Revista Rua

2023-11-14T23:05:52+00:00 Opinião

A inevitável russificação

Atualidade Guerra Ucrânia-Rússia
Pedro Nascimento6 Maio, 2022

A inevitável russificação

Atualidade Guerra Ucrânia-Rússia

As notícias sobre a guerra na Ucrânia transportam-nos todos os dias para um local onde as desgraças teimam em não acabar, com milhares de mortos, feridos, desaparecidos, refugiados e vidas despedaçadas. Contudo, quando o gigante russo iniciou a sua incursão contra os ucranianos, poucos poderiam adivinhar que não se tratava de uma questão de (pouquíssimo) tempo até estes sucumbirem. O mundo já não duvida da tenacidade do povo ucraniano. Mas independentemente da sua já histórica resistência, conseguirá a Ucrânia sobreviver como um país unido?

Mais de 70 dias após a invasão da Ucrânia, e não obstante um claro insucesso nas principais operações militares iniciais, a Rússia está agora a tentar estabelecer o controlo económico e governamental sobre o território ucraniano ocupado. Esta situação indica que os russos estarão a preparar-se para criar uma série de “repúblicas populares” russas, culminando na anexação directa de parte do território ucraniano ocupado.

E como está o Kremlin a trabalhar no estabelecimento desse controlo?

– A implementação da moeda russa:

Normalmente, as forças militares de ocupação não substituem as moedas locais. Mas os representantes da Rússia em território ucraniano ocupado, nas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, têm usado o rublo desde 2015. Além disso, as forças de ocupação russas em Kherson implementaram um período de transição de quatro meses para mudar a moeda da cidade para rublos russos. Fontes russas informaram também que o comércio em Melitopol e Volnovakha, cidades ocupadas pelos russos, estão a fazer a transição para o rublo russo desde 1 de Maio.

– Substituição de governos locais:

As autoridades ucranianas informaram que, em várias cidades, os órgãos decisores foram substituídos por representantes russos, incluindo governadores regionais, conseguindo obter um maior e efectivo controlo administrativo de áreas recém-capturadas.

– Realização de referendos:

Através da substituição das autoridades locais supra citada, as forças russas estão há cerca de três semanas a trabalhar na recolha de dados pessoais de ucranianos em Oblasts (distritos) do Sul do país. A Ucrânia alega que, com isso, as forças ocupantes pretendem falsificar referendos já previamente planeados. A Direção Geral de Inteligência da Ucrânia informou em 30 de Abril que o Kremlin está já com planos avançados de um referendo sobre a independência de uma nova “República Popular de Kherson” e, eventualmente, nos Oblasts de Zaporizhzhia e Odessa.

– Controlo das comunicações:

Em grande parte dos territórios ocupados, os russos impuseram uma interrupção nos serviços de internet, cortando grande parte cabos de fibra óptica naquelas áreas. Naturalmente, há uma clara intenção de limitar a liberdade de informação. Além disso, o Ministério da Defesa da Ucrânia informou em 24 de Abril passado que os ocupantes russos estão a instalar equipamentos “MegaFon” (segunda maior operadora de telemóveis e a terceira maior operadora de telecomunicações da Rússia) no Oblast de Kharkiv, procurando aumentar o controlo sobre redes telefónicas e de internet em áreas que as forças russas actualmente ocupam ou pretendem ocupar.

O Kremlin também pretende romper os laços culturais entre os territórios ocupados pela Rússia e o Estado ucraniano a longo prazo. A título exemplificativo, a única escola que permaneceu aberta em Mariupol foi forçada a parar de ensinar a língua ucraniana e só ensina russo desde o final do passado mês de Abril.

A ameaça de anexação de parte do território Ucraniano:

O chefe do Serviço de Inteligência da Rússia, Sergey Naryshkin, começou a promover uma nova narrativa no final de Abril: “a NATO está a planear usar ‘forças de paz’ para invadir a Ucrânia Ocidental e, eventualmente, anexar parte do país à Polónia”. Naryshkin era o principal difusor das narrativas de propaganda do Kremlin antes da invasão, mas foi relegado para segundo plano desde o início da ofensiva, possivelmente devido a falhas dos serviços secretos. Este ressurgimento de Naryshkin na vanguarda de uma nova campanha de informação indica que o Kremlin pode estar a mudar os seus esforços para justificar a anexação de território ucraniano capturado.

Também o ex-deputado ucraniano e apoiante russo de longa data Alexei Zhuravko afirmou que as províncias do Sul da Ucrânia “sempre historicamente gravitaram em torno da Rússia e não retornarão à Ucrânia”. Zhuravko afirmou que Kherson, Mykolaiv e Odessa também deixarão a Ucrânia, estabelecendo condições para uma possível anexação russa dessas regiões, seja directamente ou como estados-fantoche. O presidente da Duma russa, Vyacheslav Volodin, afirmou no passado dia 3 de Maio que Kherson e outras regiões não querem fazer parte da Ucrânia.

A argumentação do Kremlin:

A Rússia continua a justificar a sua “operação militar especial” na Ucrânia como uma resposta à agressão ocidental contra a Rússia, reunindo apoio doméstico à invasão e coagindo os estados ocidentais a reduzir o seu apoio à Ucrânia, com a ameaça de uma escalada internacional. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, afirmou que “os Estados Unidos não estão interessados na paz na Ucrânia e que o Ocidente está a fazer tudo o

que pode para intensificar a guerra”. Também o Presidente russo Vladimir Putin acusou os Estados Unidos e os seus aliados de tentarem “dividir a sociedade russa” em 25 de Abril. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, argumentou no dia 26 de Abril que a NATO está indirectamente a conduzir uma guerra contra a Rússia em território ucraniano e alertou que o risco de uma Terceira Guerra Mundial é “considerável”.

Negociações num impasse:

Desde o início, a Rússia responsabiliza a Ucrânia e o Ocidente pelos impasses nas negociações de paz. Contudo, é público e notório que o Kremlin não tem qualquer intenção de interromper as operações de combate, a menos que as forças russas possam tomar território adicional no Leste e no Sul da Ucrânia.

O Financial Times citou fontes russas em 24 de Abril, alegando que Putin “perdeu o interesse nos esforços diplomáticos para acabar com a sua guerra com a Ucrânia e, em vez disso, parece determinado a conquistar o máximo de território possível”. O ministro Sergey Lavrov disse no dia 26 de abril que “a guerra acabará por terminar com um tratado”, dando a entender que o Kremlin pretende obter ganhos territoriais para impor condições mais duras à Ucrânia num eventual acordo de paz, negociando a partir de uma posição de força. Lavrov afirmou ainda que a Ucrânia não está interessada em negociações e está a ser pressionada pelo Ocidente para continuar a guerra com a Rússia.

Em resposta aos “referendos de independência” patrocinados pela Rússia em território ucraniano ocupado, a Ucrânia pode suspender totalmente as negociações nas próximas semanas. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky alertou no dia 23 de Abril que a Ucrânia desistiria das negociações se as forças russas destruíssem a população civil de Mariupol ou realizassem referendos forjados em territórios ocupados. A primeira situação já se verificou…

A situação no terreno:

Após o insucesso das operações russas no Eixo de Kiev, a Rússia focou a sua ofensiva na região do Donbass e no Sul da Ucrânia. Contudo, apesar das pesadas baixas, não só infligidas mas também sofridas, as forças russas não alcançaram ainda avanços consideráveis.

O objectivo russo é agora cercar as forças ucranianas no Leste do país e capturar a totalidade dos Oblasts de Donetsk e Lugansk, (território reivindicado pelos separatistas no Donbass).

Mas as operações ofensivas russas continuam ineficazes nos Oblasts do Sul, Kharkiv, Donetsk e Lugansk, não logrando obter ganhos territoriais significativos nos últimos dias. Provavelmente,

as forças russas não foram capazes de fazer mais avanços devido à sua incapacidade de realizar operações ofensivas longe das suas linhas de comunicação terrestres.

Contudo, há dois pontos que não podem ser desconsiderados:

– a linha de abastecimento às tropas ucranianas está cada vez mais esticada: contrariamente ao que acontecia no Eixo de Kiev, as tropas ucranianas a operar no Donbass estão a mais de 1000kms da fronteira ocidental do país, por onde entra grande parte do arsenal fornecido pelo Ocidente;

– o terreno é agora mais favorável aos russos: os combates em contexto urbano foram claramente favoráveis à condição defensiva dos ucranianos, mas o terreno aberto das planícies ucranianas no Leste favorece a movimentação das forças russas que, retirando ensinamentos da Batalha em torno de Kiev, avançam agora em linhas paralelas, protegendo os flancos das suas tropas.

Os russos realizaram também operações ofensivas em direcção à cidade de Zaporizhzhia, mas não realizaram avanço substancial nos Oblasts de Kherson e Mykolaiv nos últimos dias. As forças ucranianas alegaram recapturar território a Oeste de Kherson, mas não foi possível confirmar de forma independente qualquer avanço.

Em Mariupol, autoridades e militares ucranianos confirmaram que as forças russas invadiram a própria instalação da metalúrgica Azovstal e confirmaram que as forças ucranianas estão a perder terreno. Os russos provavelmente capturarão a instalação nos próximos dias.

Assim, estamos perante uma guerra que não dá sinais de tréguas. E se por um lado temos uma tenaz resistência ucraniana – que também contou com gritantes falhas operacionais dos russos – , a verdade é que a Ucrânia está a ser progressivamente destruída. Não só pelas bombas, mas pelo alastrar da influência russa nos mais variados sectores da vida ucraniana, como se de uma metastização se tratasse.

Fontes:

– Statista Research Department;
– Institute for Study of War;
– Global Conflict Tracker;
– Financial Times (www.ft.com)

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Sobre o autor:

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

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