nos fazer companhia. Assim sendo, proponho fazer aqui uma shortlist dos 15 discos que mais me surpreenderam nesta primeira metade de 2020:

.Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters;

.Bod Dylan – Rough and Rowdy Ways;

.Destroyer – Have We Met;

.Tame Impala – The Slow Rush;

.Jessie Ware – What’s Your Pleasure?;

.Caribou – Suddenly;

.Yves Tumor – Heaven to a Tortured Mind;

.Haim – Women in Music Pt. III;

.Lianne La Havas – Lianne La Havas;

.Run the Jewells – RTJ4;

.Tom Mich/ Yussef Dayes – What Kinda Music;

.Thundercat – It Is What It Is;

.Nicolás Jaar – Cenizas;

.Jay Electronica – A Written Testimony;

.Real Estate – The Main Thing.

Confesso que deixei outros tantos de fora que também me deixaram muito surpreendido, mas esta primeira metade de 2020, apesar de toda esta estranha realidade que vivemos, a nível musical tem sido extremamente positiva e não deixa de ser de assinalar tantos discos incríveis de artistas femininos a serem editados. Que venha esta segunda metade de 2020 e que nos reencontremos: connosco e com a cultura!

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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