Revista Rua

2021-05-17T14:40:44+01:00 Opinião

Tripé de livros

Literatura
André Marques
17 Maio, 2021
Tripé de livros

Em análise: Na Memória dos Rouxinóis, de Filipa Martins

O rouxinol – canto harmonioso, vibrante, ameno, variado e recriado. A alma é uma voz liberta. Filipa Martins escreve para nós, como quem canta histórias em casas com janelas abertas para o mundo.

Por destinos certeiros e títulos manifestos – Prémio Revelação em 2004, na categoria de Ficção, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), com o seu primeiro romance “Elogio do Passeio Público”. Escoltou ainda o Prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias com o conto “Esteira”, a que se seguiram as obras “Quanta Terra” e “Mustang Branco”, pela ordem respetiva –, a autora nascida na década a seguir ao 25 de Abril de 1974, traz a lume “Na Memória dos Rouxinóis”, registo vencedor do Prémio Literário Manuel de Boaventura 2019. A obra número 4 de uma atividade literária no topo de um astro.

A história circunda em volta de um matemático galego que encomendou a sua biografia antes de morrer. Jorge Rousinol – o matemático – toma por defesa o esquecimento como o melhor caminho para a tomada de decisões acertadas.

“JORGE ROUSINOL NEM SEMPRE FOI JORGE ROUSINOL. Até 5 de Agosto de 1945, era o Sete, um número primo.

Jorge foi o sexto neto a nascer e o avô Rousinol, matemático galego próximo de Franco, apenas decorou os nomes dos primeiros cinco. Quando Jorge nasceu, desperto e sem chorar, fitou o avô com os seus olhos cinzento-espelho, que, até aos dias de hoje, pareciam as águas de duas bacias que devolvem ao mundo o que o mundo lhes dá, mas num tom mais sombrio – ou, como Jorge dirá, mais realista.” – Filipa Martins, in “Na Memória dos Rouxinóis”

O biógrafo selecionado acaba por ser alguém com quem privara décadas antes, numa confluência de memórias agonizantes. Com uma escrita inesperada e personagens que merecem a real consideração, trata-se de um romance em três tempos; o do passado do biografado, o do passado do biógrafo – e o do presente, que os liga. O arrependimento a servir de ponte às recordações. Caraterísticas que culminam em diálogos bem estruturados, exímios. Com um final absolutamente surpreendente.

“A verdade é que não sou uma pessoa dada a tristezas profundas. Muitas vezes miserável, mas nunca triste; portanto, mais digno de pena. A tristeza tende a inspirar respeito, nunca piedade.” – Filipa Martins, in “Na Memória dos Rouxinóis”

A arte de formar letras de Filipa Martins funciona como um quadro completamente despido de preconceitos. Com cores fortes e entusiastas. Com uma abordagem humana fora do comum, de uma maturidade precisa, concernente a uma contadora de vidas que domina por completo o processo criativo e narrativo. O que vai e o que fica “Na Memória dos Rouxinóis”. Um livro prosa quase poesia.

Os livros são olhos que viajam. Um conceito inerente à obra de Filipa Martins.

Sobre o autor:

André Filipe Nunes Marques nasceu a Vinte e Sete de Fevereiro de Mil Novecentos e Oitenta e Seis, na modesta cidade de Santiago do Cacém, situada em absoluto litoral alentejano. Considera-se um caçador de sonhos. Atualmente reside na localidade de Pinhal Novo, concelho de Palmela, local que o mantém, mesmo longe, ligado ao quente Alentejo que o viu despoletar para o mundo. É também autor da página Livros em roda pé.

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