Revista Rua

2020-04-13T10:00:07+00:00 Opinião

A fantástica simplicidade do destino

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
13 Abril, 2020
A fantástica simplicidade do destino

Recentemente explicaram-me que não sabia as reais razões pelas quais sinto o que sinto: o que é a mais absoluta verdade e, por isso, o mais difícil de admitir. Explicaram-me também o significado oculto dos sonhos que são uma espécie de reflexo ébrio (e por isso sincero) da pessoa que existe fora das horas de sono. No que diz respeito às pessoas que vou conhecendo, os que chamam de loucos e bêbados são os que possuem maior clareza de pensamento. Há um senhor que arruma carros na Baixa e passeia-se no meio da estrada, desviando-se das viaturas com pliés de bailarina. Quando me viu à espera na passadeira, para atravessar, declarou

– Anda, anda, não há perigo nenhum

numa risada que nenhum de nós é capaz sequer de imitar, numa sabedoria de monge e coragem irreverente de personagem principal de um western. Que perigo é que há? Toda a gente se desviava dele restando-lhe tempo, ainda, para dançar com um guarda-chuva sem varas que lhe servia de bengala senhorial. Num café perto do Rivoli, um senhor amparado por inúmeros copos de aguardente perguntou-me o nome, reflectiu muito tempo e, de súbito, declara

– Gostava eu de me chamar Francisco

e quando lhe perguntei como se chamava, agitou a mão como se enxotasse algo invisível e tornou ao copo. Há semanas, a sair do café, vira-se para mim um senhor de chapéu e diz

– Você vai para o céu, amigo e respondi-lhe, indignadíssimo

– Não vou nada

e ele, logo rebatendo, com uma certeza absoluta

– Vai vai, vai ver, é um homem bom

o que me deixou desarmado, uma vez que não posso contrariar uma afirmação de tamanha certeza. Já me tinha acostumado com a ideia de um churrasco eterno, mas aparentemente irei possuir um par de asas e um sudário branco, como um vestido de comunhão. Por isso não me restam muitas esperanças, vou para o céu e, com sorte, a causa não será um atropelamento, porque há quem vele por mim no que toca a atravessar estradas.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: