Revista Rua

2020-03-31T10:03:20+00:00 Opinião

A elegíaca melodia

Sociedade
Ana Marques
Ana Marques
31 Março, 2020
A elegíaca melodia

O dia é acordado pelo forro colorido e diverso que as manchas, na tela longínqua, esboçam a matutina vontade de enfrentar e de nos erguermos perante a vida. Fomos, outrora, levados por ventos tempestuosos, almas conturbadas de toda uma espécie desfeita que nos derramou em sangue vivo. Esses – os que se buscam em insónia, agora – eram os tempos de calo, de solo rijo e mãos cheias de chagas, perdidas como a água que corria insalubre pelas rochas desfeitas. Fizemos, pois, e apesar das controvérsias instaladas, um mundo que julgámos ser a representação de uma pomba branca, que abraçaria com as suas asas – e repleta de boas intenções – umas gentes desacreditadas, debilitadas, deixadas ao tormento sáfaro e às suas insignificantes mortes espetadas nas sepulturas dos nomes esquecidos. Os suspiros correm pelo organismo e rejeitam as vísceras sementes de ternura. Pasme-se, portanto, como na habitação silenciosa, entenebrecida de dor, malfadada, reside o idoso isento da peleja indolente de um mundo mimado, de costas voltadas e de dedos em riste perante as promessas largadas como bombas nos mensageiros comprados. Somos os bastardos que aqui sobraram para batalhar a tragédia que nos assola. Não quisemos as revoltas, desprezamo-las fisicamente, quando as que nos habitam interiormente nos fazem a mossa empedernida. Pousamos o corpo nos sofás e olhamos os ecrãs, dedicando o nosso tempo às séries outrora sem tempo, lendo os livros que nunca quisemos fazer-lhes caso; corremos dentro de casa, transmitindo ao mundo como as nossas forças ainda aqui estão, cientes e dignas de serem compartilhadas em jeito de motivação coletiva; ligamos as rádios para nos elucidarem e nos retrocederem temporalmente na reminiscência vivida; uns fazem isto e aquilo, a ânsia para nos mantermos ativos é soberana. Demos as mãos (salvo seja, porque o toque não permite) por um bem maior, o objetivo comum, a paz coletiva, mas nem assim nos vemos desprovidos das trevas, que espreitam por entre as entrelinhas dissimuladas e nos pisam como folhas secas. Oh, que recôncavo sinto no peito! A repetição, onde não nos suspende senão num ar tépido, traça em todos um pensamento lido, riscado, aquele mais do mesmo, que, se não for calculado por quem lê, por quem o instiga, poder-se-á servir perigoso…

Já se pressente. Já se opina, já se diz, já se quer, já tanto ouvimos e lemos, que ficamos reféns do diz que disse, do diz que pensa, do diz que é assim ou assado. Medo. A palavra de ordem dos que ousam discernir, atuar, fazer crer, com uma perfídia perentória da qual somos amarrados.

Eu, tal como outros tantos, não ambicionamos perder a esperança na humanidade, conscientes dessa queda brutal. Enquanto assim for, manter-nos-emos de peito aberto, num confronto direto e acutilante perante as balas. Venham elas, venham elas e venham as abjeções que nos acompanharão durante as ferezas reboadas.

A ingenuidade, a corrente que passa e vai longa, ali, pelo riacho, pela horta, pertinho dos espigos e do agrião. Abriremos, quiçá, alguma vez, os olhos? Removei as remelas da santa ignorância. Aquele verso queda-se frontalmente comigo, e é assim:

Sabe, sabe, o povo todo sabe

O que hoje está na mó de cima, amanhã desaba

Sabe, sabe, o povo todo sabe

Não há escala sem descida e o povo todo sabe.

Rompe a aurora; instala-se, pouco a pouco, a agónica visão de mais um dia. Só mais um. Vê-se à tona a terra ardida, mas também as gentes alimentadas e acorrentadas.

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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