Revista Rua

2020-10-27T14:50:49+00:00 Opinião

2020: o ano da nostalgia

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
27 Outubro, 2020
2020: o ano da nostalgia

O ano de 2020 tornou-se numa massa amórfica em que perdemos a conta aos ingredientes que lá estão dentro. À partida parece uma panela cheia de tudo o que encontramos na dispensa, mas quando olhamos mais de perto é algo muito pobre. Acho que sobretudo há um excesso de nostalgia. Mas também creio que é muito simples de explicar o porquê disso – em 2020, depois de um vírus que inicialmente parecia inofensivo, uma pandemia despoletou. Ora devido às dimensões que algo assim trouxe, o espaço para a novidade tornou-se muito reduzido.

Pouca coisa de positivo saiu desta situação desastrosa e uma das principais cissões foi precisamente com o “novo”. A socialização tornou-se numa contagem estratégica de pessoas à volta de uma mesa, enquanto as caras ficam escondidas por detrás da máscara e as expressões “sem rosto” – o “novo” deixou de aparecer, porque simultaneamente retirou-se o espaço para isso.

A novidade passa de dia para dia com a contagem do número de óbitos, do número de infetados, de surtos, de celebridades e atletas infetados, de políticas económicas para sustentar os lesados, a melhor máscara, o distanciamento social, as novas regras, leis, maneiras, etc., enfim, toda uma panóplia de novidades esféricas que partilham como centro o mesmo tema – a pandemia.

A cissão social – a não possibilidade de tanta comunicação com estranhos, ou amigos mais afastados (e até próximos), e de alguns membros da família – levou a que cada um de nós se “fechasse” numa bolha onde a novidade é uma constante repetição. Ora se nada se conversa, se escassa os tema de socialização nos poucos cafés que nos restam, só há então espaço para uns quantos temas de algibeira – onde esses mesmos temas também partilham um mesmo centro da esfera, a nostalgia.

Quando nos sentamos à volta de uma mesa de esplanada, com quatro cadeiras e três amigos, com os quais não conversávamos pessoalmente há mais de quatro semanas ou um par de meses, o tema que salta logo da boca para fora é o “lembras-te de…”. Depois durante duas ou três horas, em torno das borras de café arrefecidas e umas quantas beatas no cinzeiro, relembramos histórias e mais histórias (com uns quantos pontos acrescentados pelo meio, para a tal ilusão e variantes) para se matar esta ânsia de novidade – como se o rememorar fosse então a novidade.

É em momentos como este que nos apercebemos da importância da cultura – que nos traz o “novo”, ou nos dá a pensar o “mesmo” de uma maneira “nova”. No caso da poesia, onde o mesmo poema pode ser lido vezes sem conta de maneiras diferentes. Ou livros epistolográficos que nos transferem para outros modos de “falar” ou de “ver”. Livros de memórias, que ainda que sejam nostálgicos, não é uma nostalgia pessoal como a que acontece na conversa de café. São antes memórias alheias que nos transportam para outros sítios, outros ambientes, outras situações. Filmes, músicas, séries, enfim, tantas opções que nos empregam o “novo” na vida, evitando assim o sufoco da nostalgia ou a repetição quotidiana que mais cedo ou mais tarde enterrará todos numa depressão.

O que precisamos é de predisposição para a cultura – da vontade para nos sentarmos a ler um livro, por exemplo. Um livro fora da nossa zona de conforto. Um ensaio filosófico, um romance do século XVIII, um novo poeta que surgiu nas margens de alguma aldeia com uma edição de autor… etc., tem de haver vontade em primeiro lugar, porque rapidamente a vontade de rememorar as mesmas histórias com as mesmas pessoas será enfraquecida, e depois o que nos resta?

Estamos há sensivelmente oito meses nesta situação pandémica, e se por ventura se prolongar até dois, três ou quatro anos? Teremos de construir o “novo” de maneiras diferentes, mas para que possa acontecer a construção do que quer que seja é primeiro preciso saber como construir.

A repetição ou a nostalgia não nos vão levar a lado nenhum senão à mesma mesa de café a cada duas semanas até que se esgotem as histórias ou ficarmos amnésicos.

Quando nos sentamos à volta de uma mesa de esplanada, com quatro cadeiras e três amigos, com os quais não conversávamos pessoalmente há mais de quatro semanas ou um par de meses, o tema que salta logo da boca para fora é o “lembras-te de…”. Depois durante duas ou três horas, em torno das borras de café arrefecidas e umas quantas beatas no cinzeiro, relembramos histórias e mais histórias (com uns quantos pontos acrescentados pelo meio, para a tal ilusão e variantes) para se matar esta ânsia de novidade – como se o rememorar fosse então a novidade.

É em momentos como este que nos apercebemos da importância da cultura – que nos traz o “novo”, ou nos dá a pensar o “mesmo” de uma maneira “nova”. No caso da poesia, onde o mesmo poema pode ser lido vezes sem conta de maneiras diferentes. Ou livros epistolográficos que nos transferem para outros modos de “falar” ou de “ver”. Livros de memórias, que ainda que sejam nostálgicos, não é uma nostalgia pessoal como a que acontece na conversa de café. São antes memórias alheias que nos transportam para outros sítios, outros ambientes, outras situações. Filmes, músicas, séries, enfim, tantas opções que nos empregam o “novo” na vida, evitando assim o sufoco da nostalgia ou a repetição quotidiana que mais cedo ou mais tarde enterrará todos numa depressão.

O que precisamos é de predisposição para a cultura – da vontade para nos sentarmos a ler um livro, por exemplo. Um livro fora da nossa zona de conforto. Um ensaio filosófico, um romance do século XVIII, um novo poeta que surgiu nas margens de alguma aldeia com uma edição de autor… etc., tem de haver vontade em primeiro lugar, porque rapidamente a vontade de rememorar as mesmas histórias com as mesmas pessoas será enfraquecida, e depois o que nos resta?

Estamos há sensivelmente oito meses nesta situação pandémica, e se por ventura se prolongar até dois, três ou quatro anos? Teremos de construir o “novo” de maneiras diferentes, mas para que possa acontecer a construção do que quer que seja é primeiro preciso saber como construir.

A repetição ou a nostalgia não nos vão levar a lado nenhum senão à mesma mesa de café a cada duas semanas até que se esgotem as histórias ou ficarmos amnésicos.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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