Revista Rua

2019-01-28T11:16:03+00:00 Opinião

A Bailarina de Auschwitz

Literatura
Carolina Nelas
Carolina Nelas
28 Janeiro, 2019
A Bailarina de Auschwitz

Sabendo que iria ter uma perceção diferente de todos os testemunhos que lesse ou ouvisse depois da minha viagem à Polónia, precisei de algum tempo para me predispor a enfrentar novamente o tema do Holocausto – tive que esperar alguns meses antes de voltar a pegar em livros relacionados com a II Guerra Mundial. Visitar os campos de concentração foi um murro no estômago e, para ser sincera, não sabia ao certo como iria lidar com essa parte da História depois da viagem. A Bailarina de Auschwitz pôs-me à prova.

Confesso que esperava um relato mais longo sobre o tempo passado nos campos da morte, pois os livros do género focam-se essencialmente nessa experiência traumática, mas a verdade é que A Bailarina de Auschwitz é mais do que um testemunho do Holocausto. Edith Eger tornou-se psicóloga depois de sobreviver às filas de seleção e usa tudo o que aprendeu enquanto prisioneira para ajudar outras pessoas. Ao longo do livro, a autora vai partilhando casos de pacientes que ajudou e explica não só como superou o seu próprio trauma, mas também como as fases negativas da sua vida (em diferentes escalas) a ajudaram a aceitar-se e a ser uma pessoa positiva, apaixonada pela vida, com uma mente forte e delicada em simultâneo.

Admito que me senti um bocado otária enquanto lia a história de Edith. Tinha à minha frente o testemunho de uma pessoa extraordinária que sobreviveu aos campos de concentração, que viu o pior lado da Humanidade e da História e que mesmo assim observa tudo com um positivismo surpreendente e uma vontade de viver absolutamente destemida e carismática. Mesmo sabendo que as dores não se comparam, senti-me uma parva por passar tantos dias e tantas noites a chorar sem saber ao certo porquê. Afinal, como pode uma pessoa em pleno campo de concentração ter uma vontade enorme de viver e eu, que estou segura e que tenho uma vida tranquila, ter tantas vezes o desejo de desaparecer? É absurdo – e talvez tenha sido um livro tão marcante precisamente pelas reflexões mais profundas sobre a minha própria sorte, adicionadas ao que vi durante a minha viagem.

Também achei que, em alguns momentos, o distanciamento necessário para escrever o livro levaram Edith a romantizar a sua atitude pós-guerra, mas não posso deixar de aplaudir a sua capacidade intelectual, a sua perseverança, a sua determinação, a sua força. Edith é, sem dúvida alguma, um exemplo enquanto ser humano, enquanto mulher, enquanto profissional. E é também a prova de que nós somos aquilo que a nossa mente deixa que nós sejamos (mente essa que nós próprios controlamos).

Este é um livro que devem ler com alguma maturidade e espaço para introspeção. Recomendo sobretudo a quem está numa fase mais difícil da vida (a lutar contra uma depressão, um distúrbio alimentar, um período mais ansioso ou instável…). A Bailarina de Auschwitz é uma mensagem de superação e um verdadeiro abre-olhos.

Sobre autor
Carolina Nelas é a autora do blog Thirteen.
As suas aventuras podem ser acompanhadas em Instagram.com/carolinanelas

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