
Quantos de nós não conhecemos casos idênticos? Às vezes até na nossa própria família? Por vezes, de forma inacreditável, são situações abertas, de anos, com vidas e famílias em consentimento pleno, com conhecimento de todos, mesmo que isso traga apenas traumas e interrupções. Outras vezes é pior. Mentiras, segredos, vidas duplas – nas quais, temos de aceitar e reconhecer, a culpa nunca acaba, nem começa, no homem. Dizem que é a sociedade que nos responsabiliza. A forma como nos imiscuímos, quais cobras a serpentear. Não, a culpa nunca é do homem, coitado, o marido fiel que não se consegue controlar, mas sim, sempre de uma mulher. Ora a oficial, que não lhe dá em casa o que ele acaba por procurar fora. A outra, a amante. O velho ditado musical “uma lady à mesa, uma louca na cama”, mas neste caso, fala-se de duas pessoas distintas.
E, pensando bem, nem sempre a adjetivação é a correta. Porque também sabemos que a “outra” é conhecida por outros epítetos. Mesmo que a outra nem saiba da existência da primeira. Mas, e quando sabe e passa anos a saber que está a ser enganada? Ou acha que poderá estar a ser enganada? Mas de tal forma que a sua cabeça acaba por ser levada a acreditar genuinamente que tudo, um dia, como por milagre, mudará? Vivam os narcisistas tóxicos!
Filipa Fonseca Silva conta-nos a história de Estefânia, uma mulher com um passado familiar traumático, uma relação com uma mãe inexistente, um pai que abandona a família. E, como tal, vítima de uma total anulação da sua vontade, do seu ser. Facilmente influenciável, facilmente ingénua.
Escreve a narradora algures na história que conta: “Talvez seja a noção da minha pequenez e finitude. A sensação de que a minha vontade, ali, é igual a nada. (…) Volto a ter noção do meu lugar, que não é nas nuvens a sonhar alto nem é na terra onde há raízes sólidas. As minhas apodreceram há muito, tal como os sonhos.”
Filipa soube de uma “história” similar à da sua personagem e agarrou-a. Uma mulher que passou anos a ser enganada, mais do que a enganar – uma mulher que nunca teve vida própria, e que sim, anulou-se em detrimento de um relacionamento que nunca lhe trouxe nada. Apenas vazio no final. E sim, havia uma parede, física, a separar duas vidas, duas possibilidades possíveis para o verdadeiro responsável. E uma esposa, legítima, com filhos legítimos, reais – e não com a mera vontade de os ter.
A mulher por detrás da parede revela-se uma realidade ficcionada, a qual, podemos garantir, o desfecho na vida real não acontece da mesma forma que no livro. Porque, apesar de tudo, nós, mulheres, conseguimos (ainda) ter a capacidade de fazermos as pazes – não com os outros, mas connosco, pelos erros, pelos recuos. E com isso, acabamos por deixá-los seguir as suas vidas, mesmo que os efeitos secundários possam ser devastadores.
“Sempre que o meu mundo desabava, encolhia-me sobre mim própria sossegando o sangue que fervia, a respiração que acelerava, as lágrimas que brotavam.
Ensinei a minha mente a construir histórias que justificassem cada desilusão, mantendo a raiva bem domada lá no fundo. E, sem querer, fui-me anulando.
(Pronto. Sossega. Recolhe)”
