Revista Rua

2020-01-24T18:53:42+00:00 Opinião

A boa companhia de tudo

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
24 Janeiro, 2020
A boa companhia de tudo

Nestes meses o tempo não corre da mesma forma, lá fora as árvores duram só umas horas e depois sombras, o restolhar das folhas, os carros na chuva, os sem-abrigo a discutir na entrada do prédio e depois silêncio. No caminho de fim da tarde o que vai valendo é a sobra de sol que desenha os contornos da Câmara e dos Clérigos. Ando às voltas com um texto que parece não querer colaborar ou eu é que não colaboro como ele pretendia. Ao voltar para casa já não há nem Câmara nem Clérigos, só lampiões e luzes ansiosas nas montras das lojas. Por três noites seguidas, no café onde costumo ir depois do jantar, estava a tocar o mesmo disco, nem sei bem para que é que isso importa. Um rapaz na mesa do lado levanta-se e, em pezinhos de lã, tenta convidar uma rapariga inglesa para um café, numa timidez de pecador arrependido. Nisto lembro-me do que o meu avô dizia acerca da timidez

(e de variadíssimas coisas)

– Não é lá grande espingarda

e não é lá grande espingarda, de facto não é. A inglesa levantou-se, pagou e saiu com as amigas e o rapaz, cabisbaixo, voltou para a mesa e outro comparsa espalha-lhe a mão no ombro e sorri. Vem-me de novo o texto à memória e acompanha-me até casa. Pouquíssimas decorações de natal nas ruas, ninguém, ninguém, dois rostos encasacados a subir Santa Catarina, dois miúdos num degrau de porta a espiar a rua. Saudades do meu avô. Saudades do passado que é tão presente e Deus queira que nunca perca o meu passado. Saudades de algumas coisas mais, mas para que é que isso importa. O texto fica sentado na cadeira junto à secretária, a fermentar, e julga-me enquanto durmo por não lhe dar atenção. Uma boa noite a todos que o tempo voltará a correr amanhã de manhã.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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