Revista Rua

2020-04-03T19:45:17+00:00 Opinião

A César o que é de César

Sociedade
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
3 Abril, 2020
A César o que é de César

Longos dias que nos têm assolado. Toda uma atmosfera se metamorfoseou, brindando-nos com uma névoa de incertezas, inseguranças e temor.

Todavia, tal como já tive oportunidade de apontar neste espaço, não devemos cair no campo da lamúria e do conformismo. Ainda que este tempo seja, em alguns aspectos, comparável aos anos mais difíceis do século passado, temos por certo que – pelo menos neste momento – contamos com a segurança dos nossos lares. É verdade que o vírus pode entrar. Mas não um projéctil explosivo. Como disse, pelo menos de momento.

Posto isto, saliento parte da hodierna discussão em torno da actual pandemia: a Saúde e a Economia. Inelutavelmente, são dois alicerces da nossa vida. Um país com uma economia débil nunca estará apto a proporcionar boas condições de vida aos seus cidadãos. Mas como poderá um cidadão com uma saúde irreversivelmente débil beneficiar adequadamente das prósperas condições económicas do seu país?

Não relevo a questão na procura de uma resposta que vinca a escolha de um plano em detrimento de outro. Seria impensável. Mas há um momento que não pode ser diferido: é hoje que a Saúde tem de ser privilegiada. Todos os esforços, com naturais consequências económicas futuras, devem – e só podem – ser envidados agora. Uma manifestação de que o direito à vida é o mais fundamental de todos os direitos.

Contudo, ainda que cimentada a relevância do momento, não restam dúvidas sobre a urgência em tomar medidas adequadas a mitigar as consequências já inevitáveis. Esta é uma crise que brota idiossincrasia do próprio vírus: não escolhe idades, sexos, raças, crenças ou orientações políticas. Se é um dado adquirido que a pandemia traz a milhares pessoas o seu terminus, certo é também que milhões de outras vão sofrer incomensuravelmente às mãos de uma recessão anunciada.

Destarte, a César o que é de César. Temos um conjunto de profissionais da área da saúde que combatem incessantemente um inimigo mortífero. São a infantaria na linha da frente. Mas nenhuma infantaria vence uma guerra sem apoio. Cada um de nós tem uma missão cujo (in)cumprimento poderá ditar o resultado. E é hora de os responsáveis políticos darem também uma resposta, no sentido de cumprirem a obrigação-mor para a qual são eleitos: a salvaguarda do Estado e do povo.

Os Estados têm a responsabilidade de mobilizar os seus orçamentos para proteger os cidadãos e a economia contra as circunstâncias produzidas pelo momento. Todos os cidadãos devem contar com o mínimo exigível à sua sobrevivência. Para isso, uma luta feroz terá de ser travada para as pessoas – pelo menos em larga maioria – não perderem o emprego. Mas a proteção do emprego e da capacidade produtiva requer, necessariamente, um apoio imediato às empresas. Felizmente, vários governos introduziram já medidas para canalizar liquidez para as empresas. Mas o caminho é longo e há muito a fazer.

Em modesto entendimento, uma análise perfunctória da classe política é hábil a concluirmos que, actualmente, o governo das nações está completamente desligado do plano meritocrático. Hoje, um partido político absorve adeptos como se de um clube de futebol se tratasse. Hoje, um acervo considerável de pessoas nunca testado exerce cargos políticos de responsabilidade. Hoje, a política experimenta intervenientes que nunca escalaram os degraus da competência.

Onde está a Arte de regular as relações inter ou intraestaduais quando esta é exercida por alguém que nunca leu uma mão cheia de livros de relevo para a mesma? Acreditem, os exemplos são tão numerosos quanto silenciosos.

Confesso que talvez o coração me dê um maior alento do que a razão. Quero acreditar que a força do ser humano mantém a mesma índole, aquela propensão natural que nos fez ultrapassar os mais nefastos capítulos da História.

Esta é uma oportunidade para a classe política demonstrar, definitivamente, que conta ainda com alguns homens e mulheres capazes de enfrentar as mais severas dificuldades, evitando um mergulho num mar distópico. Respondam ao chamamento. A César o que é de César.

Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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