Revista Rua

2019-11-20T11:07:05+00:00 Opinião

A nova realidade musical do nosso país

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
20 Novembro, 2019
A nova realidade musical do nosso país

Já estive para escrever sobre este tema há dois meses, mas acabei por adiar. Seja como for, não podia deixar terminar o ano sem falar sobre o panorama da música nacional e dum acontecimento específico que tem de ser relembrado, pela mensagem e importância que teve. Já lá vamos.

Começa a ser, felizmente, do senso comum da generalidade das pessoas que a música nacional atravessa uma fase áurea, diria que sem igual, quer nas edições, quer no aparecimento de novos projetos musicais, onde há coisas de enorme valor a aparecer numa cadência nunca antes vista. É certo que a realidade dos dias de hoje, como o acesso universal à internet, as redes sociais e as plataformas que existem, ajudam, e muito, a que haja maior proliferação da informação e que seja bem mais fácil a uma qualquer banda de garagem lançar-se. O número de estúdios de gravação e o facto de termos um avanço tecnológico sem paralelo também ajuda a que o número de lançamentos discográficos tenha aumentado. Hoje em dia consegue-se gravar um disco com menos custos e, se pensarmos bem, andamos, hoje em dia, com super computadores no bolso, os chamados smartphones, que com um pouco de engenho conseguem ser autênticos estúdios de bolso para quem os souber usar.

©Nuno Sampaio

Sim, vivemos tempos positivos na arte da música no nosso país. Vê-se isso um pouco por todo o lado. Seja nos grandes festivais ou nos pequenos, na rádio ou até mesmo no revigorado Festival da Eurovisão, que chamou os mais recentes valores nacionais para participar e representar o país. Este fenómeno não é de hoje, na verdade começou há cerca de 15 anos com o surgimento de toda uma geração que passou pelos Linda Martini, The Legendary Tigerman e que perdurou até aos dias de hoje com exemplos mais recentes, como Samuel Úria, Surma ou Capitão Fausto. O melhor de tudo é que há tantos e bons valores que é uma certeza que isto estará ainda para durar. É tudo menos um fenómeno efémero.

Voltando ao início do texto, o tal acontecimento específico que falava teve lugar este ano, precisamente com Capitão Fausto no Festival Vodafone Paredes de Coura. Já costuma a ser hábito vermos bandas nacionais, as tais ditas bandas desta geração de ouro dos últimos 15 anos, nos grandes festivais. Porém, pela primeira vez, pelo menos que me lembre, ali em Coura uma banda nacional – os Capitão Fausto – encerraram o palco principal e, sobretudo, convém registar, tocaram depois de New Order. Quanto muito, temos visto bandas portuguesas a terem honras de abertura dos palcos principais, nos grandes festivais, mas ali, em agosto, aconteceu precisamente o oposto. Acima de tudo, uma prova de coragem e de reconhecimento não apenas à banda em questão, mas a toda esta nova realidade musical que se vive no nosso país.

Todo este talento, toda esta nova realidade que contraria a mentalidade provinciana, que já Eça de Queiroz falava, de que “o de fora é que tem valor”, precisa de ser alimentada e nada melhor do que este carimbo de qualidade que a privilegia e valida. Pode parecer que é só um concerto num palco dum grande festival nacional, mas é muito mais do que isso. Aconteceu, ali, história, e um dia as pessoas entenderão isso.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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