Revista Rua

2019-12-02T16:25:26+00:00 Cultura, Teatro

A Casa de Bernarda Alba

Um mundo de Mulheres num espaço de Medo
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva2 Dezembro, 2019
A Casa de Bernarda Alba
Um mundo de Mulheres num espaço de Medo

Exatamente 30 dias antes do seu assassinato, Federico García Lorca terminava de escrever A Casa de Bernarda Alba, última peça de uma trilogia de Drama iniciada com Bodas de Sangue e Yerma.

Neste texto, García Lorca explora a vida de várias mulheres, num contexto rural e moralista, onde a matriarca Bernarda Alba assume com mão de ferro o controlo da sua casa e as vidas das suas filhas após a morte do seu segundo marido, um homem poderoso, mas não querido pela população. Embora sendo um retrato social da época (década de 30) e tendo sido inspirado nas memórias de Lorca durante a sua infância na Andaluzia, no início do século XX, não deixa de ser um texto que ainda reflete o papel da mulher na sociedade dos dias de hoje, colocada muitas vezes num patamar inferior, remetida à sua função de boa dona de casa, recatada.

Se há algo que também se destaca nesta peça são as suas personagens. Embora Bernarda Alba seja dominadora, representando o Medo/ Temor, a mulher que coloca as cinco filhas num luto de oito anos, tendo de ficar trancadas em casa durante esse tempo, – magistralmente protagonizada por Filomena Gonçalves -, não deixa de ser também verdade que todo o enredo está preso a estas personagens, todas elas protagonistas.

Talvez seja também a personagem (filha) Adela que mais destaque toma, devido ao rumo da sua história pessoal ao longo da trama. A filha mais nova e sonhadora, apaixonada e livre, que se vê repentinamente presa a um mundo de regras e limites de quatro paredes, numa interpretação brilhante de Diana Marquês Guerra. Como se poderá imaginar, será Adela quem mais irá sofrer, quando se apaixona por um homem que já estava prometido à sua meia-irmã mais velha, Angústias, tendo em conta o regime ditatorial imposto pela mãe. Como se poderá perceber, será sobre Adela que o destino trágico se irá abater, destino esse que já era previsto por Poncia, empregada e confidente de Bernarda.

Por outro lado, o texto remete para o moralismo religioso perigoso e excessivo (uma crítica feroz ao regime de Franco), principalmente nas expressões e atitudes tomadas por algumas das protagonistas, desde a forma de uma mulher se comportar numa igreja até à forma de se vestir e apresentar em público, atingindo o limite quando os homens são vistos como um elemento nocivo, cujos instintos primários são desculpados por fazerem parte da sua natureza, enquanto os desejos femininos são criminalizados.

Numa altura em que a igualdade de género e os números de violência doméstica permanecem como temas fortes e impossíveis de esquecer – e não se devem esquecer -, a Casa de Bernarda Alba, em cena no Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, com encenação de Celso Cleto, parece ser essencial para se perceber e reconhecer que ainda somos muitos os que pensamos da mesma forma, numa recriminação sem fim ao papel da Mulher.

Com Filomena Gonçalves, Estrela Novais, Isabel Leitão, Ana Catarina Afonso, Catarina Mago, Diana Marquês Guerra, Helena Afonso, Rita Cleto e Sara Gonçalves.

Em cena até 22 de dezembro.

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