Revista Rua

2019-03-16T16:42:45+00:00 Opinião

A nova Aurora dos Sensible Soccers

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
16 Março, 2019
A nova Aurora dos Sensible Soccers

Os Sensible Soccers são um caso de estudo. É uma banda diferente do normal pela música que fazem, pela postura que assumiram desde o início e pelo que são capazes de dar ao público que os ouve.

Com um primeiro trabalho de originais editado em 2011, os Sensible Soccers conseguiram afirmar-se, sobretudo, através da internet como um raro caso de sucesso que não é alicerçado em grandes estratégias de promoção ou divulgação. Exemplo disso é o facto de só terem editado o primeiro vídeo musical para um single em 2016. A sonoridade que apresentaram desde o início era diferente; uma verdadeira pedra no charco naquilo que era o panorama musical em Portugal à altura. Com base na música eletrónica, os Sensible Soccers conseguem pegar num caldeirão de elementos que os tornam verdadeiramente únicos. Não há outra banda a soar assim, este foi o grande mérito deles.

Em 2014 lançam 8 e imortalizam temas como AFG ou Sob Evariste Dibo. Mostram um lado mais progressivo e melódico que contrastava com a sonoridade mais ambiental do primeiro EP. Em 2016, editam Villa Soledade, aquele disco ponto-rebuçado da carreira de uma banda, em que tudo soa a perfeição e vemos a evolução da banda, que não se deixa repetir, mesmo com a primeira baixa na formação – durante as gravações do trabalho o baixista da banda saiu – e o estatuto de banda de culto está mais consolidado do que nunca. Mesmo com a saída dum membro fundador, os Sensible Soccers conseguiram reinventar-se e explorar novos trilhos, abrindo caminho a um disco que narra histórias de viagens feitas de norte a sul do país, e que trazia a perfeição à sonoridade única da banda. Num disco-viagem que se ouvia de fio a pavio sem dar conta, ficaram imortalizados temas como “Villa Soledade”, “Bolissol” ou “Nunca Mais me Esquece”.

Em 2018, o segundo revés na formação da banda acontece: o guitarrista abandona o projeto e quem está familiarizado com o trabalho da banda sabe que é daqueles membros impossíveis de substituir. Não é apenas mais uma guitarra; longe disso. Era a base de todas as ambiências e floreados que só se ouve em Sensible Soccers. Onde iria a banda depois disto?

Pois bem, Março de 2019 marca o regresso do, agora trio, de Vila do Conde – aliás, Caxinas! – com uma pesada herança que culminou com um trabalho aclamado pela perfeição e com a árdua tarefa de continuar sem a guitarra que tanto os caracterizava. Aurora é anunciado ao mundo com o primeiro tema “Elias Katana” e o que se ouviu foi tanto de surpreendente como de inesperado. Uma roupagem mais clubbing, com vários elementos a subirem para primeiro plano como congas, marimbas entre outros instrumentos de percussão. O tema de avanço deixou clara a evolução da banda que mais uma vez se reinventou e evoluiu para algo novo, mas sem deixar de soar à identidade que tanto os singulariza. Este foi o mote para Aurora, um disco inspirado na nostalgia dos anos 80 e 90, dos dias de praia, de tempos idos, dum verão tipicamente português.

Capa do disco Aurora

Quem ouve o disco percebe desde o início que está perante mais uma aposta ganha da banda. Com produção de B Fachada, o disco consegue trazer novos elementos para o já recheado caldeirão de elementos sonoros que a banda tem. Este facto deve-se, por um lado, à mutação que a banda sofreu com a saída de dois elementos e com a entrada de três – um novo baixista e dois elementos novos – e, por outro, pela procura constante de evoluir e fazer algo diferente. A ausência de rotina é, de facto, o grande mérito na obra dos Sensible Soccers, uma banda camaleónica, mas sem perder a sua identidade própria.

Ao fim dos dez temas que contam a história de Aurora ouvimos perfeitamente a evolução da banda, da nova roupagem meia tribal, do deambular pelos corredores da POP em alguns momentos, das ambiências únicas que conseguem transmitir desde o primeiro EP até agora, dos novos papéis que cada elemento desempenha e da coesão sonora que apresentam. Isto é ainda mais de louvar quando é uma banda em metamorfose desde sensivelmente 2015.

Aurora traz uma nova vida aos Sensible Soccers. Uma nova fase ainda com muito para explorar e que foi alcançada com toda a mestria. Temas como “Elias Katana”, “Luziamar”, “Farra Lenta” ou “Import Export” serão certamente tocados por daqui a muitos anos.

O estatuto de banda de culto está mais do que justificado e fica-lhes bem.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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