Revista Rua

2019-12-03T20:44:06+00:00 Opinião

A minha vida é um Pandamónio

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
3 Dezembro, 2019
A minha vida é um Pandamónio
©D.R.

Serve este texto para me confessar e para obter a solidariedade do caro leitor ou da cara leitora. Eu não me alcoolizo, não me drogo (se não considerarmos o futebol uma droga. Nesse caso, sim, drogo-me desde pequeno), não me meti nos escuteiros… mas agora ando metido no Canal Panda.

Todos já fizemos loucuras e cometemos erros por amor. É o meu caso, já que me meti no Canal Panda por causa do meu sobrinho. Aparentemente, como ele não percebe o que eu digo e ainda não sabe ler, não tem acesso à genialidade que, muito modestamente, todos os meses partilho convosco, portanto não o consigo entreter com as armas que tenho. A arma que me resta é o comando da televisão. Ainda por cima, normalmente tenho de tirar as pilhas do comando, o que não me permite que, de forma totalmente inadvertida, mude de canal e o faça mudar de ideias. Assim sendo, resta-me acompanhá-lo no visionamento de desenhos animados e na audição de canções infantis.

Quanto aos desenhos, há dois destaques: Heidi e Masha e o Urso. Em relação a Masha e o Urso, não tenho muito a dizer. O miúdo gosta do genérico inicial e as personagens e histórias até são engraçadas. Ou eu é que já não vou para novo e não tenho critério nenhum.

Quanto à Heidi… Bem, aqui admito que realmente já não vou para novo, mas tenho orgulho nisso. A Heidi não é a mesma que conhecemos, desde logo porque pegaram nela, puseram no Paint e esticaram a imagem. De resto, continua a ser a mesma santinha de sempre, pelo menos isso. Podia ter-se metido com más companhias, mas não, continua com o Pedro e com a amiga que anda em cadeira de rodas. Já o avô da Heidi, apesar de idoso e carrancudo, tem doenças modernas. Acontece que ele estava a construir uma ponte e teve um ataque de pânico. Um. Ataque. De. Pânico! Isto porque aquela tinha sido uma ponte que ele tinha construído anos antes e que caiu, matando o filho, pai da Heidi. Volto a dizer que o comando não tinha pilhas, portanto, não, eu não mudei para a CMTV, isto aconteceu mesmo no Canal Panda. “Idoso tem ataque de pânico ao reconstruir ponte que matou o filho” – a análise de Francisco Moita Flores e do deputado André Ventura.

Relativamente a canções, o bebé gosta de tudo o que é música que lá passa, mas fica colado num cogumelo alucinogénio chamado Panda e os Caricas. Para já, não sei de onde vem a relação entre um panda e a tampa de uma bebida. Se fosse Panda e os Bambus, aceitava. Panda e os Arroz Chao Chao, muito bem. Mas isto, não.

Os Caricas são compostos, basicamente, por estereótipos das escolas primárias: o fraco de feição, com queixo avantajado; a princesinha; o caixa de óculos, que tem um tom de voz colocado, mas é o que pior se mexe; e a cheiinha. Quanto a esta última, temos body shaming, temos: primeiro, ela chama-se Pipa; depois, na canção “Era uma vez”, é dito que o João Ratão é “guloso e comilão”; nisto, responde a princesinha: “é como a Pipa”. E todos se riem. Não sei onde andam os justiceiros das redes sociais, mas há coisas que vos andam a escapar, amigos. E tempo é o que não vos falta, para se revoltarem com estas coisas. Fazei atenção!

Pronto, já me sinto mais aliviado por ter desabafado convosco. Juntem-se à minha corrente de orações, para que esta fase passe rápido e o puto evolua rapidamente para o Panda Biggs, para ver o Tsubasa.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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