Revista Rua

2019-12-02T14:20:36+00:00 Opinião

A falência do marxismo

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
20 Novembro, 2019
A falência do marxismo

Das eleições de Outubro passado, nasceu a maior pluralidade de sempre na Assembleia da República, juntando a esse facto a maior concentração de sempre de deputados da chamada esquerda: PS, Bloco de Esquerda, Livre, Os Verdes – muito embora sejam apenas uma invenção do PCP e sozinhos, provavelmente, nunca se sentariam ali, PCP.

Quem olhar para o número de deputados e ideologia, será levado a dizer que os trabalhadores portugueses nunca estiveram tão bem representados na casa da democracia. Se um marciano aterrar em Lisboa, vai imaginar que estão a ser tomadas medidas políticas que premeiem o mérito dos trabalhadores, mais formação profissional, uma maior e mais bem servida rede de transportes públicos, mais flexibilização para os pais de crianças pequenas, menor taxação, a reestruturação do SNS; medidas que tendem a aproximar classes sociais, direitos e oportunidades.

Se o marciano decidir pegar na lupa, ou meramente colocar uns óculos de pouca graduação, vai facilmente observar que o PS há muito que está fora da luta de classes e que, ao longo da sua história enquanto partido de governo, esqueceu-se muitas vezes do chamado elevador social.

Actuou junto da função pública, e na formação e acesso ao ensino superior. Mas tal tipo de actuação, eleitoralista e sem ser programada e fundamentada, levou, por um lado ao desequilíbrio das contas de Estado quando já se estava em plena crise; por outro lado, ao facilitismo escolar e à introdução de número elevado de cursos do ensino superior vs cursos profissionais, que contribuíram para a desindustrialização e a falta de competitividade de alguns setores económicos.

O PCP continua em queda, fruto da sua associação às políticas do PS, durante quatro anos. O governo agradece pois embora se tivesse vivido o período da História com mais greves, evitaram-se grandes manifestações e alaridos na comunicação social.

E depois há o resto.

Em Fevereiro deste ano, por altura dos problemas registados no Bairro da Jamaica, escrevi que o que se tinha passado no bairro era um problema de integração social e não um problema de racismo.

Quando existiram problemas no Bairro, Joana Mortágua, Mamadou Ba e, como se vê agora, Joacine Katar Moreira, falaram de problemas de raça. A meu ver, o maior problema ali é um problema de pobreza; da mesma forma que na Quinta da Marinha se vive uma questão de riqueza porque são cada vez mais pessoas de diferentes raças e credos a viverem por aquelas bandas.

A esquerda portuguesa, até o PCP, a reboque, em 2009, com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, há muito que abandonou a luta de classes e passou para as chamadas causas fracturantes; e a comunicação social adora isso: é muito mais divertido entrevistar um hipster no Bairro Alto, que pretende a adopção por casais homossexuais, do que ir para Fafe falar com uma costureira que só sabe que quer ter um salário melhor para poder ter mais comida na mesa da sua família.

Na letra da “A Internacional”, que começa com um sobejamente conhecido “De pé, ó vítimas da fome!”, não tem nenhuma referência a sexo ou raça. A letra do hino fala em propriedade e liberdade: “Sejamos nós quem conquistemos/ A Terra-Mãe livre e comum!”.

Quando, a partir dos anos 70 do século passado, se tenta considerar e teorizar o marxismo sobre políticas de identidade e género, há um esbarrar na palavra opressão. Obviamente é necessário combater a opressão e isso é independentemente da classe.

Será que não há homossexuais de nível económico e social alto? Será que não há negros de nível económico e social alto? Será que esses são menos oprimidos que os debaixo da cadeia?

As razões de raça e género são independentes da classe social, e daí eu afirmar que partidos de ideologia de esquerda que se afastam da luta de classe em prol de outras causas, é a falência do marxismo.

A mesma questão se pode levantar com o ecologismo e ambientalismo. Será que são causas estritas à classe?!

Sic gloria mundi.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

Os artigos de opinião publicados em revistarua.pt são de exclusiva responsabilidade dos autores.

Partilhar Artigo: