Revista Rua

2020-06-04T15:00:20+00:00 Opinião

À (falta de) conversa com Jair

Crónica humorística
Ana Marques
Ana Marques
4 Junho, 2020
À (falta de) conversa com Jair
©D.R.

Hoje, comigo, trago para a conversa Jair Bolsonaro. Ou, devo dizer Airton Guedes? Ou, ainda, Rafael Augusto Alves da Costa Ferraz? Às tantas, já está como o Pessoa! O escritor, caso não esteja a ver a quem me refiro… Com certeza que teria mais com que se preocupar, Presidente, como liderar o seu rebanho cego, motivar os seus apoiantes nazis, mandar bitaites contra a imprensa, cumprimentar os cidadãos sem saber se os infeta ou não… como tal, obrigada por ter aceitado o convite em estar presente.

– O prazer é todo meu. Trate-me por Jair. Só me fez confusão este uso obrigatório da máscara e luvas. Este autoritarismo no meu país não é permitido. De resto, tudo bacano.

Acredito que sim, senhor Presidente. Mas, tendo em conta que o senhor é um homem dado às pessoas, uma pessoa prefere prevenir. Está a perceber?

– Legal.

Já a querer entrar por caminhos apertados…? Legal, depende da perspetiva e do que estivermos propriamente a trazer para cima da mesa, senhor Presidente…

Podemos começar por falar no caso de Marielle Franco. O que me diz?

– Outra canalhice!

O senhor repete demasiadas vezes a palavra “canalhice”, já tentou pesquisar no Google, por exemplo, sinónimos?

– A minha agenda não o permite.

Estou a ver, estou a ver.

Bom, em abril, o jornal El País divulgou uma sondagem que mostrava o descontentamento do povo brasileiro em relação ao seu trabalho, revelando que 64,4% dos inquiridos desaprovavam a sua atuação. O mesmo estudo comprovou que 52% dos brasileiros apoiam a sua destituição. Quer-me parecer que a percentagem já aumentou, devido a tudo o que tem acontecido… Acha que essa ânsia pelo impeachment ainda se mantém, ou é uma utopia apenas de esquerda e do resto do mundo?

– A imprensa mundial é de esquerda. Se eu negociar alguns bilhões, tudo isso acaba?

Ai você pergunta-me isso a mim?

– Você é que veio com insinuações! Sou eu quem manda!

Não se irrite, senhor Airton. Quer dizer, Jair. Mandava era com os…contra…

Bom, adiante! O seu país é um dos países que mais casos de Covid-19 tem vindo a registar. Em 24h o Brasil registou um aumento de 33,274 casos de infetados de Covid-19. O que tem a dizer sobre estes dados?

– E daí? Lamento, mas quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres.

Ah, malandro! A fazer aqui o trocadilho, hã…só faz milagres consigo, não é? Isto é, você, até agora, escapou ileso à Covid-19.

– Vocês nunca me viram rastejando, com coriza [corrimento nasal]. Eu não tive Covid. Daqui a pouco vão querer saber se eu sou virgem ou não, aí vou ter de apresentar o meu exame de virgindade para vocês.

Credo! Livra! Não, deixe-se estar, acho que nós dispensamos isso…

– E digo mais! Setenta por cento das pessoas vão pegar o vírus. Não há nada que possamos fazer. É como a chuva. Está-se a rir? O assunto é sério. 

Desculpe, mas já pensou que, se calhar, o que há a fazer é seguir as recomendações? Do género: usar-se sempre máscara, fazer com que os brasileiros cumpram a quarentena, ao invés de se dispersarem por tudo quanto é lado…não sei, que tal reger-se por aqueles que já passaram pela epidemia e já obtiveram resultados positivos contra o vírus?

– Cala a boca!

Isso é uma coisa que ainda teremos que discutir, senhor Rafael Agusto Alves da Costa Ferraz.

– É Jair, caraca! 

Jair… desta para melhor, era.

– Desculpe? 

Senhor Presidente, você aqui não cala a imprensa. Como repara, não está no Brasil. Queria perguntar-lhe, se me permitir, se conhece aquela expressão que diz: “Tu até podes nem gostar dos media, mas tens que os gramar porque estão a fazer o seu trabalho.” Conhece?

 – Imprensa? Que imprensa canalha. 

Bom, há quem diga que o feitiço vira contra o feiticeiro…

 – Acabou, porra!

Ah! Eu conheço essa! Essa não foi usada para atacar a separação de poderes em relação às investigações da Justiça? 

– Tenha paciência. 

Já agora, senhor Presidente, ocorreram confrontos na Avenida Paulista, em São Paulo, está a ver?, entre apoiantes e críticos seus. Não sei se está a par, mas a liberdade – uma palavra que deve fazer-lhe certa comichão – é um direito humano. O Estado tem o dever de o garantir aos seus cidadãos, e não usar a violência contra certos grupos enquanto preserva e apoia o direito à manifestação de outros que lhe convém. Quer dizer, permite a manifestação à sua corja, mas depois os seus opositores é por via da repressão? Isto leva-me à seguinte questão: crê que o seu poder está a definhar para felicidade de meio mundo?

 – Cala a boca! Cala a boca!

 Espere, espere. Uma última questão…o grupo Anonymous expôs vários casos que colocam Trump em muitos maus lençóis. Por acaso você não tem receio de ser o próximo?

 – IMPRENSA LIXO!

 

 Foi a possível entrevista…

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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