Revista Rua

2021-11-09T12:18:08+00:00 Opinião

30 anos de 1991

Música
José Manuel Gomes
9 Novembro, 2021
30 anos de 1991

Neste ano muito ouvimos falar (e bem!) sobre os 30 anos de Nevermind dos Nirvana. Foi um disco que mudou e pautou toda uma geração e influenciou tantas outras. Aliás, continua a influenciar, a cada passo, todos os que descobrem a discografia da banda de Seattle, mesmo que esta já não exista. Este não foi o único lançamento digno de menção honrosa pelas três décadas de existência; bem pelo contrário, 1991 foi uma espécie de shangri-la da música, com múltiplos lançamentos a definirem este como um dos melhores anos de sempre.

Voltemos ao caso de Nevermind. Este terá sido, no meu entender, um dos discos mais improváveis de sempre. Além do sucesso comercial, foi o porta-estandarte de todo um movimento, o grunge, que entrou de rompante nos inícios dos anos 90. Nas rádios, na MTV, nas discotecas, onde quer que fosse, tudo era flanela e calças rasgadas. Se pensarmos que a década de 80 foi a década da synthpop e da descoberta da eletrónica na cultura pop, o grunge assumiu-se, verdadeiramente, como uma contracorrente; largaram-se os teclados, os ritmos dançáveis, as canções lamechas de amor e abraçaram-se as guitarras com distorção, o baixo e a bateria. Passou-se da ultra-produção para o fundamentals da música. Tudo era mais sujo, negro e depressivo. Foi a resposta de uma geração ao que, na altura, já era visto como “foleiro” na década de 80.

Ora, este ano, um pouco por todo o lado, foi relembrada esta marca dos 30 anos de Nevermind, que provavelmente terá sido o disco mais marcante de toda a década de 90 e do final do século XX. Há alguns anos que, por este ou aquele motivo, ou até mesmo sem grande explicação plausível acabam por ser anos fortíssimos, com um conjunto de lançamentos musicais muito fortes e 1991 foi um ano desses. Consequentemente, há um número considerável de discos que, neste ano de 2021, completaram 30 anos. De facto, em 1991 houve uma catadupa de discos marcantes, que ainda hoje perduram como os melhores discos das discografias das respetivas bandas. Vamos a uma listinha?

Massive Attack – Blue Lines;

Temple of the Dog – Temple of the Dog;

Metallica – Metallica (Black Album);

Blur – Leisure;

Pearl Jam – Ten;

Guns N’ Roses – Use Your Illusion (I&II);

Primal Scream – Screamadelica;

Pixies – Tromp Le Monde;

Nirvana – Nevermind;

Soundgarden – Badmotorfinger;

Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik;

A Tribe Called Quest – The Low End Theory;

Prince – Diamonds & Pearls;

My Bloody Valentine – Loveless;

U2 – Achtung Baby;

Michael Jackson – Dangerous;

R.E.M. – Out of Time;

Dinosaur Jr. – Green Mind.

São praticamente 20 trabalhos discográficos que surgem nesta lista que menciono, sem ter feito pesquisa, onde há Rock, Grunge, Eletrónica, Pop e Hip-Hop. Haverá mais, certamente, mas serve para fazer esta retrospetiva sobre este ano quase messiânico que foi 1991. O tempo já não volta para trás, mas é sempre útil fazermos uma comparação com a forma como, hoje, consumimos música. Tudo contrasta com a forma como, acima de tudo, vivíamos a música. Um single durava em airplay diário 4/5 meses e, consequentemente, os discos conseguiam viver durante 3/4 anos sem problemas. Hoje, tudo é efémero. Acedemos ao nosso Spotify, ouvimos 300 vezes a mesma música durante uns 5 dias e encostamos. O consumo mudou, a forma como vivemos mudou, a maneira como acedemos à informação mudou.

Muitas vezes perguntam-me por que motivo já não há referências como havia nas décadas de 70, 80 e 90. A questão é que há, apenas não conseguem estar tão destacadas e viver naquele auge muito mais do que um par de anos. Acima de tudo, porque a novidade vem já amanhã e com ela mais 30 ou 40 projetos que, agora, se conseguem promover com a distância de meia dúzia de clicks. Não me interpretem mal, a globalização, o acesso à informação em rede, nesta coisa chamada internet, e as novas plataformas, tudo isso é absolutamente imprescindível. Porém, ao mesmo tempo que nos globalizámos e começámos a beber da mesma fonte (nessa rede infinita chamada internet), perdemos a magia da descoberta e da forma como valorizávamos, por exemplo, quando tínhamos de esperar que certa música passasse na rádio para a ouvir ou gravar.

Já ninguém faz coletâneas em cassete, de músicas que passavam na rádio, e onde estávamos com o dedo indicador pronto a carregar nesse gatilho que era o botão REC. Saudosismos à parte, a experiência da descoberta mudou e isso dita muita coisa.

Se há 30 anos lutávamos para ouvir o que queríamos, hoje fazemos um esforço para filtrar o que não queremos.

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