Revista Rua

2026-05-13T19:04:20+01:00 Opinião

“A mulher por detrás da parede”, uma história real contada por Filipa Fonseca Silva

Filipa Fonseca Silva traz-nos a história da “outra” mulher.
Cláudia Paiva Silva
13 Maio, 2026
“A mulher por detrás da parede”, uma história real contada por Filipa Fonseca Silva

Quantos de nós não conhecemos casos idênticos? Às vezes até na nossa própria família? Por vezes, de forma inacreditável, são situações abertas, de anos, com vidas e famílias em consentimento pleno, com conhecimento de todos, mesmo que isso traga apenas traumas e interrupções. Outras vezes é pior. Mentiras, segredos, vidas duplas – nas quais, temos de aceitar e reconhecer, a culpa nunca acaba, nem começa, no homem. Dizem que é a sociedade que nos responsabiliza. A forma como nos imiscuímos, quais cobras a serpentear. Não, a culpa nunca é do homem, coitado, o marido fiel que não se consegue controlar, mas sim, sempre de uma mulher. Ora a oficial, que não lhe dá em casa o que ele acaba por procurar fora. A outra, a amante. O velho ditado musical “uma lady à mesa, uma louca na cama”, mas neste caso, fala-se de duas pessoas distintas.

E, pensando bem, nem sempre a adjetivação é a correta. Porque também sabemos que a “outra” é conhecida por outros epítetos. Mesmo que a outra nem saiba da existência da primeira. Mas, e quando sabe e passa anos a saber que está a ser enganada? Ou acha que poderá estar a ser enganada? Mas de tal forma que a sua cabeça acaba por ser levada a acreditar genuinamente que tudo, um dia, como por milagre, mudará? Vivam os narcisistas tóxicos!

Filipa Fonseca Silva conta-nos a história de Estefânia, uma mulher com um passado familiar traumático, uma relação com uma mãe inexistente, um pai que abandona a família. E, como tal, vítima de uma total anulação da sua vontade, do seu ser. Facilmente influenciável, facilmente ingénua.

Escreve a narradora algures na história que conta: “Talvez seja a noção da minha pequenez e finitude. A sensação de que a minha vontade, ali, é igual a nada. (…) Volto a ter noção do meu lugar, que não é nas nuvens a sonhar alto nem é na terra onde há raízes sólidas. As minhas apodreceram há muito, tal como os sonhos.”

Filipa soube de uma “história” similar à da sua personagem e agarrou-a. Uma mulher que passou anos a ser enganada, mais do que a enganar – uma mulher que nunca teve vida própria, e que sim, anulou-se em detrimento de um relacionamento que nunca lhe trouxe nada. Apenas vazio no final. E sim, havia uma parede, física, a separar duas vidas, duas possibilidades possíveis para o verdadeiro responsável. E uma esposa, legítima, com filhos legítimos, reais – e não com a mera vontade de os ter.

A mulher por detrás da parede revela-se uma realidade ficcionada, a qual, podemos garantir, o desfecho na vida real não acontece da mesma forma que no livro. Porque, apesar de tudo, nós, mulheres, conseguimos (ainda) ter a capacidade de fazermos as pazes – não com os outros, mas connosco, pelos erros, pelos recuos. E com isso, acabamos por deixá-los seguir as suas vidas, mesmo que os efeitos secundários possam ser devastadores.

“Sempre que o meu mundo desabava, encolhia-me sobre mim própria sossegando o sangue que fervia, a respiração que acelerava, as lágrimas que brotavam.
Ensinei a minha mente a construir histórias que justificassem cada desilusão, mantendo a raiva bem domada lá no fundo. E, sem querer, fui-me anulando.
(Pronto. Sossega. Recolhe)”

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