Revista Rua

2020-05-04T10:46:02+00:00 Opinião

A exigência obscura da literatura

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
4 Maio, 2020
A exigência obscura da literatura
©Andrei Tarkovsky

O som dos tambores principia numa batida inaudível. Na batida que vai desde a mente do homem à baqueta na pele do instrumento. Marca uma cicatriz na memória, que permanece no subconsciente.

A marcha nunca tem um início fixo, é um constante movimento. Enquanto assistia a paradas populares na infância tudo era um constante devir. As cicatrizes começam a sobressair assim que encontramos uma ponta ao rastilho – a batida inicial.

“O essencial permanece no entanto obscuro.”

E compreendo-o tão bem Maurice Blanchot, que numa ode à obscuridade escreveu Thomas L’Obscur.

A obscuridade na escrita tem um valor mutável. Prossegue na parada e na vida. O retrato da realidade torna-se um quadro tosco no hall de entrada a que a vista se aborrece, não satisfaz a condição literária de um esfomeado. Dos que fazem as refeições enlutados pela veracidade dos atos teatrais, ao cair do pano morto. Como uma folha seca, na enorme densidade do tempo, que pesa como chumbo no estomago.

Assim como a barreira do som, há uma barreira da realidade que é rompida através do obscuro – a cicatriz da primeira batida, a marca do rompimento.

É daqui que surge a diferença entre boa e má literatura. Alguns autores deixam espaços por preencher – um vazio na escrita, na ambiguidade da sua obra – e o leitor preenche com a mudança da sua própria vida.

O vazio é um espaço sem lugar. Divaga na sua interpretação e deixa que o ritmo varie conforme os ouvidos dos transeuntes. Não há pauta para uma melodia absurda, ainda que se faça ouvir pela humanidade num caos.

Outros autores entregam tudo à folha, sem deixar espaço para respirar. Como uma pastilha que se masca e cospe, arruma-se o cardápio de frases bonitas na prateleira e apanha pó, para os filhos venderem por um quinto do preço, a troco de um modesto cigarro avulso por enrolar nas traseiras do quarteirão.

Se a parada começar e acabar na mesma rua é provável que os tambores não soem – nem as sombras se deslocam para acompanhar a marcha. Tem de haver um movimento de furto por parte do leitor – um entrelinhas em que possa respirar fundo, contabilizar as balas no cano e meditar sobre quantos suicídios pode cometer.

Do meu olhar retiro parte da realidade, no obscuro reside as sobras. As mulheres parem as gaivotas, e estas deixam os caixotes do lixo acumular os restos do tempo, e como questionar isso?

Não há lugar para o funeral do último escritor. Por debaixo de cada cadafalso há uma nova corda. Por cada sepultura a dois metros de profundidade há mais buraco por abrir. Por cada revólver encravado, há mais um indicador com sangue velho, prestes a ruir na podridão da última existência.

Há uma cor mais negra que o negro, mais obscuro, há a morte – as pálpebras dos cadáveres gelam na bruma de todas as memórias. As gaivotas levam os restos.

A parada continua, até que se escute um único som – o da primeira batida, que simultaneamente será a última.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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