Revista Rua

2020-02-24T17:32:41+00:00 Opinião

A brevidade social nos comentários

Sociedade
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
24 Fevereiro, 2020
A brevidade social nos comentários

A propagação da indignação nas redes sociais tem sido uma boa “arma” na maioria dos casos. Como recentemente se observou face ao que aconteceu no jogo Vitória – Porto. Em minutos o twitter incinerou-se. No entanto, um dos problemas a apontar nas redes sociais e partilha de notícias na mesma é a sua brevidade e datação curta.

Há um excesso de informação a acontecer a cada minuto que passa e isso leva a que, num minuto nos foquemos nesta ocorrência, no minuto a seguir noutra. O que é uma pena porque poderíamos tirar proveito das mesmas para avançar nalgumas questões sociais.

Pessoalmente tendo a evitar confrontos em caixas de comentários. Apesar de ler barbaridades que me revoltam imenso, chego à conclusão que discutir desta maneira teria ainda menos impacto que um “referendo de café”. Isto é, juntamos uma roda de amigos, discutimos dois ou três temas, e o exemplo mais clássico disto é o do “fora de jogo” do jogo de futebol.

Depois de uma discussão acesa com tons de voz elevados chegamos à ideia de que ninguém mudará de ideias. Se por ventura um bem-aventurado decidir mudar de opinião, não se alterará muito face ao lance que realmente aconteceu no outro lado do ecrã. Pagámos os cafés, ou as cervejas, vamos para casa e dali a meia dúzia de horas não pensamos mais nisso.

As caixas de comentários têm essa mesma finalidade: discute-se, ninguém muda de opinião e o resultado é o mesmo. Contudo, na onda de indignação em massa há uma alteração no contexto social de determinada ação.

Quando um grupo enorme de pessoas levanta o “problema em questão” e o põe em “cima da mesa” dá-lhe uma certa mediatização, que vai desde jornais, até cronistas amadores e depois de renome e por fim televisões, tornando público um caso, deslocando a situação a um rumo – se tudo correr bem o problema em causa cairá nas mãos das entidades corretas para se debruçarem sobre o assunto.

O que causa um retrocesso neste processo todo é a perda de unificação numa ação enquanto se está a debater “em mesa de café” nas redes sociais, tornando o debate dualista e fechado: somente entre o “eu tenho razão e tu não”.

Isto retira impacto ao levantamento de algumas questões sociais e dada à rapidez e ao “amorfismo” das correntes de notícias, o tema cai no esquecimento e é levado a cabo por outro mais recente.

No fundo, o que aqui acontece, na minha opinião, é um aproveitamento fraco das redes sociais quando se perde tempo em pequenos debates esquecendo o impacto da partilha e da união das massas face a um determinado problema social. Por exemplo, aproveitemos o caso do jogo de futebol e da atitude do Marega para relembrar o racismo ainda existente, para levantar outros casos que ficaram impunes no passado do futebol, e noutros locais, para compreender melhor como é que a justiça portuguesa age numa situação destas e para lutar por uma sociedade melhor. Isto sempre evitando disputas entre tweets ou comentários no Facebook, que a nada mais levam que ao retorno do mesmo.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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