Revista Rua

2020-01-18T19:30:43+00:00 Opinião

75 anos de uma lição mal estudada

Política/Sociedade
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
18 Janeiro, 2020
75 anos de uma lição mal estudada

A Segunda Guerra Mundial foi um dos maiores acontecimentos da História da humanidade. Este foi, indubitavelmente, o conflito bélico entre nações mais complexo de todos os tempos.

Mais de cem milhões de militares foram mobilizados para uma guerra onde brotou um novo conceito de tragédia: bombardeamentos incessantes, deportações, extermínio, massacre de população civil, recurso ao armamento nuclear e, não obstante a inexistência de um número oficial, certo é que se contabilizam mais de 60 milhões de mortos.

Mas para além de todas as circunstâncias ligadas directamente ao conflito, a Segunda Guerra Mundial é um elo de ligação cronológico e imprescindível para a compreensão de dois marcantes períodos históricos: foi a prova da falência da paz entre as nações, onde o sonho do Presidente americano Woodrow Wilson e da Sociedade das Nações desaguou, no pós-Primeira Guerra Mundial; e motivou a Guerra Fria, com a consequente queda dos regimes comunistas, bem como a supremacia americana e o acentuado progresso de países como a China.

Por ter sido o conflito mais longo e destrutivo da História, modificou grande parte dos padrões da humanidade: uma nova concepção de valores sociais, de limites da violência, de direitos humanos.

Em suma, trouxe uma nova visão do mundo.

Porém, um histórico de altos e baixos, de mudanças e transformações a alta velocidade têm definido a complexidade da História mundial. O impacto combinado das mais recentes crises alerta-nos para o facto de a paz e o equilíbrio não serem dados adquiridos. Um mundo que vive constantemente sob o nimbo da instabilidade, desde o conflito na Síria à tensão entre Estados Unidos da América e Irão, deve impelir-nos a uma ponderada reflexão.

No surgimento de uma guerra, há um conjunto de erros que constituem parte da sua causa, que por sua vez se repetem e fazem a História repetir-se. E assim, torna-se imperioso entendermos que as actuais sociedades devem muito mais à Segunda Guerra Mundial do que a qualquer outro acontecimento recente, pois não seriam as mesmas se não a tivessem vivido.

E esta é uma lição mal estudada. 75 anos depois, o mais mortífero conflito de sempre é já esquecido por muitos e deixado para segundo plano em programas escolares que insistem em fazer da História uma ciência estática, em reduzir os seus tempos lectivos e campear a ignorância da crucial importância de acontecimentos passados.

Como conhecemos o final desta tragédia, é difícil não nos interrogarmos porque os intervenientes não viram claramente como nós vemos, em retrospectiva, que as suas acções levariam o mundo a mergulhar num abismo de sofrimento e devastação. Mas devemos ter presente que a guerra faz inelutavelmente parte da História do ser humano. E nunca devemos esquecer que, depois de o mundo assistir à maior chacina de sempre na Primeira Guerra Mundial, acabou por conhecer um conflito ainda pior.

Destarte, nada melhor do que conhecermos a História, os erros do passado e os sinuosos caminhos que se percorreram até desembarcarmos no mais negro período da humanidade, para enfrentarmos a húbris de um mundo que nos coloca desafios intermináveis. Porque “A História repete-se sempre, pelo menos duas vezes”, disse Hegel. Karl Marx acrescentou: “A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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