Revista Rua

2021-03-19T12:40:29+00:00 Opinião

A nova fortitude

História
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
19 Março, 2021
A nova fortitude

Creio que todos aqueles que leram os meus artigos, desde que iniciei a colaboração com a Revista RUA perceberam certamente que sou um entusiasta e que me deixo levar facilmente por todos os apontamentos relacionados com História Militar, principalmente sobre a Segunda Guerra Mundial. Pela sua importância, dimensão e influência, sempre entendi como essencial estabelecermos um paralelismo entre o passado e o presente – e mesmo o futuro – apto a vincar os contornos do mundo, de um continente ou de um país.

Mesmo para aqueles que não nutrem qualquer interesse pelo tema, o Dia D e os desembarques na Normandia são sobejamente conhecidos e reconhecidos como um dos actos mais bravosos e magnânimos da História. Porém, o seu planeamento já não será assim tão conhecido. E na linha do que pretendo transmitir nesta reflexão, é inevitável falar de um dos seus alicerces: a Operação “Fortitude South”.

“Fortitude South” foi o nome de código para um dos maiores logros da História. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas necessitavam de desviar as atenções da Normandia, procurando convencer os alemães de que a invasão não seria naquele local. Para isso, criaram um exército fantasma (baseado no Sul da Inglaterra), que contava com aviões, carros de combate e até lanchas de desembarque insufláveis, aptos a enganar as missões de reconhecimento alemãs, fazendo-os antever um ataque em Pas-de-Calais – no local mais próximo entre França e Inglaterra. E para reforçar o seu objectivo, o comando Aliado colocou um dos mais temíveis Generais americanos ao comando daquele exército inexistente: George S. Patton.

O resultado está cravado na lápide da memória: o êxito da operação e a consequente vitória aliada na Normandia, que viria a ser determinante para o desenlace da guerra. O logro da “Fortitude South” resultou.

Este foi um exemplo formidável da enorme capacidade que o Homem tem para enfrentar os maiores desafios que podem surgir. Usou o engano para libertar a Europa do jugo nazi e, assim, contribuiu para a criação de uma nova ordem, de onde viria a brotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Volvidos mais de 70 anos, vivemos um período muito peculiar: por um lado, a era catastrófica das guerras esvaneceu-se num passado muito distante; por outro, a sombra de algumas ideologias e personagens, por vezes criteriosamente seleccionadas, pairam sobre a actualidade.

E como se não vivêssemos num mundo que nos oferece incessantemente dificuldades das mais variadas índoles, fomos ainda brindados com uma pandemia que alargou o leque de problemas para todos os países. Permito-me aqui estabelecer a simetria, pois os momentos de instabilidade e de maiores dificuldades são os mais adequados para se fazer lograr o logro. São os momentos ideais para as manobras de distracção.

Porém, não nos devemos desviar daquilo que tem um impacto directo e imediato nas nossas vidas: a actuação governamental; as decisões que são tomadas todos os dias e que influenciam as nossas vidas; as políticas implementadas.

No entanto, basta sintonizarmos a nossa televisão num espaço noticioso para percebermos que 80% do conteúdo da mensagem a difundir se bate por enaltecer as sombras do passado. E não são raros os exemplos que nos permitem concluir que este modus operandi dá maus resultados.

Estou certo de que o aprofundamento da globalização e o impacto das crises ulteriores a 2008 são um sério alerta para todos percebermos que, quando pensamos que a paz e a estabilidade estavam garantidas, as coisas não correram de feição. E sou o primeiro a defender que devemos sempre aprender com a História e que é crucial a conhecermos! Mas quem a conhece, sabe que a maioria dos europeus vive hoje em paz e em liberdade.

Já no nosso recanto, com paz e em liberdade, a rejeição de portais de transparência e monitorização de fundos europeus não merece destaque. O julgamento de um ex-Primeiro- Ministro acusado, entre outros, de corrupção e branqueamento de capitais, não arranca. Negociatas que causam milhões de prejuízo ao Estado e aos contribuintes celebram-se impunemente. Mas o importante é discutirmos a existência de um Padrão dos Descobrimentos. É debatermos linguagem inclusiva. É tentarmos descerrar um baú desconhecido que nunca tivemos curiosidade de abrir só para desfraldarmos uma bandeira qualquer. Sem percebermos que a discussão de todos esses assuntos, com a devida relevância que lhes deve ser aposta, é muito conveniente a vários insignes políticos. E aqui está a nova Fortitude. Não a Fortitude South, mas a Fortitude Rasca.

Como já Kant apontara, “da madeira torta da humanidade, nunca se fez nada direito”.

Nota: O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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