
A Corte das Mulheres, de André Canhoto Costa, é uma das novidades da temporada
Rompendo com os padrões medievais, houve uma época na Corte Portuguesa onde as mulheres tomavam rédeas à sua educação. André Canhoto e Costa procura sua história.
De forma irónica, aos dias de hoje, algo parece permanecer uma continuidade. Não existe nada de mais perigoso do que aqueles que têm acesso à educação e à cultura. Com exceção daqueles que a têm, mas não a querem usar.
A Corte das Mulheres é um daqueles livros, de não ficção, que podem ser abertos em qualquer capítulo. Até mesmo em qualquer página.
A descrição histórica das várias mulheres, de origem nobre e monárquica, às aristocratas (num intervalo temporal no qual a burguesia ainda não tinha expressão), é de leitura clara e transparente. Tanto como era a visão que os homens, à época, tinham destas mesmas mulheres – enquanto que alguns, mais abertos aos “novos mundos”, preconizavam uma ideia de modernismo medieval, levando as próprias esposas, irmãs, a trabalharem a literacia, a sua educação, e conhecimento, a maioria, assentava na premissa (crescente com o surgimento da Santa Inquisição) e questão “Que lugar havia para mulheres habituadas a ler, escrever, dançar e conversar sobre política?”. “Chegadas à idade fértil, as mulheres deviam transformar-se em produtoras de guerreiros domesticados – o mais utópico tipo humano jamais criado no Ocidente”, pode-se ler também.
E, tal como nos dias de hoje, o papel da Maternidade era sempre colocado como primordial, não deixando nunca de acarretar riscos (não esquecer que hoje a vida de uma menina adolescente vale menos do que um feto, de acordo com algumas pessoas “iluminadas”): “uma parte da repressão do desejo feminino” (visto como algo demoníaco até meados do século XX), “decorria de um terrível receio: engravidar representava elevado risco de morte”. E quantas infantas e rainhas reconhecemos, que pariram incessantemente até vingarem filhos varões, ou até às suas próprias mortes?
No campo político também são vários os exemplos destas “mulheres”, que trabalhavam o tabuleiro entre as decisões e interesses, influenciando os companheiros, amantes, ou maridos. A sua existência na sombra permitia um crescimento no conhecimento e no debate interno e pessoal.
Contudo, Portugal, tal como Espanha, e Itália, sempre pautaram por um retrocesso intelectual. Se nos países da Europa do Norte, a escolarização feminina era bem vista, por cá, houve uma tentativa para uma “Corte de Mulheres”, que liam, que escreviam, que compreendiam o mundo em seu redor, e, também, o mundo além-mar. Um grupo, restrito, sim, mas que teve o seu precipício com a morte de Sebastião, o rei jovem e incauto, iludido por uma guerra impossível de ganhar. Restou o papel simples que cabe sempre à mulher, sempre viúva: o lamento, “recomeçava em força a lenda das mulheres castas e devotas, subservientes, vergadas aos deveres da espiritualidade e à grande história política masculina, feita de glórias militares e martírios religiosos.” Um tempo que parece voltar em ciclos – e hoje não será diferente.
A Corte das Mulheres, de André Canhoto e Costa, tem chancela da Quetzal, e foi apresentado em junho, numa das grandes novidades da temporada.
