Revista Rua

2020-05-12T15:17:06+00:00 Opinião

A génese do instante no poema

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
12 Maio, 2020
A génese do instante no poema
©Lisa Sarfati

Nem toda a poesia requer uma complexidade densa que nos faça reler o mesmo poema vezes e vezes sem conta. Contudo, ainda assim, creio que há a necessidade de se dar algo – o silêncio é também uma resposta – logo, é possível que na simplicidade dos versos haja um vazio para o qual o leitor se vê petrificado. Ora salta, ora não salta. Dentro desse vazio dá-se o poema. A opacidade obscura.

“Pés levitando em patético fulgor. / Eu própria, / também danço / liberta da gravidade / para a escuridão e vazio.” Uma parte magnífica do poema “Sonho” de Hannah Arendt (na obra recentemente edita por Edições Sr Teste, “Poemas”). Esta dança que nos liberta do peso da gravidade encaminha-nos para um vazio.

O vazio é uma dádiva no poema. Abre o poema e entrega-nos as ossadas de um cadáver por velar. E velámos com a leitura. Com a contemplação silenciosa na varanda do segundo andar, com um café acabado de tirar e um cigarro enrolado enquanto esperamos pela normalidade.

Dançamos sobre o abismo, num local sem gravidade ou complexidade – sem espaço ou tempo – e somos forçados à retirada da realidade absorta da varanda. O tempo cessa, no instante: “Aqui, os dias passam, dissipando-se sem uso, / como um jogo. / As horas rendem-se indefesas no calvário.”

No silêncio poderá dar-se mais que nos versos do poema. A intencionalidade fenomenológica que se desencadeia na consciência do leitor, face aos versos, tem um valor qualitativo superior à complexidade esquemática. A imagem que desenha na memória, como um polaroid instantâneo, é para mim semelhante a uma dança com o tempo estagnado. Volvo à partida, sem despedida.

Se tudo nos for entregue, não haverá um espaço sem espaço para o instante. Apenas restará um espaço onde o poema se deu, na sua complexidade e com todos os seus adornos dialéticos. O instante cessa e do poema sobre um cadáver pútrido sem chance para o velar.

“Os dias limitam-se a passar / fazendo com que o nosso tempo passe. / A noite muda nos revelará / perpetuamente os mesmos sinais obscuros.” E a partir daqui é a minha noite e os meus dias – somente no silêncio, porque assim que escrevo esta crónica, ou que diálogo acerca dos poemas de Arendt, estes são endereçados à sua experiência e vivência – mas no silêncio do poema, brota o seu vazio que se encaminha para um abismo sobre o qual danço e pairo sem gravidade. A complexidade cessa e tudo o que sobeja são os instantes rememorados.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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