Revista Rua

2020-06-26T15:30:00+00:00 Opinião

A memória da pastelaria Serra

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
26 Junho, 2020
A memória da pastelaria Serra
©D.R.

Eu penso que a memória entra pelos olhos.
Há umas partes inflamáveis nas paisagens, as que regressam quando
vemos a memória a mover-se de fora para dentro.”
(Herberto Helder in Photomaton & Vox)

Nos dias que vão passando, como uma margem à criação, vejo-me dentro das minhas próprias memórias como um exterior intrínseco. Tudo se desenrola como um filme muito antigo com tons claros de Verão.

Não há nada de poético nestas margens do cérebro, apenas o desenvolvimento da ação artificializada pelos neurónios cansados. E revejo-me, entendo por onde estou, mas sempre sem saber por onde vou.

Depois pergunto-me, às memórias e montagens, quem sou eu e que voz é aquela. Como numa gravação metafórica – paira a questão do estilo. E aí percebo que a culpa é do tempo, que não cicatrizou como deve de ser. Ou então fê-lo e eu não o sei comprimir dentro dos arquivos memoriais.

Esta margem do autor deixa-o à prova sempre que se procura, porque é na obra que todos o encontram e ainda assim permanece invisível aos seus pequenos olhos cegos sem palavras que o alumiem a estrada de alcatrão esbatida.

Quanto a mim, o meu corpo fictício é entregue a uma pastelaria enorme no sul litoral. Vejo as palavras proliferadas da minha boca como um movimento lasso na companhia de cadáveres tão vivos e serenos, com cor de gente.

Pedimos bolos e cafés e rimos num mecanismo tão simples e acessível, passando os olhos pelas capas dos jornais e programas matinais, com a temperatura tépida e húmida a prosperar no que se tornará numa tarde de muita água salgada e fresca, arrebatando ondas nos nossos pés.

Estes pequenos biscoitos com formas estranhas e de um sabor característico jamais imitado por qualquer outra parte do país ou mundo, acontece pela presença matutina das nossas jornadas.

Os temas iam daqui para ali, e de lá para cá, o barulho acumulava-se e partíamos para outro local. Um pequeno passeio pelo jardim paralelo, uma pausa no quiosque para o jornal desportivo e três raspadinhas de um euro, uma para cada um de nós e talvez um euromilhões porque “dá mais sorte fora de casa”.

Todas as epopeias possíveis se desenrolavam no compromisso laçado a sangue e cravado a tempo. Os anos passavam e éramos mais nós – um anonimato que surge do nada a partir da geração e que se vai desmanchando com a afirmação dos passos.

“No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirado e eterna.”

(Herberto Helder in A Fonte – VI)

E todos os retratos são pedaços de memória estancada, como sangue coagulado que me prende o coração na estática melancolia. Depois a memória vem dar movimento ao estilo e à voz – e desprende-se das fotografias a pastelaria, os bolos e os cafés.

Estamos no Sul, no Alentejo litoral, a caminho de São Torpes ou de Porto Covo, perdidos num enorme onda com três ou quatro metros, com a coragem de uma pele queimada e salgada ao amor.

Entramos de cabeça vergada para a espuma que vai morrer nos grãos de areia, e os olhos testemunham um turbilhão de gotas malogradas que nos abriram por dentro. Ainda me restam algumas nos ouvidos, que não ousam sair e me castram a alegria, em pequenos fios cristalizados.

A tolha seca o sol e o regresso aos teus braços. Não há repouso que me enxugue os ouvidos, nem toalha que me adormeça. É do outro lado da margem que se dá a criação e é aí que tenho de viver, agora.

O filme vai-se desenrolando com cores de Verão, e a cada dia tornar-se-á ainda mais antigo, mais gasto – e ainda assim continua cá.

Há mais voz dentro da memória muda que em todo o acontecimento real que cegamente se distribui pela ação quotidiana. Dentro de cada Homem paira uma engrenagem da identidade que se desencadeia nos retratos artificiais da saudade.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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