Revista Rua

2020-04-02T16:12:14+00:00 Opinião

A Economia e a pandemia

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
2 Abril, 2020
A Economia e a pandemia

A severidade da situação que vivemos, no nosso país e no mundo, exige-nos, a nós, sociedade, e aos decisores políticos, o estabelecimento de novas prioridades, deixando para segundo plano outras que, durante o nosso passado recente, ocuparam o topo das preocupações políticas. Hoje, a realidade sugere que uma qualquer estratégia que se foque prioritariamente no cumprimento do défice poderá, de facto, implicar a morte de elementos da nossa sociedade. E isso, felizmente, ninguém aceita.

Não os questionando, aliás, subscrevendo-os, a verdade é que os esforços que hoje fazemos para salvar toda e qualquer vida, implicarão graves consequências para a nossa economia e para a economia mundial, consequências essas que, sendo consensual o seu impacto negativo, ainda temos uma enorme dificuldade em as mensurar. Não obstante, o presente contexto requer uma resposta urgente, por parte da União Europeia, ao enorme desafio que esta pandemia coloca ao mercado interno e às suas instituições. Uma resposta que, impedindo uma deterioração radical das condições das empresas e dos seus trabalhadores, assegure uma recuperação célere da capacidade produtiva e, acima de tudo, do bem-estar das populações.

Numa outra perspetiva, podemos identificar alguns contributos da Economia, enquanto ciência económica, para uma reflexão sobre a situação atual e para a compreensão dos comportamentos dos indivíduos. Em termos conceptuais, a ideia de custo de oportunidade que traduz o facto de que qualquer decisão ou escolha implica um conjunto de escolhas preteridas, sendo o seu custo medido pelo valor associado à melhor alternativa não escolhida. Na presente situação, podemos pensar em todas as alternativas a escolhermos ficar em casa, identificar entre essas a preferida e comparar os seus custos e benefícios com os que associamos a ficar em casa. Será na diferença entre estes que estará a racionalidade (ou não) da nossa escolha. Valerá mesmo a pena não ficar em casa?

Um outro conceito curioso é o de free-riding que poderá ajudar a justificar a decisão de, mesmo no presente contexto, num dia de calor, decidirmos ir à praia. Aqui a lógica é “apanharmos boleia” nas decisões dos outros, ou seja, assumir que toda a gente seguirá as orientações para ficar em casa e, assim sendo, concluir que uma ida à praia deixa de ser perigosa para o próprio ou para terceiros. Claro está, que se toda a gente pensar da mesma forma, não haverá ninguém para “dar boleia”. Este conceito aproxima-se de um outro, o de externalidade, mais estudado na ciência económica. As externalidades são abordadas enquanto falhas de mercado, ou seja, constituem situações que violam as hipóteses que caracterizam um mercado, referindo-se, normalmente, a um mercado de concorrência perfeita. A sua existência oferece argumentos para uma intervenção do Estado na economia, com o objetivo de aumentar a sua eficiência. A ideia de uma externalidade, que pode ser positiva ou negativa, é nós beneficiarmos de algo pelo que não pagámos ou produzirmos algo que beneficia os outros sem sermos compensados. Na presente situação, o benefício decorre de se permanecer em casa ou do uso de máscaras que poderá ser visto como uma externalidade positiva, já que afeta também aqueles que não permanecem em casa ou que não usam máscara e que por isso não suportam os custos de o fazer. Neste tipo de situações, o Estado poderá intervir, corrigindo a falha de mercado, obrigando aqueles que hoje açambarcam tais benefícios a por eles pagarem. Esperemos que não tenhamos de chegar a esse ponto e que as pessoas, voluntariamente, fiquem, de facto, em casa… enquanto as instituições europeias definem medidas que nos assegurem um melhor futuro.

Sobre o autor
Economista, Universidade do Minho

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