Revista Rua

2020-08-06T21:15:58+00:00 Opinião

A incerteza de quem faz programação cultural hoje

Cultura e Artes
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
6 Agosto, 2020
A incerteza de quem faz programação cultural hoje

2020 tem sido, acima de tudo, um ano de incertezas. Seja pelo futuro, seja pelo presente, seja pela estranheza dos tempos que vivemos. Nunca soubemos o dia de amanhã, mas agora essa névoa é ainda maior. A própria forma como vamos percecionar, no futuro, o que temos vivido neste ano irá também depender dos próximos tempos. Até lá, a esperança de que tudo fique, como se tem dito deste março, “bem” irá dominar o nosso subconsciente.

A incerteza do dia de amanhã, na retoma, do regresso à normalidade, do controlo das nossas vidas, de quem gere negócios, de quem tem contas para pagar, enfim… a incerteza sempre presente e que assiste a todos sem exceção. Desde junho que temos assistido ao desconfinamento e à retoma paulatina nos diversos setores e atividades económicas. Na cultura isso não é exceção e, um pouco por todo o país, os teatros municipais, casas de arte, autarquias e municípios têm tentado retomar a atividade cultural de forma adaptada à nova realidade. Mas como tem sido, de facto, esta retoma da atividade cultural?

Se olharmos para a área geográfica do Minho, vemos exemplos como o Theatro Circo, o Centro Cultural Vila Flor ou a Casa das Artes de Famalicão que têm feito, nas respetivas cidades, ciclos de música para dar o “pontapé de saída” do confinamento e chamar novamente o público, dando-lhes também, e acima de tudo, a sensação de segurança para que possam voltar a frequentar espetáculos, ainda que adaptados à nova realidade, com normalidade. É assim nos concertos, nos fins de tarde, no Parque da Devesa, em Famalicão, é assim nas Quintas-feiras Felizes, do Theatro Circo, e é assim, também, no ciclo Lufada do CCVF. Acima de tudo, há uma tentativa de ganhar algum tempo para testar, para fazer, para mexer um pouco, para que em setembro se faça a rentrée com a nova agenda cultural que durará até dezembro deste ano.

Quem trabalha na área cultural, nomeadamente, quem é programador cultural, numa situação de normalidade, é já uma figura que tem de lidar e aprender a conviver com a incerteza, o imprevisto e o improviso. Poucas pessoas sabem o quão solitário consegue ser o trabalho dum programador cultural, nesse esforço de pensar com meses e meses de antecedência; por vezes, pensar a um ano de distância no que é pertinente programar. É um processo solitário, de risco, de aposta, de pensamento constante, de avaliação, de dúvida e de muita incerteza. Por vezes, programar a cultura é quase tão incerto como marcar férias com um ano de antecedência e apostar tudo em como estará sol e de que não será necessário levar guarda-chuva.

“Há algo que tenho dito em conversas, sobretudo com pessoas do meio, que tem a ver com o meu receio sobre o futuro do circuito independente, cujo verdadeiro impacto só poderemos avaliar daqui a uns meses. Receio, porém, que o efeito da pandemia neste circuito possa ser verdadeiramente devastador e isso prejudica e vai-se alastrar por ramificações que irá atingir um pouco todos: teatros, cinemas, casas de arte e, o pior de tudo, artistas e profissionais das artes.”

Ora, sabendo destas incertezas naturais e inerentes ao processo da programação cultural, imaginemos, agora, como será nos dias que correm: basta multiplicar por dez ou por 100. Se numa primeira fase, quando rebentou a pandemia, o impulso foi adiar tudo, passados alguns meses, já deu para notar que existe já um padrão de reação ao contexto atual por parte de quem monta as agendas culturais, isto é, dos programadores culturais. A incerteza que hoje se vive molda completamente as decisões que são precisas e que são tomadas, numa autêntica bola de neve contínua e de reação aos acontecimentos e não de ação. É preciso esperar para ver como as coisas ficam. É preciso avaliar para estruturar. É preciso reagir em vez de planear.

Os próximos meses irão ditar, tal como já disse, a forma como iremos percecionar 2020 no futuro: se há segunda vaga, quando é que ela virá, quando teremos vacina ou tratamento, etc. Mas enquanto não sabemos de nada, temos de viver na incerteza, reagir e adaptar face ao que hoje é a nossa realidade. Na cultura isso é igual. A cultura foi a primeira a “fechar” e, apesar de abrir aos poucos, será a última a “abrir”, verdadeiramente. A incerteza de hoje é enorme e a de amanhã ainda é maior. Há algo que tenho dito em conversas, sobretudo com pessoas do meio, que tem a ver com o meu receio sobre o futuro do circuito independente, cujo verdadeiro impacto só poderemos avaliar daqui a uns meses. Receio, porém, que o efeito da pandemia neste circuito possa ser verdadeiramente devastador e isso prejudica e vai-se alastrar por ramificações que irá atingir um pouco todos: teatros, cinemas, casas de arte e, o pior de tudo, artistas e profissionais das artes.

A incerteza da cultura prende-se pelas dificuldades que hoje os artistas, sobretudo os ditos “emergentes”, sentem ao verem a sua atividade basicamente reduzida a zeros. Artistas, associações culturais, agentes, produtores, técnicos, bares, cafés/concerto, enfim, toda uma realidade que vai além dos teatros municipais e que está, a cada dia e a cada hora que passa, a ser posta em causa, relativamente ao seu futuro.

No meio de tanta incerteza, há uma certeza que, passando a redundância, é certa: precisamos de cultura; hoje mais do que nunca.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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