Revista Rua

2018-05-03T10:59:40+00:00 Opinião

A Mãe e a bicicleta

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Minho Ciclável
Minho Ciclável
2 Fevereiro, 2018
A Mãe e a bicicleta

Ainda há cinco anos não sabia o que era uma bicicleta. Claro que tive uma bicicleta em criança como toda a gente. Fazia parte do curriculum de ser criança: andar de bicicleta, saber nadar, saber andar de baloiço. A minha primeira bicicleta foi herdada da minha irmã mais velha, era linda: roda 20, fitas nos punhos, vermelha com um daqueles selins alongados. Depois veio uma nova, presente da minha irmã com o seu primeiro salário: mais ao gosto da época, branca, quadro rebaixado e um cestinho. Seria esmaltina? Não me lembro. Depois desta… bem, depois desta não houve nada, foi a adolescência. Os adolescentes dos anos 90 não gostavam de bicicletas, exceção feita a um punhado de bad boys que utilizavam as BMX como quem andava de skate ou de patins. A bicicleta não era cool para os adolescentes, era uma reminiscência da infância que apenas haviam abandonado quando todos querem é parecer mais velhos. E a minha história com a bicicleta fica por aqui, assim como a de tantos portugueses à exceção de algumas comunidades onde os pais ensinavam os filhos que, de facto, a bicicleta é um meio de transporte. Para a maioria de nós, nesta altura, a bicicleta era simplesmente um brinquedo. E a história teria ficado por aqui se, num Natal de há cinco anos, o meu marido não me tivesse entrado pela porta com uma bicicleta de presente. Desde que morávamos em Viana do Castelo que achávamos graça à ideia de comprar um par de bicicletas para passear ao fim de semana, mas nesta altura já a família havia crescido: tínhamos agora um filho de cinco anos e uma bebé de seis meses. E toda a gente sabe que os bebés não podem andar de bicicleta, certo? E foi exatamente isso que respondi ao presente: “Uma bicicleta? E o que é que eu faço com uma bicicleta e um bebé? Ainda por cima só uma, é para eu andar sozinha?” Lá que era bonita, era. E com bom aspeto: quadro preto com selim e punhos castanhos, geometria rebaixada, amortecedor na forqueta… Passei algumas horas dos dias seguintes no Google para tentar perceber o que fazer com uma bicicleta e um bebé. Os atrelados não me entusiasmavam porque não permitiam ver o bebé, as cadeiras traseiras para o porta-cargas não eram seguras para esta idade, e alguns acessórios como os mamachari japoneses eram impraticáveis de caros. Dei então com uma imagem de uma gazelle: cadeira à frente e cadeira atrás! Pareceu-me o ideal para um bebé. Claro que não encontrei à venda em nenhuma loja de Viana do Castelo, pelo que tive que comprar online. Ouvi na loja onde o meu marido tinha comprado a bicicleta, lotada de bicicletas de estrada e de montanha com vários zeros a mais que a minha: “Cadeira dianteira? Nunca vi disso!”

E a minha vida mudou para sempre! Com sete meses, a minha filha já tinha controlo cervical para poder andar sentada e adaptou-se formidavelmente à cadeira. Para mim, Mãe Galinha, levá-la na cadeira no meio dos meus braços era quase como levá-la ao colo. O irmão, nessa altura com cinco anos, independentizou-se das rodinhas de apoio, pois já tinha uma mãe que o acompanhava à mesma velocidade em vez de ir a pé a correr ao lado da bicicleta e a gritar: “Cuidado!”

De uma forma quase natural, passámos a fazer as nossas deslocações urbanas a pé ou de bicicleta: como residimos numa rua de trânsito condicionado, a bicicleta é o único meio de transporte que nos leva até à porta de casa. Agora sou mãe de três, e a minha bicicleta está como a gazelle que eu vi há tanto tempo e na qual me imaginei: cadeira à frente e cadeira atrás. É difícil ter família e transportá-los de bicicleta? É, claro que sim. Há a chuva, o vento, o trânsito em excesso, a falta de infraestruturas. Por isso, qualquer medida para pacificar a estrada como a redução de velocidade para 30 km/h dentro das áreas urbanas é vista com bons olhos. Ainda me recordo o que me respondeu o meu marido quando lhe mostrei a imagem da bicicleta equipada com as duas cadeiras: “Boa sorte para saíres da nossa rua”. Mas saímos! E agora as ruas são todas nossas.

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