Revista Rua

2019-09-09T12:14:25+01:00 Opinião

A filha do senhor comandante

Crónica
Francisco Santos Godinho
9 Setembro, 2019
A filha do senhor comandante
Imagem ilustrativa

Era igual a todas as outras, uma família normal, um casal, sete filhas, uma casita ali para os lados da baixa, nada de mais, o desmembramento ocorreu como o esperado, vai-se o patriarca, a matriarca disputou em vão o governo da casa, quatro filhas foram indo embora, uma enfermeira num hospital, parece que tirou uma especialização no estrangeiro, outras duas trabalham em lojas, têm filhos, maridos, uma opressão fantasmagórica que o pai falecido exerce através da figura da mãe, segundo conta uma delas

– A mãe e estas ideias de grandeza

porque o pai era comandante há décadas atrás, agora são barbas e papos nos olhos num retrato atrás de um vaso meio seco, ora morre ora não morre, a medalha que tinha num quadrinho na parede essa é sagrada, limpa-se-lhe o pó religiosamente porque o pai também o fazia e por isso tanto faz se é uma medalha ou um pedaço de cartão, nenhuma das filhas sabe o porquê da medalha e a mãe limpa-lhe o pó porque o senhor comandante também limpava, fica a repetição do gesto, semana após semana, sem questionar o porquê daquela sobra na parede, o relógio sumiu-se logo mal o pai faleceu, desmoronou-se aos poucos a harmonia, a casa que nunca foi grande agora parece um palácio, só lá vivem duas pessoas, a mãe e a filha enfermeira e na semana passada, no café onde se compra o pão, diz o empregado para a filha enfermeira

– Um dia destes a menina aceita tomar um cafezinho comigo?

seguindo-se um

– Claro que não, sou filha do senhor comandante

ao que um dos homens ao balcão, anestesiadíssimo antes do meio dia

– Pois o senhor comandante tem sete filhas e por isso nunca teve dinheiro para mandar cantar um cego

uma indignação de tempos pretéritos nos olhos da filha enfermeira, a medalha a pairar por cima dos brincos da mãe e o homem, insistindo

– Para além disso, eu também sou filho do meu pai e não sou melhor que ninguém.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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