Revista Rua

“A Marta leva por tabela por fazer de Beatriz Gosta”

Marta Bateira é o rosto por detrás da personagem humorística Beatriz Gosta e está em entrevista na RUA. [Com vídeo]
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto10 Setembro, 2019
“A Marta leva por tabela por fazer de Beatriz Gosta”
Marta Bateira é o rosto por detrás da personagem humorística Beatriz Gosta e está em entrevista na RUA. [Com vídeo]

Encontramo-nos com Marta Bateira no Teatro Sá da Bandeira, na mítica sala de espetáculos da cidade invicta. Sala essa que, ainda este mês, ficará preenchida de ouvintes e olhares atentos apontados numa só direção. Àquele palco subirá Beatriz Gosta, a irreverente personagem de ficção do YouTube que fala abertamente de temas considerados (ainda) tabus. Num abraço caloroso e num tête-à-tête intimista, falámos dos anseios de quem chega aos 37 e quer arriscar tudo, porque não tem nada a perder, da coragem para subir a um palco sozinha e da celebração de chegar onde queria.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Marta Bateira, mais conhecida por Beatriz Gosta, prepara-se para subir ao palco, a solo, com o espetáculo de stand-up comedy: Quem Acredita Vai. Cinco datas, cinco sessões esgotadas de imediato. Numa altura em que está prestes a completar 37 anos, chegou a altura de dizer: é agora, sem medos. Através da irreverente personagem de ficção, Beatriz Gosta, numa espécie de diário íntimo ao vivo, vai debater-se com temas atuais, como o feminismo, a mulher em 2019, as relações humanas e o humor do quotidiano, entre outros. Mas é na primeira pessoa que Marta Bateira se apresenta, numa entrevista realizada na bela sala do Teatro Sá da Bandeira.

Os espetáculos arrancam nos dias 16, 17 e 19 de setembro, no Teatro Villaret, em Lisboa, seguindo-se os dias 24 e 25, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.

“A Marta leva por tabela por fazer de Beatriz Gosta. Mas é um preço que se paga quando escolhemos marcar a diferença”

Como é que uma miúda que cresceu em Aldoar, a ouvir grandes nomes do rap, juntamente com a sua amiga de longa data – a Capicua – de repente se lança numa plataforma digital? Como é que surge esta personagem da Beatriz Gosta?

Eu era designer de moda numa empresa em Paredes. Estava feliz com o trabalho, porém era muito desgastante. Não estava com aquela força para fazer um álbum a solo, de M7 [o heterónimo que usa quando canta rap], trabalhava mais de oito horas por dia e chegava a casa cansada. Um dia, a Capicua disse-me: “És tão boa a contar histórias. E se as contasses para uma câmara?” Tentei fazer o trabalho sozinha, mas não resultou. Na altura, a Capicua estava a gravar um videoclip com o Vasco Mendes e o André Tentugal, que são realizadores aqui do Porto. O André adorou a ideia e disse: “’Bora fazer”. Sem dinheiro, sem nada. Juntou-se o Vítor Ferreira na ilustração e assim se fez, sem qualquer expectativa. Era apenas para a gente se rir em casa.

E estavas à espera de ter o impacto que tiveste?

Não. Quando saiu o primeiro Pack Night, eles mostraram-me e eu adorei. Pensei: “isto está mesmo bom, a imagem, o som, as dicas”. Era algo fresh. Estava a rir-me de mim, que é uma coisa complicada. Os media perceberam imediatamente qual era a minha intenção: um toque de intervenção, de feminismo.

A Beatriz Gosta nasceu para quebrar tabus moralistas? É uma “porta” para expressares as tuas convicções e modos de pensar, face a muitas questões sociais/morais?

O primeiro vídeo, em 2015, teve muito impacto. Primeiro, por ser mulher e as pessoas não estarem habituadas a ver uma mulher a falar abertamente sobre diversas coisas que seriam mais comuns ouvir de um homem. A mulher bebe, se lhe apetecer, pode ‘cair na gandaia’ e ‘traçar um povo’, como também é a mesma mulher para casar. E eu só quero que estas gavetinhas tabus caiam por terra. Eu ainda sou a mulher que não é para casar.

Sentes que é essa a imagem que as pessoas têm de ti?

Claro que é essa a imagem que as pessoas têm de mim.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Mas da Beatriz ou da Marta?

Das duas. A Marta leva por tabela por fazer de Beatriz Gosta. Mas é um preço que se paga quando escolhemos marcar a diferença. Quando tens algo para dizer ao mundo, tu compras essa briga.

A maioria das pessoas apenas te conhece pela tua personagem. Mas quem é, afinal, a Marta Bateira quando não está a falar para uma câmara?

Consegue estar fechada em casa e não atender o telefone, porque não lhe apetece. A Beatriz Gosta, obviamente, é uma extensão da Marta. Não quer dizer que não esteja assim excêntrica de vez em quando, de uma forma muito natural, mas não estou assim sempre. A vida real é a vida real. Tens problemas para resolver, estás maldisposta, há dias maus, há multas para pagar. Enquanto que a Beatriz está sempre em alta. Claro que a Marta está muito Beatriz, às vezes (risos). Acho que isso é uma opção. Tu acordas e escolhes estar feliz.

És licenciada em Design de Moda e tens uma enorme paixão pela música. Mas não seguiste nenhum destes caminhos. Porquê, especialmente enquanto rapper?

Porque a vida não deu para isso, mas não quer dizer que, de hoje para amanhã, não faça algo diferente. Eu amo coisas vintage e gostava de ter um negócio nessa área, gostava de ter uma marca onde as pessoas não tenham de vestir apenas os números, enquanto estereótipos – 36, 38, 40 ou 42, no máximo. Gostava de fazer um álbum de rap, nunca escondi isso. O rap é a minha grande paixão. Agora, o humor caiu sem querer na minha vida e, às vezes, estás a bater sempre na mesma tecla, porque queres muito uma coisa, e a vida mostra-te que se calhar o teu caminho é outro. E tu pensas: “Fogo, estou mesmo feliz nesta porra”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Se definisses um rótulo para a tua profissão, qual seria? Consideras-te humorista, youtuber, rapper ou inserida numa vertente mais livre?

Eu dizia apenas: carismática. É o que eu sou. A carismática que consegue fazer humor, que comunica na televisão, que faz rap. Para fazer algum tipo de arte é preciso ter uma identidade que é só tua. Não podes ser parecida com alguém. Podes até começar com algumas referências, é normal no processo, mas depois tens de te descolar e ter a tua identidade. Tu tens de ter o teu carisma, porque se não fores carismático és boring, és só mais um.

Recorres ao humor para abordar questões como a igualdade de género, o preconceito, a valorização da mulher ou o feminismo. Encaras isso como uma espécie de missão na vida? Imaginas-te a não exteriorizar a tua opinião?

Esses temas não fui eu propriamente que escolhi, mas as pessoas automaticamente identificaram, principalmente as mulheres e os homens mais sensíveis. Identificaram-se com as minhas palavas, atitude, espontaneidade e liberdade. Eu sou feminista, porque faz sentido ser feminista. Estou mais alerta a esses temas, porque me deparo com desigualdades que mexem muito comigo e me levam ao extremo. Comecei a fazer isto para ser livre. Eu posiciono-me e não tenho qualquer problema em dizer o que eu penso em relação a assuntos dos quais tenho uma opinião formada, sendo que há outros, dos quais não tenho opinião, que simplesmente não desenvolvo. Eu não tenho problema nenhum em perder marcas ou trabalho, porque assumo certas coisas. Eu não sou polémica ou chocante, eu acho é que as pessoas têm de se habituar a não fazer um bicho de sete cabeças com coisas que são básicas.

No seguimento da pergunta anterior, certamente que nem toda a gente que vê os teus vídeos encara o teu humor da mesma forma e, provavelmente, não entende a mensagem que está por detrás. Concordas que isto acontece no teu caso? Ou o público já está mais predisposto a entender melhor o humor?

Sim, acontece. Há pessoas que acham que estou apenas a ser ordinária e não estão mesmo a perceber a mensagem. Acho que podem estar infelizes em relação a esses assuntos. Eu não censuro, porque a vida pode ser mesmo chata. Eu estou ali para fazer as pessoas rirem. Eu estou divertida a contar uma história da minha forma, que é muito própria. Mas não se explicam piadas. Se alguém não gostou, tem esse direito, estamos num país livre.

“Tu tens de ter o teu carisma, porque se não fores carismático és boring, és só mais um”

Fotografia ©Nuno Sampaio

Como é que lidas com a exposição mediática? O facto de seres uma mulher do Norte faz-te encarar as críticas (destrutivas) de uma forma apaziguada?

Costumam dizer que é muito exótico o meu sotaque do Norte, mas eu sei que me acham “travinca”. Eu finjo que já não me chateiam, porque acho ridículo. Eu sou diferente e tiro partido disso, mas não sou hipócrita. Quando sou reconhecida e abordada na rua, tenho de contar com o bom senso das pessoas. Já tive vários processos. No início sentia que não tinha o direito de viver isso. Quando dizem: “Tu és a maior”, isso não é verdade e tens de saber gerir o teu ego, tens de gerir a atenção. Acho que amadureci e como gosto genuinamente de pessoas lido muito bem com a abordagem que me fazem na rua ou em qualquer lado.

Tens pessoas que te abordam diretamente com algum tema?

Claro que sim. Então quando vou às faculdades, o pessoal quer ter ali um Lencinho de Papel privado (risos). Tenho sempre disposição para isso. Gosto de pessoas. Gosto da vida real.

O percurso profissional levou-te até ao programa da RTP, o 5 Para a Meia Noite. Estavas à espera de que a Beatriz Gosta do YouTube te levasse até ao grande ecrã? Fala-nos um pouco da experiência.

Foi muito engraçado. A Filomena Cautela tinha-me convidado para um episódio. Depois disso, ela e o Nilton – quando ainda eram vários apresentadores – convidaram-me para um projeto. Entretanto, aceitei com a Filomena e comecei a fazer uma rubrica, a Pergunta que Não Quer Calar. Nisto, surgiu a ideia de ir aos Globos de Ouro e estava muito nervosa. Inventei os ‘cinco chocos para ir para a SIC’ e aquilo teve imensa piada. Até correu bem.

A personagem heterónima que começou no YouTube, em 2015, prepara-se para invadir os grandes palcos com espetáculos de stand up comedy. Quem Acredita Vai pretende “partir a loiça toda”?

A mensagem principal é tu acreditares em ti. Eu sou uma pessoa insegura, embora possa não parecer. Não nas relações humanas nem na vida social, mas no trabalho. Acho que o que eu faço nunca está bem, tenho muita vergonha de me mostrar e não gosto de falar de trabalho em casa. Não gosto de dizer às pessoas que vou sair em determinada revista, porque não sou nada vaidosa em relação a isso. E a mensagem é: vou fazer 37 anos, acabaram os medos. Tens de te olhar ao espelho e dizer: “Eu sou capaz. Eu vou conseguir.” É uma luta para comigo. Sempre me pediram um formato ao vivo dos meus vídeos. Deu-me algum calo para subir ao palco e não desmaiar (risos). Ainda por cima, já viste esta sala incrível?

Fotografia ©Nuno Sampaio

Quais são os principais temas que vais procurar debater? O que é procuras trazer ao público?

Os mesmos de sempre. Boémia, sexo, o quotidiano, a mulher em 2019, por aí. Eu sou uma contadora de histórias. Espero proporcionar um momento de descontração, que o público esqueça os problemas do dia a dia. Será uma interação direta, onde vamos estar todos de mãos dadas e numa energia forte.

Há alguma história por detrás do nome do espetáculo?

No quarto episódio, eu contei uma história e saí-me com essa expressão: “quem acredita vai”. É uma expressão minha, é a minha frase. Eu já tinha até feito uma rubrica na Antena 3 chamada Quem Acredita Vai e, agora, fazia todo o sentido, depois de dizer tantas vezes que não aos convites para fazer stand-up comedy. Não tenho nada a perder. Tenho 37 anos, não vou deixar para os 45. É agora.

Que convite deixarias às tuas “damas e damos”?

(risos) Ainda há pouco, ali na bilheteira do Teatro, disseram-me que estão esgotadas as duas datas do espetáculo aqui no Porto e vou, com toda a certeza, abrir outra data. E em Lisboa também. Estou muito feliz. Quero muito agradecer por todo o carinho e por acreditarem ainda mais do que eu. Não estava nada à espera de esgotar todos os espetáculos, em tão pouco tempo. O povo é muito carinhoso comigo, acho que é pelo meu jeito espontâneo. O 5 Para a Meia Noite trouxe-me um público mais velho – ainda agora uma senhora de 60 anos me abraçou ali no café (risos) – como também tenho o público muito mais novo. É incrível.

“Quero muito agradecer por todo o carinho e por acreditarem ainda mais do que eu. Não estava nada à espera de esgotar todos os espetáculos, em tão pouco tempo. O povo é muito carinhoso comigo, acho que é pelo meu jeito espontâneo”

Onde é que vamos poder ver e ouvir a Beatriz Gosta ou a Marta daqui a dez anos? Vais continuar a “invadir” as plataformas digitais ou há alguma vertente que gostavas de explorar e ainda não tiveste oportunidade (como a música)?

Daqui a dez anos, espero que a idade me assente muito bem e que eu esteja em paz com as minhas rugas (risos) Espero já ser mãe, quero muito ter dois filhos. E espero já ter feito um álbum de rap. Gostava de ter um programa na televisão, um talk show de entretenimento, do género “Chupem Invejosos”, que é também uma expressão muito minha. Quero continuar na internet, porque acho que dá uma liberdade que a televisão, por exemplo, não dá. Quero trazer novos conteúdos e diferentes para o meu canal de YouTube e estar próxima das pessoas, numa interação total. Toda a gente vive de sonhos, mesmo que o sonho caia de hoje para amanhã. Se não temos sonhos, não temos vontade de viver. Por isso deixem-me sonhar.

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